CAUSOS DE COBRAS – SEGUNDA TEMPORADA

11 de agosto de 2018 por keyimaguirejunior

 

COBRA

CAUSOS DE COBRAS – SEGUNDA TEMPORADA

1 – O esquilo e a tartaruga

         Na verdade, o personagem desta crônica é Ésquilo – autor de teatro grego de há uns dois milênios, dos mais conceituados. Até hoje se encenam suas peças e se fazem filmes baseados nelas. Mas “esquilo” orna mais com “tartaruga”, fica com cara de fábula que o Esopo – outro antigo das arábias – contaria.

Pois seu Ésquilo tinha participado como soldado de algumas batalhas de seu tempo, e viu tanta violência que resolveu partir para o teatro, produzindo tragédias que até hoje nos emocionam.

Era mais uma de suas peças que tinha em mente, sentado à porta de casa, enquanto a patroa fazia o almoço. Aqui entra uma controvérsia: há quem diga que Ésquilo escrevia tragédias de tão mal que cozinhava sua mulher, vá alguém saber qual a verdade.

Mas essa senhora, independente dos dotes culinários que tivesse ou deixasse de ter, produzia um almoço ou coisa parecida. De repente, escuta um baque abafado, sem grito nem lance teatral. Foi ver o que acontecia e encontrou o brilhante cérebro do escritor espalhado pelo chão. No meio, uma tartaruga ainda se debatendo. Um ruído de asas, olhou e viu uma águia que ganhava cota, decepcionada. Para devorar a carne do quelônio, jogara-o sobre o que lhe parecera ser uma pedra, para quebrar a casca, mas era a careca do conceituado teatrólogo.

Consta que a sra.Ésquilo não fez BO – na época, sabia-se que Zeus, muito malandro, de vez em quando fugia do Olimpo disfarçado de águia. Parece que se limitou a fazer uma sopa de tartaruga.

Bom, passam aí uns 25 séculos e o impossível Joãozinho, em exame de segunda época, sorteia um ponto para a prova oral de História. O azar pegou pesado o garoto, que já não era muito chegado nos livros: “Teatro Clássico Grego”, ûrra!!!  A professora o encara firme e, conhecendo a fama do figura, avisou:

– Vamos falar de Ésquilo. Se você vier com piadinha que só entende de esquilo, te dou uma reprovação com validade de três anos.

O piá viu que a situação não comportava brincadeira e não abriu a boca, mesmo porque qualquer teatro, para ele, era grego, até Shakespeare.

Mas a professora simpatizava com a vivacidade do moleque e, prá não dar um zero, amenizou:

– A morte dele você lembra, né? É a morte mais estranha da História, uma águia jogou uma tartaruga na cabeça dele e esmagou-lhe o crânio…

O piá sorriu:

– Ah, essa eu sei. Falaram muito disso quando morreu o seu Dimitri da venda.

– O quê o seu Dimitri tem a ver com o Ésquilo?! Tá me zoando?!

– Tem tudo a ver, fessora. O grego ia indo pela estrada e caiu uma cascavel na cabeça dele – jogada por um carancho. Decerto pegou a cobra que estava se debatendo muito e prá matar, jogou numa pedra – que aconteceu ser a careca do seu Dimitri…

A professora houve por bem aprovar o Joãzinho.

2 – A moça na casinha

Volta e meia, algum parente da cidade vinha visitar o sítio do Bepe, bonito e bem organizado. Foi o caso de uma sobrinha, flor do asfalto, que acha que ovo é feito em máquina. Se encantou com as pessoas desestressadas, com a tranqüilidade, com a paisagem. Fazia perguntas que os parentes respondiam segurando o riso:

– Então a tal vaca não é animal em extinção?!

– Não, ainda não, moça…

Gostou de colher salada na horta, água sem cloro no poço, ar sem poeira. Mas quando precisou liberar um “número dois”, não encontrou banheiro, por mais que procurasse. Por fim veio a informação:

– É lá no fundo, na casinha…

Achou aquilo muito folclórico, nunca tinha ouvido falar. Entrou, fechou a porta e, quando viu a tábua com o buraco, lá de baixo vindo aquele cheiro – começou a duvidar das excelências da vida rural. Tropeçou no caixote dos sabugos, sem entender, mas a tarefa era premente. Baixou o jeans apertado por cima dos canos das botas e sentou, olhando para a frente, para a óculo em forma de coração.

Examinou a porta feita de tábuas verticais, estruturada por um “Z” de ripões. Firmou a vista no escuro e reparou, deslizando por cima da travessa inclinada, um ser verde e escamoso, de cabeça chata, que sibilava na direção da tranca.

3 – A cobra no saco

O irmão do Bepe era marumbinista, trilhista, navegador e aventureiro em geral. Não desperdiçava fim de semana em casa: se o tempo ajudasse, pegava a mochila, saco de dormir, lanterna de carbureto, comprava pão, xaxixo e banana, e ia pros matos.

Certa manhã, acampado com uma turma ao ar livre, todos já de pé e querendo andar, ele deitadão imóvel no saco de dormir. Um dos companheiros chegou perto para chamar e percebeu que ele dizia alguma coisa em voz sussurrada. Aproximou-se para entender. Depois de várias tentativas, quase encostando o ouvido na boca do cara, escutou:

– Bota fogo no saco de dormir, perto do meu pé. Tem uma cobra aqui dentro.

O companheiro pegou um tição na fogueira, colocou na extremidade inferior do saco e soprou. Logo o nylon incendiou e um volume enorme começou a se movimentar sobre o corpo do aventureiro imóvel, em direção à boca do saco. Em seguida passou sobre a cara apavorada a cabeça, depois o corpo de uma jararaca – enorme, não acabava mais de aparecer. Finalmente afastou-se na direção do mato, os companheiros apressaram-se em apagar o fogo do saco e retirar dele o amigo todo cagado.

Alguém fez menção de sair de revólver atrás da cobra, mas foi advertido que o bicho tinha sua preservação recomendada, visto seu veneno ser usado para fabricar medicamento para hipertensão.

4 – Cadeia alimentar

Dona Pina resolveu fazer pão: a netarada vinha visitar o sítio e o pão macio do forno caseiro era sucesso garantido. Foi à pilha de lenha e começou a escolher as achas mais secas, variando a espessura da bracatinga: mais fina para incendiar e mais grossa para manter o braseiro.

De repente, seu Bepe escutou um berro que ecoou pelos morros: uma cobra caíra da pilha sobre o pé escassamente calçado com chinelos da senhora que, muito pálida, se encostava na parede. Mas seu Bepe entendia de cobra, e acalmou-a:

– Ah, isso é cobrinha dágua, nem faz nada…

O quê, é evidente, deixou a patroa ainda mais tiririca.

– Como que não faz nada, Bepe?! E o meu susto?!

– Ah, susto passa…

Mais tarde, todos em volta da mesa, escutavam um toc-toc-toc nas paredes de madeira. Era um dos netos que, com um mata-moscas, matava os insetos na parede externa da casa. Eles caíam no chão junto da parede, perto do meio metro que a casa era elevada do solo. Dona Pina arrenegou e tomou o instrumento da mão do guri:

– Ô piá danado, cê não sabe que vai vir sapo prá comer essas moscas, e que atrás de sapo vem cobra?!

O piá, que era amigo do Joãozinho, não se entregou:

– Vó, mas a gente arranja um carancho prá ficar no teu ombro, tipo papagaio de pirata, e é um gavião que come cobra!

5 – Causo inacreditável

         Tem causo de cobra que é tipo assombração: parece sobrenatural, por mais que se queira dar crédito, não tem como engolir. Mas fica um restinho de dúvida, mesmo porque os causos, como as lendas, têm sempre seu lastro de realidade.

Dona Pina do seu Bepe foi avisada do velório de uma amiga, falecida, segundo as notícias, “de cobra”, como fora também o marido, um ano antes. No velório, a morta no caixão rodeado de velas, as pessoas conversando em voz baixa e ninguém entendendo aquela história de “morta de cobra”.

– Mas onde ela estava quando foi picada?

_ Aí é que está: a cobra não picou ela, picou o marido.

_ Mas como assim?! Isso já faz mais de ano!

– Pois então, prá morrer, basta estar vivo…

O marido, num dia de frio, usava capote e se abaixou na trilha para catar alguma coisa no chão. Deve ter pisado no rabo da cobra, que deu bote daqueles matinhos de beira de estrada e nhoque na lateral, na altura do bolso. Cobra velha, dentes enormes e veneno bem curtido: ele deu uns passos tentando voltar e caiu morto. Foi encontrado no dia seguinte, levaram-no e o enterraram.

Assunto encerrado? Que nada, passou um ano e a viúva resolveu fazer doação das roupas do falecido. Entre outras peças colocou sobre a cama o casaco que ele usava no dia fatídico, viu o buraco (!) e resolver cerzir antes de doar.

Feito o serviço, cortou a linha com os dentes, como sempre fazia – e horas depois foi encontrada estrebuchando no quarto, vítima do veneno da mesma cobra que matara o marido.

Eu avisei que esse era difícil de acreditar…

6 – A panela, a lagartixa e a cobra

Dona Pina do seu Bepe preparava o almoço: aquela maravilha do feijãozinho na panela de ferro, temperado e macio…

Uma lagartixa correu no chão da cozinha; acostumada, nem deu bola. Mas quando uma cobra, surgida de algum lugar, deu um bote na maquete de jacaré, levou um susto e largou a panela, que caiu no chão com estrondo.

Sorte da lagartixa: a cobra se assustou e errou o bote; a bichinha subiu pela parede, veloz como um raio, e se escondeu numa fresta do forro.

Dona Pina expulsou a cobra a vassouradas – não era do tipo venenoso – e ficou brava mesmo foi com a perda do feijão, pronto para cozinhar, espalhado pelo chão…

E o pior de tudo foi que o almoço do Bepe, nesse dia, atrasou…

7 – Descagando

A conversa no boteco rolava animada, as pessoas contando causos de susto. Os estalos das bolas de bilhar intercalavam com as gargalhadas, o cheiro da cana morreteana impregnava o ar. Quando surgiu o assunto cobra, o Bepe cutucou um dos presentes:

– Conta aquela da tua pescaria no Mato Grosso!

O intimado não se fez de difícil, mas antes criou um suspense:

– Vocês acham que, depois de começar a largar o barro, dá prá parar?

Todos foram unânimes em reconhecer que não: começou tem que acabar, não tem parada possível.

– Pois eu já parei na metade de um que, além do mais, era emergencial.

Como todo apreciador de pescaria, fizera uma viagem ao Mato Grosso para pescar. Contratou um barqueiro que o levou aos lugares apropriados. No fim da tarde, já voltando, sentiu premência: pediu ao barqueiro para encostar na praia, não dava prá segurar. Este, sabendo das coisas, avisou:

– Então tá, vai ali na praia, seja rápido e de jeito nenhum saia da faixa de areia.

Bom, ninguém à vista, só aquele sertãozão, o silêncio que convém a uma obra bem feita, baixou as calças e abriu as comportas. Instintivamente, olhou para a borda da floresta – e, saindo da vegetação, uma cobra imensa que mais parecia manilhamento de rede lógica, reta na direção dele. Era uma sucuri, acostumada a caçar animais que, no fim da tarde, vinham ao bebedouro.

– Aí não teve jeito: cortei pela metade e corri de volta pro barco…

Depois das risadas, perguntaram:

– … e a outra metade?!

– Ah, sei lá, passou a vontade…

8 – A cobra e o ateu

         O irmão do Bepe, seu Tonico, era “o cara” – pelo menos, no próprio conceito. Grandalhão, vozeirão, fanfarrão. Contava que “batia em três sem derrubar o chapéu”, “espantava onça no berro” e “andava sozinho e desarmado em rua brasileira à noite”. Claro, ateu também: religião “é o ópio do povo”, “muleta de gente fraca”, “consolo dos desvalidos”…

O Bepe não morria de simpatia pelo super-herói, mas enfim era irmão, era da família… e quando o “homem montanha” anunciou que ia pescar no sítio, não teve escapatória: matou um frango que a dona Pina preparou para o almoço familiar de domingo.

Depois da refeição, aquele calorzão, o visitante pegou o caniço, o samburá, cavou umas minhocas na horta e foi para o tanque. Mais que nos peixes, pensando no gramado bem tratado à sombra de uma arvore frondosa, na calma e no silêncio rurais…

Estava lidando com o equipamento quando, de sob um banco feito com tronco de árvore, surge, bem perto e veloz como um raio, uma baita urutu-cruzeiro. Três metros de fúria negra, com desenhos apavorantes como pintura de guerra de índio. Veio na direção dele, desferindo botes, abas abertas, assobiando, língua dardejante…

Seu Tonico nem lembrou que estava de botas, largou o caniço e um berro que foi escutado na casa:

– Ai meu Deus do céu!!!

Pulou de lado e por sorte a cobra deu bote para o outro: se desencontraram e o poderoso entrou correndo em casa, bufando, olhos arregalados, e todo cagado…

9 – Vai dar cobra!

         O neto era uma aflição na vida do Bepe. O piá não era de nada, negado prá qualquer serviço útil, urbano ou rural. Quando ia para o sítio do vô, ficava o tempo todo deitadão na rede da varanda, os polegares voando no teclado do celular, razão e centro de sua vida. Existia em função da telinha, comer, dormir e reclamar.

Vai e uma tarde está o Bepe capinando ao redor da casa, dona Pina limpando lá dentro e escutam a voz do garoto:

– Vó, tem soro antiofídico em casa?

– Tem não, menino, prá que tu quer isso?!

– É que vem vindo uma cobra…

Outro amigo urbano do Bepe veio fazer visita e, depois do lauto almoço, foi à casinha. No escuro, baixou as calças sem reparar numa tremenda jararaca, enrodilhada ao lado do buraco, na espera. Não deu outra: levou picada no que o Dalton Trevisan chama de “única validade do homem”.

Saiu correndo e gritando, o Bepe veio ver e ele, de calça abaixada, rolando no chão, implorava:

– Você tem que me salvar, e o único jeito é chupar o veneno dessa desgracida!

O Bepe olhou aquelas coisas já inchando sob efeito do veneno e, com cara triste, informou:

– Você tá morto, cara…

10 – O cobrão

Os planaltos e Campos Gerais dos interiores do Sul do Brasil sempre foram – e ainda são – regiões frias, onde sopra um vento tipo minuano que vem da Antártica. No tempo em que o avô do Bepe era tropeiro e conduzia mulas através dessas trilhas, percorria paisagens deslumbrantes. Principalmente à noite, com um céu onde se percebiam astros e constelações e a Via Láctea contra um fundo negro, com primeiro plano de silhuetas de majestosas araucárias.

A tropa do avô do Bepe chegou a um descampado próprio para o pernoite – e enquanto os muares pastavam, os cavalos foram desencilhados e as bagagens empilhadas ao redor de um tronco, talvez de árvore caída. Ainda havia um pouco de claridade no horizonte, e os tropeiros se espalharam catando grimpas para uma fogueira e pinhões para uma sapecada.

Logo o cheiro do charque grelhado nos espetos se espalhou entre as árvores e a carne com farofa se acomodou nos estômagos. A cuia de mate passou a circular, aquecendo. Seu Bepe era um grande contador de causo, tinha estágio no Papadiuk e suas narrativas prendiam atenção do grupo. E nessa noite estava particularmente inspirado – enquanto falava do boitatá que tinha visto, notou que o grupo à sua frente ia arregalando os olhos e abrindo as bocas. Até ele estava admirado de inspirar tanto medo em gente afinal rude, e acostumada aos casos tenebrosos de assombração. Por fim, alguns desentorpeceram do terror, apontando com o dedo alguma coisa por trás dele. Seu Bepe, cuia na mão, foi se virando devagar, sem saber o que o esperava, para ver a pilha das bagagens que se deslocava sozinha, num silêncio fantasmagórico.

Deu um pulo, pegou a espingarda encostada a uma árvore e deu um tiro prá cima, mode assustar o que quer que fosse. Conseguiu: a pilha de bagagens acelerou a velocidade e eles conseguiram perceber que o tronco de árvore, sobre o qual elas estavam, era uma baita cobra.

 

 

 

 

 

 

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