UMA “VILLA” BURGUESA EM CURITIBA

3 de fevereiro de 2018 por keyimaguirejunior

 

Leitura de um projeto

 O amigo Carlos Hauer, aportou aqui em casa com um presente tão inesperado quanto valioso: um ante-projeto de Villa, construída – e não mais existente – em Curitiba.

Este me foi enviado pelo Sr.Paulo Grötzner, filho do construtor – e uma pessoa com uma memória que o torna patrimônio vivo da cidade.

A leitura abaixo é minha perspectiva de arquiteto da segunda metade do século XX – mas precisei de algumas conversas com o Sr.Paulo para chegar até ela.

NOTA HISTÓRICA

Na tarde do dia 02 de setembro de 1976, uma mocinha estava sentada no muro diante de casa, à Rua Cel.Assumpção, conversando com amigos. Escutou uma forte explosão, seguida de um deslocamento de ar que fez voar os cabelos. Depois ficou sabendo, pelo noticiário, da explosão de um caminhão de dinamite próximo à av. Anita Garibaldi – em linha reta, próxima.

Para a violência da explosão, houve poucas vítimas: três pessoas e um cachorro. Mas nas construções, o estrago foi grande. Parte do motor foi arremessado sobre a emblemática Fábrica Lucinda; não sobrou vidro inteiro no bairro Cabral.

Uma das casas abalada e que foi demolida em decorrência da explosão, foi a de Paulo Grötzner, a cerca de 200 metros do acidente, na esquina das Ruas Bom Jesus com Anita Garibaldi. Essa casa, com configuração de “Villa” burguesa, tinha sido concluída em 02 de fevereiro de 1924 – data anotada a lápis numa das pranchas – e portanto, foi habitada por pouco mais de 50 anos.

No local, foi construído edifício residencial, tendo sido conservadas as palmeiras que comparecem nas fotos antigas.

1 – Suporte

    Depois das alterações produzidas pelo digital na área de projeto de Arquitetura, talvez seja o momento de registrar algumas observações sobre os procedimentos tradicionais. Ao longo de quase todo o século XX, foram usadas pelos profissionais da área, resultando em imensos depósitos de rolos de papel nos escritórios.

O ante-projeto que descreveremos a seguir foi executado sobre papel Canson. A marca dágua é bem visível ainda:

LS.ANNONAY….ANCNES MANUFRES CANSON&MONTGOLFIER….VIDALON-LES-ANN

São duas pranchas, ambas com a legenda: “Projeto de uma casa a construir-se no Alto Cabral, propriedade do snr. Affonso Grötzner”.

  • a primeira, em tamanho 47 X 87 cm, na escala 1:50 contém a “planta térrea” e a “planta superior”; em escala 1:100 a “planta de cobertura” e, na 1:500, a de situação;
  • a segunda, em tamanho 50 X 72, contém um corte e duas elevações consideradas mais importantes, visto o terreno ser de esquina. Escala indicada, 1:50.

Os desenhos são cuidadosamente executados com tinta nanquim – suponho que usando tira-linhas – e a cor, muito discreta, aplicada com aquarela.

O projeto foi redesenhado sobre papel-linho e corresponde exatamente ao ante-projeto, sendo de supor que tenha havido decalque.

Esse papel, submetido a um banho de ferro-prussiato, perdia a película opaca, permitindo cópias em que as linhas brancas tinham destaque sobre fundo azul-da- Prússia.

Esse processo evoluiu quando os projetos passaram a ser desenhados sobre papel vegetal, este usado como um negativo.  As cópias, feitas sobre papel opaco eram reveladas com amoníaco e obtinha-se com linhas azuis ou pretas sobre fundo branco.

DSCN2182

Estojo com equipamento para desenho arquitetônico,

pertence ao Sr. Paulo Grötzner

 2 – Introdução

Tenho adotado a denominação “Villa” para uma categoria de análise arquitetônica. O objetivo do duplo “L” é diferenciar a “vila” pequena cidade ou área determinada para um conjunto de habitações, numa cidade. De resto, não se trata de invenção, está grafado assim em muitas fachadas, relevos destacados em lugar de honra, seguido de um nome feminino homenageado.

Interessa antes de mais nada caracterizar que a Villa representa uma inversão dos padrões de implantação e solução funcional da arquitetura luso-brasileira:

– a casa colonial ficava entalada – ou ombreada, segundo alguns autores – entre duas outras, e sobre o alinhamento predial. A Villa fica solta no terreno embora, na maioria dos casos, o paralelismo entre as linhas dominantes da planta e do terreno seja observada.

– a casa colonial se contém num retângulo ou dele se afasta apenas nos anexos, como decorrência da dificuldade para executar coberturas com volumes recortados. A Villa é de época com tecnologias mais modernas – no caso, a chamada “folha-de-flandres” – que permitiam calhas, tubos de queda e rincões. No caso do projeto em questão, o telhado é formado por vários volumes, numa composição elegante como coroamento da construção.

– a casa luso-brasileira tradicional dava conta das funções básicas de uma vida em que a sociabilidade era articulada fora dela, pela igreja. A Villa, habitação burguesa, traz a sociabilidade para dentro de casa: as residências têm conotações relacionadas com a vida em sociedade, como veremos adiante.

– em linhas gerais, as villas brasileiras correspondem ao último quartel do século XIX e primeira metade do XX, entrando pelo Modernismo. Sua tecnologia construtiva, portanto, assimila as modificações técnicas entre o fim do período colonial e se desenvolve ao longo de todo o Ecletismo – um período em que há intensa reformulação e  industrialização da construção.

3 – Implantação

O desenho não amarra o terreno à planta da cidade. Há uma indicação de “estrada”, pouco elucidativa. É provável que o projeto tivesse em vista ou fosse acompanhado de um documento cartorário.

Sabemos, por informação oral do Sr.Paulo Grötzner, que ficava na esquina das ruas Bom Jesus com Av. Anita Garibaldi, imediações da antiga e não mais existente Fábrica Lucinda, no Bairro Cabral.

O desenho indica uma área de perímetro muito irregular, contendo seis terrenos de formas e áreas variadas entre si. A villa em questão seria construída na esquina, lote IV, em forma de losango. Os demais lotes são pequenos, com 10 e 11 metros de frente. Apenas os dois lados frontais do losango somam 25,70 metros.

PG 02 (1)

4 – Cobertura

O telhado tem um corpo principal, composto por quatro águas. A frontal é prolongada para a esquerda em um segundo volume também com duas águas; da mesma forma há um prolongamento para os fundos com duas águas e uma tacaniça. Se somarmos as pequenas coberturas, em meio hexágono, das bow-windows, teremos um total de quinze águas. O corte não dá conta dessa complexidade e não foi marcada na planta sua posição, mas intui-se que foi traçado na parte central da área projetada.

PG 01 (2)

5 – Plantas

A “Planta térrea” não tem indicação de uso dos espaços – no entanto, todos têm janelas e se intercomunicam.

Se foi construída conforme o projeto, a casa deve ter apresentado problemas quanto ao funcionamento.

Os acessos se dão pela varanda em “L” – sendo o social pela sala de jantar, que por sua vez não se relaciona diretamente com a social.

Na outra extremidade do “L”, fica a entrada de serviço – que vai dar na cozinha aos fundos, depois de passar pela porta dos quartos e do banheiro. A cozinha é complementada por um quarto e uma despensa. Nesta, há uma escada que a representação não indica se vai ao sótão ou ao porão. Na chamada planta térrea, não há indicação de chegada dessa escada; sendo prevista no entanto outra, na porta externa da cozinha, descendo para o quintal.

A construção só se enquadra como “villa burguesa” por sua empostação. Nem seu programa construtivo e nem suas dimensões correspondem a esse conceito.

Examine-se algumas áreas:  sala…………. 18 m2

sala de jantar… 24 m2

quarto maior….. 20 m2

banheiro……… 4,75 m2

cozinha ……… 12 m2

A área útil do pavimento é de aproximados 170 m2 – considerando o térreo não utilizado, 340 m2. Não são dimensões que abrigassem um programa de sociabilidade ao gosto burguês, que compreendia outros usos.

Talvez o espaço de leitura mais complexa, seja a varanda. Depois de entrar pelo portão, localizado no chanfro do muro, na esquina, percorre-se uma distância de quase 18 metros de jardim, para chegar à entrada da escada. Esta conduz ao encontro de um dos segmentos do “L”, que é alargado para recebê-la. É necessária então uma curva de 360º no percurso, para chegar à sala de jantar – e duas de 90º para a sala de visitas, áreas íntima e de serviço.

O Sr.Paulo Grötzner nos informou que a casa sofreu várias reformas, sem dúvida tornadas necessárias pelos problemas de fluxo detectados acima.

PG 02 (2)

7 – Elevações

Na ausência de perspectiva – pouco usada em projetos da época – a visualização que se oferece da obra pronta, é nas duas elevações. Sendo construção de esquina, os dois desenhos fazem a representação do pretendido com a obra.

Sinteticamente, podemos observar uma valorização do pavimento superior, dado pela seqüencia de colunas da varanda e respectivo guarda-corpo. O pavimento térreo, não contém elementos ornamentais e tem seu visual praticamente obstruído pelo muro.

O aspecto senhorial da Villa é dado pelas colunas da varanda, em intervalos desiguais, apoiadas no guarda-corpo. E também pelo volume e presença do telhado, com beiral ornamentado com mãos francesas e contornando toda a construção.

O conjunto é coroado pelo telhado, bastante volumoso e, como já dito, um volume bem elaborado, ornamentado com pináculos metálicos.

As bow-windows contribuem para apresentar um tratamento elegante da volumetria externa e dos espaços internos da sala de jantar e do quarto principal.

Recurso ornamental freqüente na época, são as duas pinturas com paisagens, que não pudemos perceber se são afrescos ou telas aplicadas às paredes.

PG 01 (1)

6 – Corte

O pé direito desse pavimento é de 2,50 m e, apesar de baixo para os padrões da época, perfeitamente utilizável, inclusive como habitação.

O pavimento superior tem 3,50 m. Nas elevações, essa  altura e alguns recursos ornamentais valorizam esse piso como principal.

Houve aqui a necessidade de compensação da pequena inclinação do terreno, que desce 1,20 m dos fundo para a rua, havendo na parede posterior, um espessamento para contenção.

A cumeeira do telhado é bastante alta – a linha principal fica a 4m de altura em relação à do forro da casa.

O projeto, escassamente permitiria a execução do telhado, embora seja evidente que um construtor experiente poderia suprir as indicações faltantes. Mas alguns volumes – por exemplo as bow-windows – não poderiam se construídos somente com base na representação no projeto.

Abaixo, uma fotografia da Villa quando pronta. Posteriormente, foram plantadas seqüencias de palmeiras “Jerivá” ao redor, que dificultaram a vista da arquitetura.

PG SCAN 02

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