O IPPUC DO CUPPI

9 de novembro de 2013 por keyimaguirejunior

Imagem1-Breve contextualização

Entrei para o IPPUC em 1967, para trabalhar na pesquisa do Plano de Habitação, coordenado por Almir e Marlene Fernandes. Transitei, ao longo de três anos, pela maioria das pesquisas então desenvolvidas – inclusive e principalmente, o Plano do Setor Histórico, de 1970, coordenado pelo Cyro Correa Lyra. Mas uma parte substancial desse período, foi organizando e cuidando da mapoteca – destino final de todos os trabalhos.

Foi uma época tumultuada – para mim e para a instituição que, então recentemente criada (1965) não estava muito consolidada.

Aqui, vou evitar nomes e datas – a não ser os que não dá prá contornar. São dados fáceis de verificar, sendo o caso. Fica tudo entre 1967 e 1970.

O prefeito “biônico” – como se dizia das autoridades não-eleitas, nomeadas pela ditadura – era Omar Sabag. Ainda não estava assimilada a necessidade de subordinar as ações administrativas a um planejamento. A seu favor, deve ser dito que a idéia era nova no país, no qual se conhecia, quando muito, o Plano Diretor, documento estático. O IPPUC era novidade introduzida pelo Jorge Wilhelm.

Depois de algumas crises – acho que a mais grave foi a que envolveu o projeto da Rodoferroviária – que causaram a demissão do diretor presidente do IPPUC, exonerado e colocado em seu lugar, um “interventor”. A palavra não era essa, mas a função, sim. O Instituto entrou numa fase de desprestigiamento e compasso de espera.

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     O CUPPI já existia desde 1968. Mas, com tempo sobrando nas secções de pesquisa e desenho, teve um “aumento de produção” enorme. Essas secções comportavam dez a doze estagiários e funcionários, variando para mais ou para menos. Sendo a maioria estudantes de arquitetura, “aprontar” na hora do chá e fora dela era apenas o esperado. Na cozinha, mantida pela Nonna, surgiu a idéia de um duendezinho a ser responsabilizado pelas estrepolias. O nome foi dado por mim e a forma de ovo, traçada pelo Cincinato. (Como “nota de rodapé”, ele assumia influências do Joselito, desenhista autor de histórias em quadrinhos na revista “Sesinho”.)

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     No fim do ano de 1968, surgiu a idéia de juntar a produção – desenhos, fotos, recortes – num volume. Fazia-se, de passagem, uma sátira aos “Year Book” com que os ricaços se promoviam entre si.

Bem, o fim da história é que o “Livro do CUPPI” tirou quatro edições. Pouco depois da minha saída do IPPUC, o desfecho político inesperado (para mim): o diretor-presidente anteriormente demitido, voltou de Brasília como prefeito biônico, deflagrando uma fase contrária à anterior no Instituto.

2-Desenhos

Englobava as secções mais importantes dos livros, sendo o melhor da produção cuppiana. Exploravam as situações cartunísticas reais, agregando, ao olhar de hoje, um valor de crônica. Havendo uma concentração de desenhistas e estudantes de arquitetura, todos arriscavam uns traços. Às vezes só a idéia era passada ao Cincinato, ou os muito precários eram refeitos. Cartuns, caricaturas e histórias em quadrinhos, contavam do cotidiano da instituição – mas também falavam de temas externos.

Principalmente as caricaturas aplicadas às situações e às fofocas internas e externas – dão conta do ambiente de trabalho com tudo o que é normal, ou nem tanto também… Estão aí as birras, os antagonismos, os ciúmes – e também a amizade, a cooperação e o bom humor.

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     Os desenhos e outros materiais iam sendo formatados no tamanho 18 X 24 (para compatibilizar com as fotos) e acumulados na gaveta do meu escaninho. No fim do ano, eram encadernados pelo Izidoro Kotovei. Nos originais, percebe-se que alguns estiveram expostos nos painéis das paredes por algum tempo, antes de serem recolhidos para o livro.

A contribuição mais esperada era a do Domingos Bongestabs, que a trazia pronta de casa e era uma surpresa total – nunca se podia desconfiar de por onde andaria a imaginação do arquiteto… Sendo material considerado precioso, muito bem realizado, eu me apropriava dele na hora da chegada – e só era visto pelos demais depois de encadernado, na circulação do livro, de mão em mão. De preferência, na minha mão…

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3-Fotografias

Fiz a maior parte das fotos – ou minha câmera as fez, nas mãos de outros. Havia várias em circulação – e no tempo da fotografia convencional de negativo, implicava no demorado e dispendioso processo de revelação e cópia. Estas eram feitas no laboratório improvisado no banheiro de serviço da casa de meus pais – bastante precário, portanto, donde uma qualidade técnica que deixa muito a desejar.

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4-Recortes

Eram tempos de repressão e censura – coisas que, como se sabe, estimulam a transgressão. A praticada nos tempos da ditadura,extrapolava o razoável na defesa da família da tradição, e da propriedade.

Com isso, criava-se o clima de “tudo é proibido, logo pode-se fazer tudo”. E, em procurando, acha-se – por exemplo, conotações mais do que eróticas, pornográficas, em qualquer coisa, qualquer lugar, qualquer pessoa.

Era o que recolhíamos em revistas e jornais, para colar na porta da mapoteca. Esta era do tipo que entra na parede, ficando as folhas ocultas quando o vão está aberto. Era formado assim um interessante painel – independente do teor erótico aos olhos de hoje – se pensarmos no quanto a censura estimulava a leitura erótica.

As peças mais explícitas compunham o “suplemento pornográfico” dos livros – o que ficava bem caracterizado para evitar alguma reclamação de “ter caído inadvertidamente” na secção. Era o “Pornocuppi”.

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     Os demais recortes eram distribuídos pelos espaços em branco: por exemplo, verso de páginas.

Observação: décadas depois da minha saída do IPPUC, soube que o CUPPI tinha atacado novamente com impressos, cartazes, cartões de Natal e até uma miniatura em resina, com a participação do Cincinato.

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