TRÊS RETRATOS DE CURITIBA

2 de setembro de 2013 por keyimaguirejunior

Dos muitos retratos que se fizeram desta Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais Derrubados – a grande maioria rescende ao discurso oficial: “Cidade de Primeiro Mundo”, “Capital Ecológica”, “Modelo de Planejamento Urbano”, “Melhor Qualidade de Vida Planetária” e por aí afora. Uma coleção de insanidades na qual é preciso ser muito trouxa para acreditar.

No entanto há retratos que, conquanto de amor à cidade, não enrolam ninguém – antes contam o que os fotógrafos, como artistas, conversam com ela. Não são vinculados ao discurso político, mas às impressões reais e pessoais. Gosto particularmente de três deles:

– o de Jack Pires, “40 clics em Curitiba”, de 1976

– o de Vilma Slomp, “Curitiba Central”, de 2013

– o de Washington Takeuchi, “Circulando por Curitiba”, inédito.

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            Historicamente, Jack Pires fica entre a velha geração dos alemães – Weiss, Wolk, Wischral – e a atual.

Acho que o Jack, como veterano da FEB, tinha uma visão desencantada dos discursos ufanistas/patrióticos, que produzem as guerras. Suas fotos são o contrapelo da propaganda oficial que então se afirmava, visando fins políticos e eleitorais.

Jack Pires oferece um prato cheio de crianças pobres, tipos populares, ângulos largados à própria sorte, cantos desprezados com gente idem, gestos desgraciosos na espontaneidade do gesto trivial.

            “Ainda vão me matar numa rua.

                        Quando descobrirem,

                        principalmente,

                        que faço parte dessa gente

                        que pensa que a rua

                        é a parte principal da cidade.”

Lembro do polaco Leminski me contando ter sido convidado pelo Jack a poetar para o livro em preparo. A espuma do chopp escorrendo pelos bigodes, disse:

– Não vou fazer legendas poéticas para as fotos. Vou escrever diante delas,

pode sair até um diálogo de contradição.

Agora, 37 anos – e muito progresso na produção gráfica – depois, parece ainda mais evidente o acerto da opção. Os clics da câmera do Jack adquirem dimensões sempre novas ao lado dos clics da pena do Leminski.

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O retrato de Curitiba feito por Vilma Slomp se define sob um único rótulo: perfeição.

Não por acaso, são mais de trinta anos de flanagem fotográfica pela região central da cidade – onde Curitiba ainda é Curitiba, apesar da má vontade dos prefeitos.  Um retrato que contém o tempo, embora composto por imagens estáticas. Em que pese a longa duração da coisa arquitetônica – sua personagem por excelência – cada foto contém a captação do fugaz, aquela sombra, aquele reflexo, aquela luz que não se repetirá jamais. E se acontecesse de se repetir, não estaria ali o olho da fotógrafa capacitado a entendê-lo e equipada para capturá-lo,  em sua melhor composição, no enquadramento perfeito.

Quanta foto de “Curitiba Central” eu gostaria de ter feito! Tenho mais tempo de Curitiba que a Vilma – mas não sou bastante fotógrafo, nem munido da santa persistência, teimosia e, vá lá de novo, do perfeccionismo necessário para chegar a resultado próximo. Mesmo supondo que todas as condições para essas fotos marcassem reunião comigo como marcaram com ela – faltaria o capricho quase insano das horas de laboratório (bom fotógrafo não pode ser claustrófobo…), de mesa de luz, de editor de imagem, de gráfica…

Entrando pessoalmente neste rápido comentário, quero caracterizar que, para além de todos os parâmetros estéticos e técnicos, de vivência da cidade, de conceito fotográfico, de virtuosismo – fica a presença de uma percepção única, pessoal, isolada – e, mais uma vez, perfeita – que é o que faz uma obra de arte.

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Washington Takeuchi derruba, com suas fotos, os mitos de Curitiba como cidade hostil, habitada por gente intratável que não conversa nos pontos de ônibus. É o retrato que circula nas internets da vida, “Curitiba é isso ou aquilo, curitibanos são assim ou assado”.

Desde a meteorologia – “a capital brasileira com mais dias de céu encoberto”, os céus de Washinton são daquele azul que encantou Alberto de Oliveira. Em que pesem, é claro, alguns chãos molhados…

Embora utilizando cenários clássicos, sente-se um “amor à primeira vista” para captar o curioso, o bonito, o característico urbano. Os curitibanos de Washington estão à vontade em sua cidade para namorar, desfilar, fazer música, paquerar – enfim, tudo o quê, na melhor acepção buarqueana, se preconiza como brasilidade.

Melhor que compor legendas louvaminheiras, as fotos têm no índice um texto mínimo, informativo mas também funcionando quase como um hai-kai de acompanhamento…

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