CALÇADA PORTUGUESA

5 de março de 2018 por keyimaguirejunior

   FANHÕES       

 

Para fazer a calçada

Como é nossa tradição

Ajeitam-se várias pedras

E uma à outra é ajustada

Com o martelo na mão

É um património nosso

Há que lhe dar atenção

 

– Fala um poeta e pintor:

A calçada portuguesa

É duma grande beleza

As calçadas de Lisboa

Embelezam a cidade

Refletem a luz do dia

Dão-lhe mais claridade

Dão-lhe muita alegria

E uma certa poesia

 

– Fala a Dona Delicada:

Eu cá não concordo nada

É uma grande maçada

Entalei o salto alto

No intervalo da calçada

Eu preferia o asfalto

Para não ficar entalada

 

– Fala o Mário Galante:

Para andar elegante

Não precisa salto fino

Não seja extravagante

Veja lá se toma tino!

 

Fala a D. Retorcida:

Já estou arrependida

Ia andar e de repente

Fiz um entorse valente

Ando meio abananada

Fiquei muito aborrecida

E a culpa foi da calçada

 

– Fala um lá do cantinho:

Não precisa que lhe tirem

As pedrinhas do caminho

Tenha atenção ao andar

Quando for a caminhar

Se tem cabeça no ar

Ao buraco vai parar

 

 

– Fala um ecologista:

Os intervalos na calçada

São para a terra respirar

São como poros da pele

Que não devemos fechar

As estradas de asfalto

Têm um custo bem alto

Estão-nos a prejudicar

Foram invenções bizarras

Deem vocês outra achega

 

– Fala um negociante:

Vejo aqui um grande furo

Lucrativo e com futuro

Com tecnologia e gestão

Vistas largas e expansão

Iremos dar à calçada

Oportunidade renovada

Gerida cá a meu jeito

Para me render proveito

O modelo está testado

E dá sempre resultado

Injeta-se mais capital

Compra-se maquinaria

Dispensa-se o pessoal

Sobretudo calceteiros

Vejam como tudo é simples

Para o investidor lucrar

Com os salários em baixa

Sobe o lucro que se encaixa

Reduz-se na mão-de-obra

E as máquinas fazem tudo

Engenheiros recrutados

Serão os encarregados

De aplicar novos inventos

A máquina a comprar

Servirá para calcetar

Desenrolará um tapete

De calçada já perfeita

Atrás vem outro cilindro

Que acalca tudo bem

Tudo fica calcetado

E muito bem borrifado

O mercado assegurado

Não vai ficar limitado

Só aqui a Portugal

Terá nova dimensão

A uma escala global

Se acreditarem em mim

Iremos ter autoestrada

De calçada portuguesa

De Lisboa até Berlim

É um bom investimento

Que exige planeamento

Que será patenteada

Na conjuntura ajustada

Para dar o maior lucro

Ao capital investido

 

– Fala a D. Prudência:

Gostava de responder

Ao que acabou de dizer

O que estive a ouvir

É avidez e ganância

Com um misto de ignorância

E causa-me repugnância

E eu até me arrepio

Com todo esse desvario

De ver lucro em toda a parte

Sem ver beleza nem arte

O lucro não pode ser

O motor das decisões

Temos é que avançar

Mas sabendo respeitar

As pessoas, os saberes,

De gerações anteriores

Temos que remodelar

Temos que inventar

Como havemos de fazer

Tanto património nosso

Que nos rodeia e dá vida

Não o queremos destruído

Queremos vê-lo protegido

Tudo tem o seu lugar

Temos é que pensar

Nas soluções corretas

Que teremos que adotar

 

 

– Fala então o Calceteiro:

Ouvi com muita atenção

O que nos esteve a dizer

E cá no meu entender

Dou-lhe toda a razão

Eu sou um profissional

Artesão tradicional

Pouca gente reconhece

O valor da profissão

E o que ela merece

O trabalho é cansativo

Mas pouco reconhecido

Mas tem a sua ciência

É preciso paciência

E muita dedicação

Para pavimentar o chão

Que os outros pisarão

Faz-se um belo pavimento

Pedras de cores diferentes

Com desenhos e arabescos

Embelezam ambientes

Temos de fazer valer

Este nosso património

A calçada portuguesa

Precisa ser conhecida

Deve ser conservada

E ser bem valorizada

Protegida e divulgada

Se estiver esburacada

Ou mesmo desnivelada

Terá que ser reparada

E esta é uma certeza

Há que valorizar mais

A calçada portuguesa

E os seus profissionais!

 

Luís Ferreira2017. Sociólogo:luisferreira_232@hotmail.com

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