O CENTRO CÍVICO ESTADUAL DO PARANÁ: CATÁLOGO DA ARQUITETURA MODERNISTA BRASILEIRA

4 de novembro de 2013 por keyimaguirejunior

Por concentrar um grande número de edificações públicas – onde ainda se pratica uma Arquitetura com mais qualidade que a de mercado – o Centro Cívico Estadual do Paraná, em Curitiba, ao longo de mais de seis décadas se constituiu numa amostragem de tendências modernistas na Arquitetura Brasileira.

Começando pela configuração urbanística perceptível: o Plano de Urbanização com consultoria do arquiteto francês Alfred Agache, datado de 1943, e que tomou seu nome, já definia a localização do Centro Cívico na Capital do Estado. Como também do Centro Politécnico da UFPR; e outras marcas das propostas desse plano ainda são identificáveis na cidade – como por exemplo, a largura de algumas ruas, destinadas aos anéis de circulação viária; e as galerias cobertas na Rua XV de Novembro, entre Monsenhor Celso e Marechal Floriano.

O urbanismo modernista preconizado pelos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (CIAM) fazia a apologia dos “core”. No caso de Curitiba, sendo empreendimento governamental, houve predomínio exclusivo das funções administrativas “dos três poderes”. Previu-se um eixo monumental – e monumentalidade foi a palavra de ordem – ligando esse conjunto de construções ao núcleo histórico da cidade, a Praça Tiradentes. Esse eixo, tendo sido abandonado à iniciativa privada – com exceção da Praça 19 de Dezembro – ostenta monumentalidade vulgar, em nada diferente de outras avenidas da cidade. Ou de outras cidades.

Superado pelo crescimento explosivo da cidade, bem como pela evolução dos paradigmas urbanísticos, em 1965 a Prefeitura de Curitiba contrata o Plano Preliminar de Jorge Wilhelm – ao qual a cidade deve sua configuração atual. Há permanências identificáveis em relação ao plano anterior, já consolidadas – entre elas, o então já construído Centro Cívico.

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O plat de resistence arquitetônico foi o Palácio Iguaçú. Concepção de tradição corbuseriana, o volume horizontal sobre pilotis centraliza os pontos de fuga da Avenida Cândido de Abreu/Barão do Cerro Azul. Projeto de David Xavier de Azambuja, formado em 1931 na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro onde e quando, acredito, era mais presente a influência de Le Corbusier. O mesmo arquiteto projetou também o Conjunto da Reitoria da UFPR na década seguinte – que teve, no entanto, o auditório reprojetado.

O Palácio Iguaçú se ressente de uma reforma recente, desrespeitosa ao monumento, citado na obra clássica de Henrique Mindlin como participante de um momento de evidência internacional da moderna arquitetura brasileira.

Pertencem também ao conjunto original de edificações os edifícios do Legislativo e do Judiciário, muito embora com alterações e acréscimos que algumas vezes lhes são favoráveis e outras não.

Há descaracterização nos edifícios da Assembléia Legislativa. No plenário, uma grande coluna em “V” foi substituída – ou encoberta? – por uma cortina de vidro. O bloco horizontal “das Comissões” sofreu incêndio, vejam só que coincidência, na noite da troca de partido no poder estadual em 1995. No entanto, o projeto de Olavo Redig de Campos, construído ao mesmo tempo que o Palácio Iguaçú, permanece como uma das edificações compatíveis com a estética original do Centro Cívico.

Também o Palácio da Justiça e o Tribunal do Juri pertencem à vertente corbuseriana. O primeiro é edifício horizontal compondo com o Tribunal do Júri e a ele ligado. No troca-troca das crises econômicas e políticas, foi construído recentemente, com uma arquitetura que lembra menos a elegante austeridade de edifício público que os edifícios em estética de mercado do entorno. O projeto original foi de Flávio A.Régis do Nascimento.

A referência vertical de um conjunto onde predominavam os volumes horizontais, era o Palácio das Secretarias – atualmente, Tribunal de Justiça. Dos 33 pavimentos previstos, no entanto, foram construídos apenas 12. Não sei se procedem as alegações de problemas estruturais ou se foi politicagem mesmo. Em anos recentes, uma ampliação deste volume foi feita na elevação para a rua Mello Leitão. Embora se tenha preservado a perspectiva a partir do Centro Cívico, a volumetria deixou de ser a “lâmina” prevista por Sérgio Rodrigues, perdendo-se assim em grande parte a verticalidade da composição original.

A componente vertical do Centro Cívico virá em 1976, com o Anexo da Assembléia Legislativa. O prisma de base triangular projetado por Joel Ramalho Junior, Leonardo Oba e Guilherme Zamoner Neto, tem como uma de suas faces um grande espelho que reflete outras edificações e a paisagem do Centro Cívico.  É o representante da fase hegemônica do Modernismo Brasileiro, quando este se mostrava inabalável e além de qualquer questionamento.

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Outra vertente modernista são os edifícios das Secretarias de Estado, na rua Mario de Barros, atrás do Palácio Iguaçú. Essa arquitetura, acredito que fundada pela Bauhaus, aporta no Brasil depois de assimilada nos Eua – e tem, em Curitiba, poucas formulações, devido ao alto custo energético. Há que considerar que esse tipo de debate começa bem mais tarde que a construção, de 1977. O projeto é de Luiz Forte Neto, Orlando Busarello e Dilva Cândida Slomp Busarello. Dos cinco edifícios projetados, apenas dois foram construídos, perdendo-se o interessante agenciamento paisagístico entre os blocos em troca de  um vazio urbano entre o Centro Cívico e o Parque João Paulo II.

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Cronologicamente, o edifício da Prefeitura de Curitiba, projetado por Rubens Meister, pertence ao momento que antecede à criação do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPR. É de 1960, e representa a arquitetura praticada por engenheiros, assegurando a continuidade do catálogo a partir da fase corbuseriana e a seguinte, produzida por professores e arquitetos formados pelo CAU.

Como é inevitável, a arquitetura dos palácios de Brasília marca também o Centro Cívico: o tribunal de Contas, de 1977, projeto de Roberto Luiz Gandolfi e José Sanchotene faz essa referência. Abriga, sob a cobertura plana de concreto, uma caixa d metal e vidro. Está estruturada por placas verticais de angulações diversas na planta.

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O Edifício Castelo Branco era, originalmente, Instituto de Educação. Não sei como o projeto – de 1971, com a ditadura militar a pleno vapor – foi pedido a Oscar Niemeyer. Admirável como é em sua ousadia estrutural, desde a primeira visita que fiz à obra, achei-o muito mais artigueano que niemeyeresco…

Trinta anos depois, ao receber a torre para ser transformado em Museu de Arte, esta lhe autentica a autoria: inconfundível, encimada por um volume gerado por duas hipérboles, que lhe valeu o apelido de “Olho”.

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Nosso “Catálogo Modernista” é, portanto, bastante rico e representativo – talvez não completo, mas sempre se pode contar o percurso da Arquitetura Moderna Brasileira passeando por ele.

E poderia ser melhor – sempre é possível, pois não?! – mas não um pouco melhor e sim muito melhor. Seria muito mais interessante se contasse com a contribuição paisagística de Burle Marx. Lidando na Mapoteca do IPPUC como estagiário nos tempos heróicos daquela instituição, vi cópias heliográficas desse projeto.

Não pertencem, como é óbvio, ao conceito original. A decantada maquete citada em toda parte, mostra para o vazio da praça um piso quadriculado, quase certamente em concreto como a avenida de acesso. Mas o projeto de Burle Marx existiu e era bom – vi com esses olhos que a terra há de comer. No entanto, nunca foi mencionado em lugar algum, ao que eu saiba. A essa altura, talvez essas cópias tenham convenientemente “se” apagado…

No entanto, em algum lugar devem existir essas pranchas. E resgatá-las, tarefa imperiosa para a cultura arquitetônica brasileira – que não é nada fraca nem coitadinha como o país que a gerou, apenas pouco conhecida.

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Quando, começado o atual milênio, os estudantes do CAU e outras entidades de classe dos arquitetos abraçaram carinhosamente o Centro Cívico, foi em reconhecimento de seu valor patrimonial. Embora, como é normal, essa manifestação tenha caído nos ouvidos de mercador da mídia e das autoridades.

Entendo que executar os jardins projetados por Burle Marx daria muito mais beleza, mais coerência, mais autenticidade e mais consistência cultural ao Centro Cívico. Ou então voltar ao ladrilhado da famosa maquete. Tudo, menos estacionamento e vias rápidas…

Algumas referências

-AGENDA 2004 da UFPR; Arquitetura Moderna no Centenário da Emancipação Política do Paraná.

– DUDEQUE, Irã Taborda. Nenhum dia sem uma linha: uma história do urbanismo em Curitiba. São Paulo, Nobel, 2010.

– GONÇALVES, Josilena Maria Zanello. Arquitetura Moderna no Centenário da Emancipação Política do Paraná: a construção de um marco de referência. Dissertação de Mestrado, USP/São Carlos, 2001.

– Ilustração Brasileira. Edição comemorativa do Centenário do Paraná. Ano XLIV, dezembro 1953, número 224.

– Mensagem apresentada à Assembléia Legislativa do Estado pelo senhor Bento Munhoz da Rocha Netto Governador do Paraná 1953.

– MINDLIN, Henrique. L’Architecture Moderne au Brésil. Rio de Janeiro/Amsterdam, Colibris, 1956.

– XAVIER, Alberto. Arquitetura Moderna em Curitiba. Curitiba/FCC, São Paulo/Pini, 1985.

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