CURITIBA, LAPA, CASTRO: PASSEIO PELOS INTERIORES DO PARANÁ TRADICIONAL

4 de setembro de 2013 por keyimaguirejunior

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(Casa Lacerda – Lapa)

     -Quanto espaço!

Sem dúvida é o que primeiro nos ocorre ao entrar nesses antigos interiores residenciais. São aposentos substancialmente maiores do que nos atuais apartamentos e sobrados – mas a sensação de espaço não decorre apenas da metragem quadrada mais generosa. Também disposição e dimensão de portas, ligando-os entre si e com o exterior e, evidentemente, a menor quantidade de móveis e objetos presentes, reforçam essa sensação.

De um modo geral, pode-se dizer que o espaço colonial é grande pela ausência de equipamentos na casa – ou pela sua reduzida presença. Viajantes e visitantes dos três primeiros séculos atestam a escassez de mobiliário da casa colonial brasileira – mesmo as mais abonadas. Vive-se sobre esteiras e dorme-se em redes; roupas e trastes são guardados em baús e arcas. O mobiliário mesmo,restringe-se a um mínimo.

No século XIX, a sociedade burguesa institui a densidade, seja ela ornamental ou funcional: deve-se ter presente que há uma nova sociabilidade, e que a casa deve se transformar para se adaptar e absorver novos hábitos de convívio social. Deflagra-se o processo do “padrão de consumo”. Nos interiores descritos por Machado de Assis em seus romances, percebe-se claramente o contraste dessa sociedade com a que a precedeu.

Em meados do século XX, o estabelecimento do Modernismo como Arquitetura funcionalista e racional, o acúmulo nos interiores diminui, em função dessas características terem predominado também na Arte e no Design.

Com a pós-modernidade – formulação arquitetônica do neo-liberalismo – voltamos a acumular em nossos interiores móveis, objetos e equipamentos de funcionalidade mínima ou nenhuma: a sociedade de consumo gera a estética que lhe convém.

Houve considerável ganho de espaço quando os espaços passaram a ser projetados para funções precisas, independente das fórmulas tradicionais. As portas, que ficavam no meio das paredes, passam às laterais, ressalvado o espaço dos móveis fixos. Uma circulação diferenciada e mais eficiente, portanto. Nas plantas antigas, há circulações e ligações impensáveis para nossos dias: entre quartos; direta do quarto à sala e outras.

O início da pesquisa aqui apresentada em versão preliminar, busca identificar o que terá sido o interior da casa paranaense. A fase mais antiga, que aborda o período do Brasil Colônia, foi pesquisada em casas que sobreviveram ao século XX em duas condições.

A primeira, com o interior preservado em sua integralidade e assimilando as contribuições ao longo do tempo, foi apenas a Casa Lacerda na Lapa. Residência privilegiada por um oportuno tombamento e pela moldura de um centro histórico exemplar, nela se identificam os objetos introduzidos ao longo de mais de meio século, sempre como propriedade da mesma família.

O grande número de quartos e alcovas, indicativo de numerosa família nos moldes patriarcais. Revela-se nela uma sociabilidade requintada, na grande sala com muitas cadeiras austríacas e equipamentos musicais: pianola, caixa de música, “victrola” e grande coleção de discos.

Na segunda condição de preservação, é apreciável na Casa de Sinhara, em Castro. Como ambiente reconstituído, é bastante veraz, houve muita propriedade no resgate das funções do espaço com mobiliário antigo.

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(Casa de Sinhara – Castro)

     Essas duas residências são os testemunhos mais importantes para o conhecimento do interior da antiga casa paranaense – entendendo-se “antigo” um período sem muita definição, que vai dos primórdios coloniais até início do século XX. O processo de atualização e modernização dos interiores é inevitável e de difícil apreensão.

A transição dessa fase antiga para o Modernismo, conta com testemunhos de muito interesse. Os espaços residenciais que passaram por transformações mais radicais foram sem dúvida a cozinha e o banheiro. A antiga casinha é incorporada à casa, conforto proporcionado pelo lançamento das redes urbanas de água e esgotos – e também pela importação de louças européias. De início, enormes e pesadas, elaboradas para grandes espaços – e encolhendo perceptivelmente ao longo do século.

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(Casa F.Kirchgassner – Curitiba)

     A primeira casa modernista brasileira, projetada e construída por Frederico Kirchgassner em 1929 em Curitiba, exigiu do arquiteto o desenho da totalidade dos móveis e equipamentos, inclusive importação de vários itens, como janela curva e louças sanitárias. Não havia no comércio brasileiro, peças compatíveis com a modernidade arquitetônica proposta pela casa. Permanece em surpreendente estado de integralidade e funcionalidade em seus oitenta anos vividos.

Embora cronologicamente posterior – anos trinta, a década do Art-Déco em Curitiba e no Brasil – o banheiro do Palácio São Francisco, atual Museu Paranaense, está referenciado à estética do Ecletismo, em que pese a modernidade de seu conceito e das peças. A “Vila” burguesa, em seu tratamento arquitetônico, reúne as estéticas eclética e Déco. É inevitável, ao apreciá-lo, pensar na vida da burguesia ervateira e madeireira do período.

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(Palácio São Francisco – Curitiba)

     Finalmente, em meados do século XX, identificamos nossa modernidade já quase contemporânea na Casa Betega, projetada por Vilanova Artigas nos anos 40. Fechada por mais de uma década, foi refuncionalizada nos anos noventa.

Observação: pesquisa feita a pedido da arquiteta Francisca Cury, organizadora da mostra “Morar mais”, em 2010. Foi apresentada em instalação da designer Karin Brenner. A pesquisa e as fotos, de minha autoria e de Marialba Rocha Gaspar. Em Castro, fomos ciceroneados pelo dr.Ronie Cardoso Filho.

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