CAUSOS DE COBRAS DA VÓ DIVA

6 de agosto de 2018 por keyimaguirejunior

CAUSOS DE COBRAS

 

Franklin Cascaes relatou sobre o caráter “fadólico e bruxólico” da Ilha de Santa Catarina. Mas ela é, também, muito cobrórica. Histórias de cobras venenosíssimas, vingativas, sobrenaturais até, sempre circularam pelo lado catarina da família.

Depois de ler essa obra ímpar que é “O Fantástico na Ilha de Santa Catarina”, achei que poderia ser interessante registrar alguns causos de cobras.

Como são narrativas distantes no tempo, usei apenas a formulação mais sumária, e é assim que devem ser lidas. Não é um trabalho de coleta antropológica, como facilmente se perceberá. Acrescentei alguns causos não catarinas, que contribuem para a – ou decorrem da – fama terrificante desses ofídios. Haveria também uma leitura freudiana das histórias, para quem quiser fazê-la.

A procedência das histórias é portanto familiar, escutados recorrentemente ao longo de meio século. Os dois últimos foram coletados pelos primos Mario e Ligia no início de 2003 – prova de que a Ilha continua cobrórica.

E para não deixar ninguém sem os créditos devidos, o neologismo “cobrórico” foi inventado pelo Key San aí pelos seis anos de idade: “… vou fazer uma casa fantasmagórica, cobrórica e caverórica prá levar a Vó Diva…”

A JARARACA DA ILHA

Era uma vez uma cobra.

Viveu na Ilha de Santa Catarina, presumo, aí pelo alvorecer do século XX.

Era uma jararaca, mas não fazia jus à fama da família. Na verdade, era uma jararacuçú e ficava muito injuriada quando, ao vê-la à beira do caminho, fazendo sua sesta ao sol, as pessoas saiam pulando e gritando:

– Ali, uma jararaca! Cuidado! Mata, mata, mata!!!

No começo ficava, meio deprê, mas depois pensava com suas escamas:

– Ah, não vale a pena estressar… são só humanos mesmo, bichos não muito inteligentes…

E seguia seu caminho, rebolando cobroricamente.

Uma bela tarde de Vento Sul, estava ela no seu ponto predileto, à beira da estrada, quando passou seu Mané, a caminho da venda. Digerindo uma gorda ratazana, aquelas cigarras cantando, aquele solzinho… pegou no sono. Quando percebeu uma sombra ameaçadora, era tarde para fugir: seu Mané pegara uma enorme pedra achatada e jogara sobre ela.

Seu Mané seguiu seu caminho e a jararaca lá ficou, imobilizada pelo peso da pedra. Dias e noites, noites e dias, semanas e meses. A fome até que não incomodava – a região abundava em ratos e uma cobra gorda não impõe respeito. O que a deixava danada como uma jararaca, era a imobilidade. Quando a notícia de que a grande inimiga estava prisioneira se espalhou, os roedores vieram fazer fidusca para a indefesa – ficavam a poucos centímetros da temível bocarra, rindo. E se tem coisa que irrita cobra, é risada de rato:

– qui qui qui… qui qui qui… qui qui qui…

Imobilizada, sentia as glândulas do veneno inchando atrás dos dentes. Foi emagrecendo, afinando à medida que o ódio crescia, ficou fininha como um fio de cabelo.

Noutra bela tarde de Vento Sul, muito depois, quem vem lá descendo pela estrada, senão seu Mané? Vinha vindo, assobiando e ao ver a pedra, lembrou:

– Olha, não foi aqui que matei uma jararaca com essa pedra? Deve ter sobrado só o esqueleto… esqueleto de cobra é giro, vou olhar!

Foi quando todas as indignações pela prisão forçada, pelas risadinhas dos ratos e, principalmente, pela ofensa de não reconhecer nela uma verdadeira jararacuçu, transbordaram. Nem bem seu Mané levantou a beirada da pedra, cautelosamente, ela se enrolou numa espiral e záz! bote certeiro no nariz do humano.

Ele deu um pulo para trás – mas o veneno estava injetado. E enquanto corria pela estrada, já sentindo os efeitos do veneno concentrado, a cobra ondulava para dentro do mato – procurando pelos ratos para uma vingança ao molho pardo.

A CASCAVEL DA LAGOA

Há muitos e muitos anos, numa linda casinha à beira da Lagoa da Conceição, vivia seu Mané com a família. A tal era, na verdade, mais casinha do que linda – e moravam por ali alguns animais autorizados: cachorros, gatos, galinhas – e alguns dos quais ninguém suspeitava: ratos, gambás e um casal de cobras cascavel. Esses, conhecedores da agressividade dos humanos, não se deixavam ver – e a vidinha de todos transcorria normal, pacata, sem incidentes dignos de notícia no Diarinho.

Num dia de vento sul, a cobra vinha voltando de seu café da manhã no riacho, em direção ao monte de pedras perto da casinha, quando deu de cara com seu Mané. De nada adiantou agitar o chocalho, convidando-o para brincar – o porrete desceu certeiro, quebrando-a ao meio e no segundo golpe, esmagando a cabeça.

Consumado o assassinato, como se nada houvesse acontecido, seu Mané foi cuidar da vida – nesse tempo coisa simples, sem muitos impostos – deixando o cadáver por ali mesmo.

Mais tarde, o cobro, chegando em casa do trabalho, percebeu a tragédia consumada na sua ausência. Era um casal novo, com poucos meses de vida matrimonial, nem tinham ainda chocado uma ninhada de cascaveizinhas. Consternado, o cobro jurou vingança.

Removeu, a duras penas, para o mato, a companheira morta, depois colocou-se no lugar dela, na mesma posição.

Ao entardecer, ainda soprava o Vento Sul, seu Mané voltava à casinha. Olhou e, ao lusco-fusco, não percebeu a troca das cobras. Pensou:

– Matei essa cobra de manhã e ela ainda está aqui!

Pegou um graveto para atirá-la no mato, mas isso o cobro já fizera sem graveto algum. Quando se aproximou, o ofídio enrodilhou-se veloz como um raio e desfechou o bote no pulso do humano.

Seu Mané soltou um grito de susto e saiu correndo em direção à casinha, tropeçando e caindo, o terror estampado no rosto. Quanto ao cobro, afastou-se rapidamente: realizada a sua vingança cobrórica, houve por bem mudar de domicílio.

A CASCAVEL SAFADA

Esse causo passa-se em Agudos do Sul, Paraná, longe de Floripa, e conseqüentemente não é da vó Diva e nem tem Vento Sul.

A mãe da Maricota chamou-a, entregou-lhe um cestinho com doces e disse:

– Menina, leva prá Tia Vita, que tá doente. E não sai da estrada que nessa época tem muita cobra no mato.

Ela colocou seu chapeuzinho vermelho e lá se foi pela estrada afora, cantando:

O bicho que mata o homem

              Mora debaixo da paia

              E passa o dia inteiro

              Enroscado na samambaia…

Quando não podia mais ser vista pela mãe, é claro que foi pelo mato. Já estava na trilha fazia algum tempo, quando sentiu uma vontade enorme de fazer xixi. Escolheu umas pedras arredondadas para se apoiar, baixou o shortinho que os meninos gostavam de espiar por cima do muro e deixou correr. Escutou um “tchic-tchic-tchic” no chão, mas não deu bola e continuou seu caminho.

A verdade é que um cobro cascavel, que ia passando por ali bem na hora do deságüe, foi respingado e ficou indignado. Olhou para cima, para ver de onde vinha o líquido morninho – e como era um cobro muito macho, anunciou seu agrado agitando o chocalho.

Quando chegou à casa da Tia Vita, Maricota entregou o cestinho e contou a história do “tchic-tchic-tchic”. A tia ficou pálida de susto:

– Menina, isso era cobra cascavel!

E ela, muito surpresa:

– Eu percebi que estavam me olhando, mas achei que eram os piás!

A URUTÚ PASSARINHEIRA

Depois que terminava a refeição da família, Dona Maria – mulher do seu Mané – lavava e guardava a louça, pegava a toalha e sacudia as migalhas pela porta dos fundos.

Entre as criaturas que mais apreciavam essas sobras, estava um canário-da-terra. Chegava e fazia sua refeição, democraticamente, entre galinhas e outros seres. Depois voava para uma árvore e soltava seu trinado, feliz da vida. Tão bonito que seu Mané resolveu encarcerar o bichinho, para que não fosse cantar em outra freguesia.

Para isso usou uma gaiola especial, com alçapão acoplado e uma canarinha emprestada pelo vizinho, irresistível em suas mini-penas. Numa manhã ameaçando Vento Sul, pendurou a tal armadilha no galho preferido do canário e foi cuidar de seus afazeres.

Ao entardecer, lembrou de conferir se capturara o artista e, ao se aproximar, tomou um susto de empalidecer: na gaiola estragada, ameaçadoramente enrodilhada, estava uma tremenda urutu-cruzeiro. Atraída pela canarinha, tentara come-la antes do canário – e no entanto, desastradamente, deixara os dois fugirem.

Ao perceber que o almoço voara, acomodara-se para, pelo menos, tirar uma soneca na gaiola que balançava tipo rede. De fato, um belo sol aquecia a gaiola e as cobras, como todo mundo sabe não são lá tão batalhadoras. Talvez seu cérebro cobrórico pensasse na possibilidade da volta de um dos seres emplumados, vá saber.

O que é certo e sabido, é que seu Mané conhecia a diferença entre canário e cobra, pegou um pau e partiu prá cima dela. Mas queria fazê-la sair da gaiola para consumar o assassinato – e dá-lhe cutucar, bater, encher o saco. Ora, se urutú normalmente já é um ser irritadiço, sesta é coisa que nem santo, se acordado, fica de bom humor.

Fez a mola e deu o bote na direção do seu Mané, enroscou-se no galho que ele segurava, fez duas voltas e veloz como um raio, lançou um segundo e certeiro bote, picando-o no pulso.

Quando Dona Maria veio ver o que era a gritaria, encontrou o marido se contorcendo no chão: alguns metros adiante, a cauda escura desaparecia no mato. Na árvore, com os olhinhos arregalados, o casal de canarinhos comentava a ocorrência.

A MUÇURANA CASEIRA

Esse causo aconteceu em Armação de Itapocoroy (sic), praia que até o Visconde de Taunay andou celebrando em “Céus e terras do Brasil”.

Ainda não havia Vento Sul nessa manhã, e portanto uma mocinha estava na praia, tomando sol de biquíni.

Passando por ali em seus afazeres cobróricos, ia uma muçurana. Todo mundo sabe que essa é uma cobra respeitável, que não se deve matar porque não é agressiva e come jararaca, por via oral. Mas tem sempre uma aparência assustadora, quase preta, chegando aos dois metros de comprimento, escamas reluzentes.

Aqui já se percebe que uma mocinha de biquíni e uma cobrona desse calibre, fatalmente vão se encontrar. Acontece que nessa manhã fazia um calor litorâneo, até mesmo prá uma muçurana – que, encontrando a casa e a cozinha abertas, entrou para se refrescar à sombra, nos frescos ladrilhos da cozinha. Além do frescor, sentia-se confortada pela presença dos sacos de areia – desses que se usa para o Vento Sul não empurrar chuva por baixo das portas – parecidos com ela.

Pois bem, a mocinha, lá na praia também sentiu calor – entrou em casa e foi à cozinha tomar água, confundindo, na passagem, o ofídio com os sacos de areia. Mas a cobra, que era um cobro, ao ver passar a mocinha no seu biquíni, saiu atrás dela, ondulando, cheio das intenções.

Ao perceber o brilhante “saco de areia” cobrejando na sua direção, e o que é pior, entre ela a porta, a mocinha escalou a pia – o cobro apreciou bastante o espetáculo.

Quando conseguiu articular a voz, chamou pessoas pela janela – inclusive um senhor japonês que reconheceu sua qualidade cobrórica de muçurana e a expulsou de casa. Relutante, lá se foi ela para o mato – mas a mocinha não voltou à praia, mesmo porque tinha chegado o Vento Sul.

A COBRONA VENENOSÍSSIMA

Apesar da índole reconhecidamente não agressiva dos catarinas, seu Mané era do tipo prá quem bicho é prá matar e pronto.

Sábado ao entardecer, nem que soprasse Vento Sul, pegava a pica-pau e trepava numa árvore, com vista para a nascente: ali volta e meia aparecia uma paca ou cutia sedenta, que virava assado no domingo.

Numa dessas tardes, lá estava seu Mané empoleirado no galho costumeiro, quando viu uma tremenda cobrona se aproximar da nascente. Pelo desenho das escamas – cobra, quanto mais vistosa, mais venenosa (acabo de criar um dito popular) – viu que deveria ser venenosíssima. Apontou mas não atirou – afinal, poderia espantar o assado de domingo e, na árvore, não corria risco.

Viu quando se aproximou de uma planta rasteira com folhas grandes e lisas, e ficar ali por uns momentos. Depois foi ao rio tomar água, voltou à mesma folha por uns instantes e foi embora, rebolando, desaparecendo na noite.

Por mais intrigado que estivesse com a paradinha da cobra sobre a folha, sem Mané não deu bola. Só que em outras esperas, em outros entardeceres, a cena se repetiu – e aí sua curiosidade de herpetologista amador foi despertada. Passou a examinar a folha antes e depois de descer da árvore, mas nada descobriu.

Depois de muito matutar, entendeu que o mistério estava entre a ida e a volta da cobra. Confiante na sua perícia como escalador de árvores, na espera seguinte, depois da passada da cobra em direção ao bebedouro, desceu e examinou a folha – nada encontrando além de umas gotas de orvalho. Voltou à árvore, dali a pouco a cobra volta e fica seus momentos sobre a folha e vai embora. Antes de ir prá casa, ocorreu-lhe examinar as folhas – e as tais gotículas não estavam mais!

Das profundidades de seu cérebro herpetólogo, seu Mané entendeu tudo: o perigoso ofídio deixava seu veneno na folha antes de ir à água, para que esta não o diluísse! Entender isso foi resolver roubar o veneno da cobra. Prá quê, não se sabe: a sogra já era falecida, não tinha inimigos. Talvez algum político merecesse, mas esses estavam longe, lá em Brasília.

De qualquer modo, lavou bem um vidrinho de remédio e, dias depois, nem a pica-pau levou: subiu à árvore e esperou a passagem cobrórica. Que veio, deixou as gotículas na folha e foi ao rio. Seu Mané desceu rapidamente, fez deslizarem as gotículas para o vidrinho, fechou e deu às de vila-Diogo.

A cobra, voltando, não achou suas gotas e teve um arrepio na espinha. Isso, em cobra, é de suma gravidade. Procurou nas outras folhas, revistou o chão e intuiu: só pode ser coisa desses macacos que, além de venenosos, são maus, os humanos. E como seu Mané era conhecido na redondeza, deduziu a verdade.

O qual seu Mané, subestimando a velocidade de deslizamento da cobra, depois de correr uns quantos metros, diminuiu a velocidade o suficiente para que a fraudada, deslizando pelo mato, lhe passasse à frente. Ele volta e meia tirava do bolso o vidrinho e o examinava à luz da lua, admirando seu brilho sinistro. Numa dessas paradas, entre a lua e o vidrinho, surgiu a bocarra escancarada da cobrona, pulando sobre ele em bote certeiro. Nem se tocou de que a agressão era inofensiva, visto estar com o veneno no vidrinho – mas apavorado, borrou-se, deu um berro e jogou o frasco para cima, que caiu sobre uma pedra e se espatifou. A cobra achou suas gotinhas e as recuperou rapidamente: como todo mundo sabe, dente de cobra venenosa é oco feito canudinho, foi só sugar como quem toma refrigerante.

Pasmado com a cena, seu Mané voltou a correr, mesmo porque a cobra estava enrodilhando para um bote tipo mola, que o pegou na barriga da perna. Ela deixou-o correr, cagado e envenenado com estava e afastou-se do lugar, pensando:

– Não queria tanto o meu veneno? Agora ninguém mais tira dele!

A COBRA MAMADORA

Mariazinha, filha adolescente de seu Mané e dona Maria, era do tipo que virava a cabeça da rapaziada do pedaço. Entre seus admiradores, estava um rapaz que trabalhava no armazém e, quando ela entrava para as compras, ficava todo vermelho e gaguejava.

Seu Mané e dona Maria tinham ódio mortal às cobras, mas Mariazinhaa não tinha problema algum com elas, tanto que, um belo dia de Vento Sul, apareceu grávida. Transcorrido o tempo normal, nasceu um neném que, no começo, cresceu e engordou legal – mas depois parou de aumentar e emagreceu, e já se pensava em médico quando aconteceu.

Depois do jantar, a moça foi amamentar o filho, como sempre fazia. Segundo hábito, despiu-se, deitou na cama com o neném ao lado, para descansar enquanto ele mamava.

Dona Maria lembrou de alguma coisa, foi ao quarto da filha e viu, aterrorizada, uma enorme cobra entrando pela janela e deslizando para a cama. A Mariazinha estava adormecida e não percebeu quando a cobra introduziu o rabo na boca do neném, tipo chupeta, e abocanhou-lhe o seio, mamando deliciada.

Finalmente Dona Maria saiu do estupor e saiu gritando:

– Mané, acode depressa que tem cobra no quarto da Mariazinha!

Seu Mané chegou correndo, empunhando o machado que usava para fazer cavacos e acender o fogo. A cobra tentou fugir, mas seu Mané foi certeiro: com um golpe, decapitou o ofídio. Diante dos olhos assombrados de todos, o corpo da cobra, nas contorções da morte, foi readquirindo as formas do rapaz do armazém. Franklin Cascaes explicaria, melhor que Freud, que o rapaz fizera algum pacto bruxólico para seduzir, engravidar e mamar na moça. A decapitação desfez o bruxedo.

Só que as coisas não são assim tão fáceis, nem mesmo em causo: seu Mané pegou cana pelo assassinato do namorado da filha, ninguém acreditou na história da cobrona mamadora. Se bem que esse causo é muito conhecido, inclusive em outros estados do Brasil – e prova que existe uma atração violenta entre cobras e mocinhas capitosas.

AS COBRAS DE MARÇO

Joãzinho, filho menor de seu Mané e dona Maria, era um garoto normal: tinha bicho-carpinteiro.

Naquela manhã de março, ao vê-lo entrar em casa com um feixe de paina, a mãe estrilou:

– Minino, tu saíssi da estrada prá pegar paina?! Então não sabis que as moitas tão cheias do cobra?

Ele resmungou uma resposta:

– Ah, mãe, mas tem Vento Sul, bom prá soltar pandorga…

E o Vento Sul levou o brinquedo pros lados do mar, junto com o carretel de linha surrupiado da caixa de costura da dona Maria. A mãe nem sabia ainda do furto e escutou barulho na pilha de lenha atrás da casa:

– Minino, mas dessi em doido?! Não sabes que pilha de lenha é onde dá mais cobra?!

E, evidente, não adiantou o garoto argumentar que vira ali um galho em forquilha, excelente para fazer atiradeira. Obrigado a desistir do tal galho, logo depois, dona Maria o apanha subindo numa árvore, para além do capinzal, em busca de outra forquilha.

Depois de alguns berros e ameaças sobre a alta incidência de cobras no capinzal, o menino voltou para o quintal da casa, muito contrariado e aborrecido.

A mãe voltou ao fogão e, depois de fritar umas postas de tainha para o almoço, estranhou o silêncio, saiu e foi encontrá-lo à beira do riacho, tentando apanhar um sapo.

– Mas minino, tu não tem jeito não?! Não sabis que ondi tem sapo tem cobra?!

Levou-o meio na marra de volta ao quintal, sentou-o num degrau da escada de casa com a recomendação, dedo em riste bem perto da cara:

– Se tu sais daí, vais ver quando teu pai chegar di noiti!

Seu Mané tinha a mão pesada e Joãozinho achou melhor acatar as decisões maternas.

Lá pelas tantas, dona Maria veio conferir e levou um baita susto: o menino não estava na escada, nem na árvore, nem na pilha de lenha. Saiu correndo e gritando:

-Joãozinho! Onde qui tu tais, menino endiabrado?!

A resposta veio espantosamente perto:

– Tô aqui, mãe.

Abaixado atrás do equipamento de pesca de seu Mané, num ângulo sem visão da janela da cozinha, mas bem no meio do quintal de terra batida, varrido, limpíssimo e perfeitamente a salvo de qualquer insidioso ataque ofídico, Joãozinho jogava bolinhas de vidro com um menino da vizinhança.

Sem jeito pelo “fora”, muito desemxabida, dona Maria voltou à cozinha, arrastando chinelo e resmungando:

– Ah, bom… nunca se sabe… março é mês de muita cobra.

TROCA DE DENTIÇÃO

Mesmo após acuradas pesquisas, não foi possível descobrir a espécie cobrórica da personagem a seguir – mas a violência da peçonha, é de dar arrepios.

Morando à beira do mato, seu Mané não jogava fora as velhas botas – guardava-as num canto para emprestar a caçadores e pescadores que por ali transitavam nos fins de semana. Era comum passarem por ali na sexta-feira à tarde, voltando no domingo, com uma fieira de peixes ou uma penca de passarinhos. Um dedo de prosa e iam embora.

Um dos mais habituais era um grandalhão, atendido por puro espírito de cortesia – ninguém gostava dele. Voltava com a penca sanguinolenta de passarinhos, alguns ainda com restos de vida. Contava que os mostraria a algumas pessoas como atestado de sua pontaria de cow-boy de cinema e depois jogaria no lixo:

– Dá muito trabalho depenar e têm pouca carne, dizia entre duas gargalhadas.

Pois esse mesmo tipo, passa num fim de semana pela casa de seu Mané, pega um par de botas e cai no mato. Domingo à noite não voltou, nem segunda nem terça-feira. Passada uma semana, um homem, vindo dos confins da Ilha para compras no povoado, advertiu seu Mané que havia um grandalhão morto à beira de uma estradinha, todo inchado, evidente que picado de cobra.

Seu Mané pediu ajuda de alguns vizinhos e foi buscar o corpo, que entregou às autoridades. Mas antes, retirou as botas que, afinal, eram suas.

Passadas algumas semanas, até que sem Vento Sul, a lembrança do ocorrido já esvanecendo, aparece outro caçador, que leva as mesmas botas emprestadas. Também demorou a voltar e seu Mané, com pressentimento, saiu a procurá-lo pelos caminhos e trilhas da região. Custou mas achou e, tal como o leitor já percebeu, morto e inchado, picado de cobra. Novamente providenciou a remoção, e resgatou os coturnos.

Mais algum tempo e chega outro passante, indo para uma pescaria. Seu Mané ofereceu:

– É bom levar as botas, tem tido muita morte por picada de cobra por esses matos.

Ofereceu o tradicional par de coturnos, contando o causo das duas mortes anteriores. Desconfiado, o homem tira o facão e passa por dentro do cano das botas. E, no assoalho lavado do chão, caem os dois dentes da cobra venenosíssima.

COBRAS LÚBRICAS À BEIRA DO CAMINHO

Na tarde desse causo, vinha Mariazinha voltando para casa. Vinha pensativa, arrastando os pés descalços no areião macio e quente da beira do caminho. Apesar de bonita, achava-se azarada em questões de amor. Tanto que, já ia fazer quinze anos e nenhuma proposta de casamento!

Eis que, entre as moitas da estrada, percebe uma agitação diferente no farfalhar das folhas do capim agitadas pelo Vento Sul. Não se preocupou muito, mas ao passar pela moita, lançou uma olhadela – e viu um casal de cobras, sem dúvida alguma perpetuando a espécie.

Lembrou da avó que, numa noite em veia de contar causo, dissera ser muito difícil ver cobra acasalando, devido à natureza pudica dos ofídios. Mas quem tivesse a sorte de flagrar um casal praticando, deveria cobri-los com uma peça da roupa que estivesse usando, e depois resgatar. A cada vez que usasse a tal peça, teria enormidades de sorte para usar como bem entendesse.

Muito bem – só que a única peça que a Mariazinha tinha sobre o corpo era o vestidinho de uso diário. A casa estava longe, fora de questão ir buscar outro e, mesmo que o casal de cobras caprichasse, não daria tempo de ir e voltar. Sem pensar muito, tirou o vestido e colocou-o cuidadosamente sobre os bichos, que gostaram da sombra. E afastou-se correndo, peladinha, em direção à casa.

A força da simpatia começara a atuar instantaneamente: em sentido contrário, também pensativo, vinha o rapaz causador dos problemas existenciais da moça. Ao se avistarem, numa curva fechada do caminho, ela não tinha como evitar de ser vista, correndo como estava – nada restava a ser feito, senão passar pelo rapaz como se ele não existisse. Foi o que fez, deixando-o catatônico no meio da estrada.

Os pais felizmente não estavam em casa – ia ser difícil explicar a nudez logo depois da passagem do rapaz. Vestiu outra roupa e aguardou a noite. Depois da certeza de que todos dormiam, pulou a janela e, nua na rua à luz da lua, voltou à moita, recolheu o vestido e voltou para casa.

Não há informação sobre se não queria gastar a força da simpatia ou se pegara gosto pela prática do striking. O fato é que na manhã seguinte, estando com o tal vestido, surge o tal rapaz, todo arrumado, pedindo a seu Mané consentimento para namorar a moça. Não mencionou, na conversa, o que ele acreditava ter sido uma visagem de bom augúrio na tarde anterior. Mas as senhoras e as senhoritas estejam certas: o que dá sorte não é esconder as cobras com a roupa, é andar nua pela estrada.

A COBRA CABELUDA

– Quero ver essa cobra incomodar agora, disse seu Mané, enxugando o suor do rosto.

Acabara de construir um pequeno rancho num canto do quintal, para guardar seus apetrechos de pesca. Mudou para aí o que armazenava, antes, debaixo da casa. Capinou e alisou toda a areia ao redor, nem uma minhoca passaria sem deixar rastros.

Uma baita cobra andava atacando as pessoas que chegavam à sua casa, e era opinião unânime que vinha caçar ratos no depósito sob o assoalho.

Mas de nada serviu a trabalheira: dia seguinte, aí pela hora do almoço, a família comendo postas de tainha frita com arroz de colorau, escutam-se gritos lá fora. Já se sabia do que se tratava: o namorado da Mariazinha, ao chegar para filar uma bóia, fora investido por uma cobra grande e esquisita. Correndo prá fora, todos constataram que era verdade: desaparecia no mato a bichona e realmente tinha cabelos – antes, se pensara ser uma muda de pele mal resolvida.

E eram sempre homens: ao passar perto da casa do seu Mané, sofriam ataque da cobra cabeluda. As mulheres não pareciam interessá-la, mas em se tratando de marmanjo, saía de debaixo da casa enraivecida, armando espirais e dando botes seguidos – o que era mais assustador devido ao tamanho desproposital.

Seu Mané já deixara até a pica-pau junto da escadinha – mas então, o insidioso ofídio não aparecia.

Num mês de março, com muito Vento Sul, a comadre da dna.Maria adoeceu, e Mariazinha lá se foi, meio contrariada por se afastar do namorado, para a Vila de Nossa Senhora do Desterro, passar uns tempos ajudando.

A cobra não foi mais vista – quando já fazia um mês que a Mariazinha estava na cidade, foi achada morta na beira da estrada – certamente, de frustração amorosa.

 

 

 

 

 

 

 

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