SESINHO – UM GIBI DA “ERA VARGAS”

31 de agosto de 2013 por keyimaguirejunior

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    O Sesinho foi uma revista que circulou nos anos cinqüenta: a primeira edição é de dezembro de 1947 e a última de setembro de 1960. Essa correspondência quase exata com a década não é casual: em grandes linhas, como nos detalhes, liga-se à mentalidade da chamada “Era Vargas”, ascendendo e declinando com ela.

Editada pelo Sesi nacional, sediado então no Rio de Janeiro, foi fundada e dirigida em todo o seu percurso pelo escritor Vicente Guimarães. Os slogans não deixam dúvida quanto ao ideário: “Sesinho, a revista da criança inteligente”, e “Revista infantil escrita, desenhada e toda confeccionada no Brasil”.

A circulação anunciada chegou a cem mil cópias, em parte distribuída pelos Sesis e em parte vendida, inclusive por assinatura. Numa época ainda sob influência do livro “A sedução dos inocentes”, do americano Werthan, que atribuiu todos os males da sociedade americana aos quadrinhos, o Sesinho, com suas preocupações didáticas e posturas moralistas, circulava livremente nos lares da classe média brasileira.

Embora não se pretendendo – pelo menos, não explicitamente – um gibi, a participação das HQ na revista sempre foi significativa e, a esse propósito específico, podemos dividir sua história em duas fases bem nítidas e bem caracterizadas.

Uma primeira etapa vai da edição inicial  – a de número 83, correspondente ao mês de setembro de 1954 – portanto, a menos de dois meses da morte de Getúlio Vargas. Nessa edição, não se publica nenhuma HQ – caso único. Na segunda fase, mudam totalmente as histórias.

Dentro desse primeiro período, embora haja renovação constante de histórias e autores, há muita regularidade: vários títulos permanecem em cinqüenta ou mais edições.

Teremos aqui a participação de dois autores que, nos anos sessenta e setenta estariam na linha de frente da HQ brasileira: Ziraldo e Fortuna, este sob o pseudônimo de Ricardo Forte. Outros nomes da ilustração brasileira presentes na primeira fase do Sesinho são Gil Brandão, Ivan Wasth Rodrigues e Edmundo Rodrigues.

Joselito é um caso à parte nesse contexto. A maioria dos autores aportou à revista com seu talento juvenil pouco desenvolvido, sem ainda os traços que os tornariam conhecidos. Mas Joselito trás já um desenho bem definido e pessoal, de qualidades que saltam à primeira vista. Domina, como quadrinista e como ilustrador, as duas fases da revista, embora mudando os personagens. Seu desenho ágil e fácil o liga indissoluvelmente à Sesinho. Sua participação começa já na edição 17 e se estende até a última, a 153. Seus personagens têm uma longevidade que atesta o agrado dos leitores: Junga, Champanhota, Malaio e outros. Seu trabalho exerce também uma influência sobre os demais artistas da revista, por exemplo Paulo Roberto.

As primeiras 26 capas são da autoria de Wallace, como também a figura do personagem Sesinho, publicada na última capa. O Sesinho é, em seu desenho, nitidamente o filho de um operário, uniformizado segundo os padrões da época e envolvido em situações que, presume-se, são projetadas a partir do ambiente de trabalho paterno. Da capa da edição 27 em diante (fevereiro de 1950) as capas passam a ser desenhadas por Rodolfo, a idade do garoto avança um pouco e as situações são mais referenciadas à classe média.

Talvez a HQ mais original do ponto de vista gráfico, sejam as aventuras da teimosa Besourita e seu paciente compadre Grilo, da autoria de Jacyra. Cenários e personagens, conquanto ingênuos, revelam um mundo de surpreendente lirismo e beleza.

Poucos desenhistas da Sesinho apresentam uma qualidade de desenho profissional como Joselito e Gil Brandão. Como regra, são bastante imaturos. Alguns evoluem durante a participação na revista de forma surpreendente, como é o caso de Fortuna. Mas a maioria não chega tão longe, de onde uma rotatividade intensa de autores e principalmente, de seus personagens.

Talvez uma consciência disso os tenha levado a abandonar seus pseudônimos mais tarde. Essa suposição vem a propósito da que considero a melhor história publicada na Sesinho, o “Cel.Antão”. É assinada por Helvécio que, se permaneceu no ambiente da HQ, deve ter sido com outro nome.

Infelizmente de pouca duração – apenas dez aparições, no final da primeira fase, temos uma história simples como texto, como expressão gráfica e como narrativa – mas muito criativa, engraçada e simpática.

O Cel. Antão é um sitiante ingênuo, que um macaquinho matreiro, o Soim, tenta sacanear. Mas sempre “o feitiço vira contra o feiticeiro” por disposição dos fados – e os aprontos do macaquinho acabam por favorecer o coronel, que não chega a se dar conta das intenções do outro.

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     A segunda fase da revista é bem menos rica. Somente os personagens de Joselito atingem uma certa longevidade – e um enxame de Zecas, Chicos, Tonicos e Jucas não duram o suficiente para cair no gosto dos leitores, nem para amadurecer como produto quadrinístico.

Principalmente no que respeita ao desenho, numa época em que se formam e se multiplicam as tendências dentro e fora do país, a maioria dos autores permanece atrelada aos criadores mais conhecidos: não é difícil achar seguidores dos traços de Luiz Sá ou Joselito – mas em nível bastante rudimentar de grafismo.

Saudável exceção a esse panorama, Kimbar introduz um desenho leve, moderno e participa ativamente como quadrinista e como ilustrador.

Consideramos, para fins do presente ensaio, apenas as HQ “plenas”, fazendo uso do repertório de recursos disponível. Deixamos de lado aquelas de caráter eminentemente didático, em que narrativas históricas são dispostas em sequências de quadrinhos. Ou então versos ilustrados ou outras associações de texto e imagens. Enquadramos como quadrinhos normais a muito freqüente quadrinização de fábulas e contos tradicionais, mas não quando estas se apresentam como texto ilustrado, ainda que as ilustrações formem sequência.

Como informação final, a Sesinho se apresenta – deliberadamente ou não – como um gibi da época: não apenas o formato como o acabamento gráfico, capa em papel couchê e miolo em papel jornal. O conteúdo é que divergia, sendo a participação dos quadrinhos minoritária em relação às chamadas atividades, matérias didáticas em geral e reportagens informativas do Sesi.

A maior extensão de uma HQ em cada edição era de uma página dupla, sendo a grande maioria de página inteira e muito raras as meia-páginas.

Para falar com números redondos, pode-se dizer que 60% das HQs não passaram de dez apresentações, e 10% tiveram razoável longevidade, com mais de 50 aparições. As demais ficaram pelas durações intermediárias.

A importância da Sesinho não se esgota, evidentemente, nesta notícia preliminar. Há muito o que explorar – e até a reeditar – nessa mina. Em pesquisa feita nos anos 70, antecedendo a fundação da Gibiteca de Curitiba, foram entrevistadas quarenta pessoas interessadas em HQ em Curitiba. E muitas assinalaram a importância que a Sesinho teve em sua formação, e todos ainda lembravam de Joselito e seus personagens – com a saudade que só as coisas boas conseguem deixar.

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Observação: fiz esse trabalho em 1995, para o Sesi, e usando a coleção completa da Sesinho existente em sua biblioteca de Curitiba. Foi publicado na Gazeta do Povo de 27 de outubro de 1996, e em nenhum outro lugar. As ilustrações de capas são também da coleção mencionada.

Tenho apenas alguns exemplares dessa revista, se alguém tem e não quer guardar… queira me avisar…

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