A MADEIRA E O MAR

24 de março de 2020 por keyimaguirejunior

Esclareçamos de início: não tenho qualquer pretensão de contribuir para a cultura naval brasileira, este post assinala apenas meu gosto pelo trabalho em madeira- seja dos arquitetos, carpinteiros, marceneiros, construtores navais ou outros que a ele se dediquem. Evidente que, entre uma casa de madeira e um barco idem, há uma quantidade enorme de problemas técnicos diferenciados – e também algumas similaridades no trato com o material.

Frequentando o litoral catarinense há mais de sessenta anos, sempre tentei documentar trabalhos em madeira, que me parecem engenhosos ou simplesmente bonitos. (Ver o post “Engenhocas de madeira”, arquivos de novembro 2013)

     A fotografia dos tempos pré-digitais era cara e difícil – mas em compensação, era menos comum “perder arquivos”.  Um dos recursos para documentar o uso do material em embarcações, foi adquirir modelos, também em madeira.

Os do presente post – fotos 1 e 2  – foram feitos pelo seu Quirino, de Armação do Itapocoroy, usando madeira de imbiruçú e com acabamento em “lixa de cação mimoso”. Medem 52 cm.

A canoa da foto 3 foi adquirida no Mercado de Paranaguá em 1972, a madeira usada na época pelos artesãos locais era o guarapuvú. Mede 78 cm e não está terminado.

A embarcação da foto 4 foi adquirida no Mercado de Florianópolis na mesma época, e é uma elaboração diferenciada, com peças que remetem à construção original.

O contato com a pesca profissional recente, mostrou-me que as embarcações de madeira foram substituídas, em sua quase totalidade, pelas de fibras artificiais – talvez com ganhos na segurança e operacionalidade. Seguem, na sua maioria, as lições de hidrodinâmica aprendidas com as precedentes. Mas as antigas embarcações em madeira continuam na lida – talvez por pouco tempo, o que torna indispensável e urgente documentá-las.

Os barcos de madeira ainda em uso, por pequenos pescadores, apresentam-se como longamente vividos, desgastados – mas sua longevidade atesta, precisamente, sua confiabilidade. No caso, foram escolhidos, num afluente de um rio no município de Penha, por sua fotogenia. São todas as fotos aqui apresentadas em cores.

Percebe-se que têm idades e níveis de conservação diferenciados, mas em comum o fato de estarem em uso.

E há os que aguardam serem dissolvidos pelo tempo – não voltarão a navegar, aguardam em terra numa aposentadoria melancólica.

A excepcional coleção do Museu do Mar, em São Francisco do Sul, faz dele um dos museus mais interessantes do Brasil. Num certo sentido, dá continuidade ao Museu do Mar de Vila do Conde, em Portugal: equipamentos diferenciados para economias marinhas diferentes.

DSC_0267

BARCO 04

Foto 4: Florianópolis

 

Fotos 1 e 2: seu Quirino, Armação de Itapocoroy

CANOA PGUA (3)

Foto 3: Mercado de Paranaguá

Algumas leituras

– SILVA JUNIOR, Ronaldo; FLORIANO, Antonio Carlos & CUNHA, Antonio Carlos. Carpintaria nas ribeiras do Rio Itajaí-Açú. Itajaí, Oficina das palavras, 2001.

-PRIMEIRO SEMINÁRIO DO PATRIMÔNIO NAVAL BRASILEIRO. São Francisco do Sul, Museu Nacional do Mar, 2005.

 

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