CHOQUE ENTRE BARBÁRIES

4 de janeiro de 2020 por keyimaguirejunior

TERRORISMOS E DESORDEM MUNDIAL

Não sou a favor de resenhas – acho que a única compreensão das idéias de um livro passa, antes de mais nada, pela sua leitura integral. Oferecer um “resumo” é cultura “Reader’s Digest”, trabalha contra esse entendimento. Muita gente foi afastada dos clássicos por essa prática – através da qual fica a sensação de chatice, pela via das leituras indiretas.

Portanto, o que se vai ler a seguir não é uma resenha: é uma seleção de algumas passagens de um livro altamente esclarecedor da caótica situação planetária. Pior do que vivermos nela, é que a estamos deixando para as próximas gerações, com votos de “boa sorte”. Claro que ficou fragmentário, são idéias pinçadas que, na minha leitura pessoal, ressaltaram como pouco – ou nada – ventiladas nesta infeliz Terra de Santa Cruz. O livro foi publicado em dez idiomas – não sei se o português está entre elas – então vocês não se folguem e procurem prá ler inteiro.

E antes de começar, convém esclarecer que sou visceralmente contra barbáries, terrorismos e as violências neoliberais – expressas, por exemplo, por governos que tentam soterrar em mediocridade o pouco que se conseguiu em educação e cultura neste país.

O autor é Gilbert Achcar, professor de Ciências Políticas na Universidade de Paris VIII. Ele é descendente de libaneses, o que deve estar na origem de sua extraordinária erudição sobre Oriente Médio. Estou usando a edição italiana (Edizioni Alegre, Roma, 2006) que contém o simpático recado “reprodução livre para favorecer a circulação da cultura”: comecem aprendendo essa, acadêmicos!

Na introdução o autor discorre, é claro, sobre o 11 de setembro: é quando, historicamente, começa o Terceiro Milênio. Um parágrafo cita C.Weinberg, secretário da defesa do governo Reagan. Em 1984, ele estabelece cinco princípios para a doutrina da política internacional americana. Resumidamente:

– empenhar-se (militarmente) apenas no caso de necessidade de defender os interesses dos Usa ou de seus aliados;

– empenhar-se apenas para vencer, usando para tanto os meios necessários;

– definir claramente os objetivos da intervenção;

– rever constantemente as condições do empenho em relação aos interesses dos Usa;

– antes de empenhar as forças americanas no exterior, estar certo do apoio do povo americano e de seus representantes no Congresso;

– a intervenção militar deve ser sempre o último recurso.

No capítulo “Compaixão narcisística e espetáculo mundial”, citação de um discurso de Busch (Filho):

“Os americanos se perguntam: por que nos odeiam? Nos odeiam exatamente pelo que veem nesta Câmara: um governo democraticamente eleito. Seus dirigentes são auto- proclamados. Odeiam nossa liberdade, nossa liberdade de culto, nossa liberdade de expressão, nossa liberdade de voto, de reunião e de discordarmos uns dos outros.”

Do autor: “o fato de que os atentados de 11 de Setembro tenham atingido New York e Washington – as duas capitais da globalização mundial, que é em primeiro lugar uma americanização no sentido de uma extensão do modelo sócio econômico cultural norte americano – explica não só porque os americanos tenham ficado chocados e abalados, mas também porque o resto do mundo tenha se sentido atingido”.

Do capítulo “Petróleo, religião, fanatismo e aprendizes de feiticeiro”, citando Fukuyama:

“O choque consiste em uma série de ações de retaguarda das sociedades em que o funcionamento tradicional é ameaçado pela modernização. A violência da reação é proporcional à gravidade da ameaça. Mas os tempos e os recursos estão do lado da Modernidade, e deste ponto de vista não vejo nos Usa vontade de que prevaleça.”

Citando Kepel:

“O fenômeno da violência terrorista se insere no declínio da mobilização islâmica, na sua capacidade de se apropriar do poder (…) é a fragmentação do movimento islâmico que torna possível o fenômeno Bin Laden”.

Capítulo “Ódio, barbárie, assimetria e anomia”:

“Bin Laden parece ter captado uma dimensão fundamental em qualquer estratégia de luta contra os Usa: como não se pode vencer militarmente, o caminho mais eficiente para dobrar seu governo, passa pela população americana”.

No subcapítulo “Choque de barbáries”, encontramos Norbert Elias:

“(O) processo de Civilização, no conjunto da História humana, atua através das diversas civilizações na sua evolução autônoma, como em suas interações”.

(…)

“Todo grau de progresso da Civilização gera modalidades específicas de Barbárie, pela qual qualquer civilização gera as formas de barbárie que lhe são próprias”.

Do autor: “A cada civilização, sua barbárie (…) entre duas barbáries opostas, a mais culpada é sempre a mais forte, a que oprime. Salvo em casos definidos e irracionalidade, a barbárie dos fracos é, frequente e logicamente, uma reação à dos fortes: senão, porque os fracos provocariam os fortes, arriscando serem esmagados? Por outro lado, é por isso que os mais fortes tentam esconder suas responsabilidades, atribuindo a seus inimigos um caráter demencial, demoníaco, bestial.”

Do subcapítulo “Hegemonia assimétrica”:

“A queda da URSS e o fim da bipolaridade convulsionaram radicalmente a paisagem estratégica mundial, liberando os Usa da preocupação de conter, prioritariamente, seu adversário planetário. (…) O domínio militar do polo único dos Usa, construído sobre a ruína da URSS, levou Washington a o consolidar e tornar eterno, para construir uma hegemonia historicamente inédita.”

Adiante, em citação de Dod:

“Isto significa, inclusive, a ocupação de territórios do adversário, para criar condições de troca de regime se assim for decidido”.

Mais à frente;

“Pela terceira vez depois das guerras do Golfo e Kosovo, Washington deu prova da relação exclusivamente utilitarista que tem com a ONU”.

Subcapítulo “Violência urbana e anomia”.

“Tem notável importância que o aumento das barbáries sejam refletidos contra as próprias sociedades, quer se trate de barbárie estatal, capitalista, de extremismo político ou religioso, ou ainda quase demencial.”

Subcapítulo “Violência urbana e anomia”.

“O nosso mundo, decididamente está sempre mais perigoso e assustador. Mas esses cenários apocalíticos que a realidade gera com tanta rapidez, quando não os supera, não são senão os aspectos mais evidentes e mais espetaculares da violência crescente nestes últimos anos. Os vários terrorismos, aqueles de Estado ou não governamentais, agravam o cenário da violência urbana.”

Do “The State of the World Cities 2001 Report”, dado em Nairobi:

“A partir dos anos 70, o mundo se lançou numa globalização que ruma à desregulamentação dos mercados mundiais, à privatização dos serviços públicos, liberalização financeira. Esta foi considerada capaz de ajudar os países em desenvolvimento, reduzindo o custo dos empréstimos, reduzindo riscos com novos recursos financeiros, aumentando o crescimento econômico. Mas em boa medida, é o contrário do que acontece na realidade: os recursos passaram dos países pobres aos países ricos, os juros aumentaram, os riscos com o crescimento econômico foram reduzidos na maior parte dos países do mundo, ricos e pobres”.

Mais à frente, o conceito de anomia de Emile Durkeim:

“A anomia, na verdade, dá origem a um estado de exasperação e cansaço irritado que pode, segundo as circunstâncias, voltar-se contra a própria pessoa ou contra outros. No primeiro caso temos a suicídio, no segundo o homicídio. Quanto às causas que determinam a direção das forçar assim excitadas, dependem da constituição moral de quem age”.

(…)

“ … a ofensiva neoliberal chefiada pela Tatcher e por Reagan, depois Pinochet, triunfou a nível planetário, despedaçando qualquer resistência. Desregulamentação, liberalização das trocas, privatização são as palavras de ordem dessa globalização neoliberal, que produziu formidável anomia. (…) Além do aumento da violência urbana, esse contexto favoreceu enormemente o terrorismo, o crime internacional organizado e todo tipo de tráfico, que constituem “o lado negro da globalização”.

“A implosão do “socialismo real” e com ela o descrédito atribuído à idéia maior do socialismo, é injusta mas pode-se identificar uma com a outra.”

Último capítulo, “O Leviatã e os presidentes”.

Citação de Huntington:

“Em escala mundial, a Civilização parece ceder, em muitos aspectos, à barbárie, gerando a imagem de um fenômeno sem precedentes. Uma Era mundial das trevas cai talvez sobre a humanidade”.

“ O paradigma do “puro caos” nas coisas mundiais: fracasso mundial da lei e da ordem, estados em falência e anarquia crescente em diversas partes do mundo, onda mundial de crimes, máfias transnacionais e cartéis da droga, consumo de droga sempre mais difundido nas sociedades, enfraquecimento da família, declínio da confiança e da solidariedade social em diversos países, violência étnica e religiosa entre civilizações, em grande parte do mundo governos dominam pela força das armas.”

Já nas conclusões, Foucault:

“A soberania se constitui então a partir de uma fórmula radical da vontade, e pouco importa a forma. Esta vontade está ligada ao medo e a soberania não se forma mais a partir de cima, isto é, da decisão do mais forte, do vencedor, ou dos pais. A soberania se forma sempre a partir de baixo, pela vontade dos que têm medo.”

 

REFERÊNCIAS:

– FUKUYAMA, Their target: The Modern World, Newsweek dic. 2001.

– KEPEL, Jihad. Expansion et déclin de l’islamisme, Gallimard, Paris, 2000

– ELIAS, FOUCAULT, DURKEIM têm tradução em português.

 

 

 

 

 

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