ENXUGANDO MINHA BIBLIOTECA

30 de março de 2019 por keyimaguirejunior

Já fiz isso várias vezes: quando começam a “sair livros pelo ladrão”, está na hora de reduzir um pouco o acervo. Claro que, se eu tivesse uma indústria metalúrgica, e pudesse, compraria uma casa e contrataria pessoal habilitado para dar aos meus livros os cuidados de que os acho merecedores. Como não é o caso, está difícil mantê-los em boas condições de uso, afinal é uma biblioteca que se estende por duzentos e vinte metros de estantes…

Causo: há umas duas décadas, a Gibiteca de Curitiba “herdou” minha coleção do Pasquim (foto). Vindo a Curitiba na Bienal de HQ do ano passado, o Jaguar se mostrou surpreso de que tivéssemos em nosso acervo todas as mil edições do famoso hebdomanário, e afirmou: “então, para estudar o Pasquim, a gente tem que vir a Curitiba?!” Pois é…

Acontece que, agora, não se trata mais de pequenas alienações parciais: a coisa está fora de controle, difícil de limpar – e quando me dedico a isso, invisto um tempo que preferiria usar lendo… Por outro lado: se eu resolvesse ler tudo o que acumulei nessas décadas, precisaria de uns cem anos… e como diria o Miguelito da Mafalda, até lá vou estar com a vista muito fraca para tanto esforço…

O momento não é dos melhores: o mercado imobiliário reduziu os espaços individuais ao mínimo de uma cela de monge ou de presídio, ninguém tem espaço para uma mesinha, uma estante ou qualquer coisa maior que um note book. Mesmo nas instituições, o motivo básico para a recusa de um acervo com qualidade reconhecida é “não temos lugar para livros”. As doações são fracionadas ao máximo, para facilitar esse aspecto da acolhida em pouco espaço. E de mais a mais, faço questão de “adoção responsável” para livros que, em alguns casos, custaram muita procura e me acompanham há décadas.

E nem transformei minha biblioteca em sebo, onde as pessoas vêm para levar o que lhes interessa. Funciona assim: identificado um possível receptor, separo a área de interesse dele. Da qual reservo o que ainda fica comigo, o mais é doado. Quer dizer: o que ainda pretendo reler, ou possa consultar para escrever alguma coisa, ou que tenha o valor estimativo de uma história, de uma dedicatória, de um projeto gráfico interessante. Não estou “guardando o mais bom e doando o menos bom”: com todas as peneiras pelas quais já passou, minha biblioteca só tem coisas de boas a muito boas…

A presente fase pretende “aliviar” as congestionadas estantes do Canil em uns cinqüenta por cento – o que permitirá uma saudável renovação, afinal ainda sou catador de livros e ler é minha atividade preferida. Também ficará mais fácil encontrar as referências – visto que, em meus escritos, não aceito dados da internet.

O crescimento atual é muito lento, acredito que a próxima fase de doações vai demorar para acontecer. Não que eu leia menos, mas porque me tornei muito mais seletivo. Mesmo porque é desanimador entrar numa livraria atual: o que mais tem é auto-ajuda e escritores americanos, coisas que absolutamente não leio. Os sebos e a internet ainda são alternativas, mas também neles está cada vez mais difícil encontrar coisas verdadeiramente boas.

Estou fazendo releituras para compensar essa inexpressividade da produção atual – afinal, para isso ainda guardo uma parte do acervo acumulado… Por enquanto, vou selecionando receptores para o que posso alienar: é um processo que, pelos meus cálculos, ainda leva um tempo.

CONAN 02

Referências de imprensa sobre a Biblioteca do Canil:

– “Arte, quadrinhos e clássicos, a biblioteca de Key Imaguire Junior” – Revista Cândido (Biblioteca Pública do Paraná) nº 56, março de 2016

– “No Rancho Fundo” crônica de Marleth Silva, Gazeta do Povo 26 de fevereiro de 2019

– “Herdando uma biblioteca” crônica de José Carlos Fernandes, Gazeta do Povo 09 de março de 2019

 

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