A BOLSA DE VALORES SEM VALOR

1 de setembro de 2017 por keyimaguirejunior

Durante décadas, procurei uma edição brasileira do “Seduction of the innocent”, de Fredric Wertham, copyright de 1953. Ainda não achei, e começo a perceber que não foi feita e que fui uma vítima indireta do tal MD. A professora Ana Maria Burmester conseguiu uma reedição limitada a 80 cópias, da Amereon House (NY), sem data.

Lembro de ter lido matérias decorrentes desse livro na “Seleções do Reader’s Digest” na década de 50. Essa revista tinha, então, enorme circulação no Brasil – e fui vítima indireta do “seu” Wertham: eu e toda a minha geração. Flavio Colin contou que no colégio em que estudava, em Porto Alegre, os professores induziam os estudantes a autos-de-fé, fazendo fogueiras no pátio com os gibis da gurizada…

Não presenciei essa insanidade, mas sei que existiu sob mais de uma forma: lá em casa, a censura prévia. Os gibis não eram permitidos, a não ser os Disney (bichinhos são inofensivos, certo?) e o Sesinho. Esse, além de ser escassamente gibi – tinha uma ou outra HQ – contava com o prestígio de Vicente Guimarães como editor.

Portanto, só meio século depois, pude ler o autor que me sacaneou. E constatar a falta que faz o debate, porque o cara é um chato, mentiroso, tendencioso e preconceituoso. Devia estar tirando partido da notoriedade de ser contra uma diversão cada vez mais presente na vida das crianças e adolescentes, e criando público pagante para sua clínica.

As inverdades começam na “publisher’s note”:

“Ele (o FW) estudou todos os tipos de gibis. Suas conclusões apresentadas são, portanto, contra a essência de todos os tipos de história em quadrinhos.”

     Pura e simplesmente, mentira. Nessa época, os grandes clássicos americanos – prá ficar na origem do livro – impecavelmente éticos, como Prince Valiant, Flash Gordon e Spirit – já tinham muita estrada, e foram ignorados. E havia muitos mais: para quem conhece um mínimo do mercado americano da época e da década e meia precedente, sabe que o panorama era de uma infinidade de histórias as mais familiares, honestas e edificantes.

Já no primeiro capítulo encontramos o testemunho de sua falsidade ideológica: “(combater os gibis) não é um trabalho quixotesco, mas hercúleo, remanescente do trabalho de limpar os estábulos de Augias”. (Prá quem não leu “Os doze trabalhos de Hércules” do Monteiro Lobato: Augias era um rei grego louco por cavalos. Tinha tantos que em suas estrebarias havia uma camada de esterco considerada irremovível, e os inimigos de Hércules fizeram com que o chamasse para executar a limpeza. Naquele tempo, ser herói era dureza… Para tanto, o filho de Zeus, vejam só, desviou um rio para dentro dos imundos estábulos. Que ficaram impecáveis, já o mar Egeu…)

Pois então, o livro segue inteiro nessa linha: todos os argumentos e testemunhos são evidentemente forçados, como as listas de delinqüências mais ou menos graves, dos adolescentes americanos. Em todos, FW destaca serem leitores de gibis – nem critério científico tinha o MD. Se o tivesse, teria que comparar essas listas com outras, de boas ações praticadas, digamos, por escoteiros leitores de gibis, tipo Huguinho, Zezinho e Luizinho…

A amostragem de trabalho portanto é manipulada: ele se limitou aos gibis de terror e policiais – que não sei qual a representatividade dentro do mercado americano da época. No Brasil, nunca foram grande coisa – mas, quem os conhece, sabem que aí sim, a barra é pesada. São revistas com o tema crime bem identificável, e dentro desse universo, pode-se ver toda a problemática levantada. Quem leu “Meia-noite”, “X9”, “FBI”, “Ellery Queen” e inúmeras outras, talvez dê razão ao dr.Werthan – a não ser que se tenha, como eu, enchido daquela turma de detetives e policiais incompetentes e corruptos e deixado de os ler.

Não vamos esquecer que os EUA viviam os anos da “Juventude Transviada” com seus ídolos cinematográficos que, eles sim, faziam um ambiente de violência propício à criminalidade. Mas isso é coisa que vem de outras mídias – da literatura do Sartre, se quiserem… – e considerar que quem lê gibi desenvolve uma mente criminosa, por favor, me poupem, parece coisa de político. A própria televisão merece um capítulo do livro, o penúltimo, que prefiro ignorar neste momento, estamos falando de gibi e pronto. A maior conseqüência do livro de Wertham foi o debate político que, nos EUA, resultou num “Código de Ética” de valor duvidoso. Como toda coleção de regras, pode ser iludida, contornada e tornada inútil.

Acho que o livro deveria ter sido traduzido, para que se pudesse ler e entender o quanto o autor é parcial e chegado a achar pelo em ovo.     Mas tenho que reconhecer que a maioria dos super-heróis de hoje me fazem pensar se o MD não tinha suas razões. Não a “Wonder Woman”, com a qual ele tinha uma birra especial e na qual nunca achei interesse, nem mesmo no short estrelado. Mas todos esses heróis, para os quais se criam vilões e situações capazes de render histórias de uma violência hiperbólica e incompreensível.

Só que tem uma coisa: a gente entre numa banca de revistas e encontra pouca coisa que não seja nessa linha de super-heróis. Edições caprichadas, coloridas, com capa dura e todos os atrativos possíveis da indústria gráfica. Imagino, portanto, que seja a leitura preferida dos atuais leitores de gibi.

E, em edições simples, que só quem conhece procura e compra, boas produções do mercado europeu. Ou então graphic novels e álbuns excelentes, mas encontráveis apenas em algumas livrarias.

Será que o chato do Werthan tinha razão?!

Para vocês pensarem melhor, recomendo o livro do Gonçalo Junior, “A guerra dos gibis” (Companhia das Letras”, 2004) que mostra como no Brasil a polêmica foi embarcada na briga pelo mercado editorial.

Abaixo, uma ilustração do livro de FW, que vê mulher nua na musculatura do ombro de um personagem bombadão. Será que Freud explica?!

WERTHAM

 

Enquanto isso, em Curitiba…

Antonio Eder é da geração atual de quadrinistas curitibanos, empenhado em abrir espaço nesse mercado cheio de heróis com muitos poderes e inteligência nenhuma. Como todo profissional consciente, sabe que a busca das raízes históricas é fundamental na construção de um ambiente sólido, duradouro. Isso em qualquer área – nos quadrinhos, em vista a situação mencionada, principalmente.

Como fonte, tem procurado na Hemeroteca Digital Brasileira, notícias e referências aos gibis. A que mostramos abaixo, ele encontrou publicada no Diário do Paraná de 30 de junho de 1960 – primeira página, vejam o que era a Província… – e é muito reveladora. Era conhecido o fato de as crianças trocarem gibis na entrada dos cinemas, principalmente nas sessões das tardes de domingo. Em Curitiba foi comum durante muitos anos, mas aconteceu em outras cidades brasileiras. No Gibitiba nº14, de 1992, foi publicada matéria baseada em depoimento de um “trocador” na década de cinqüenta – portanto, na época em que o livro em questão estava em pauta. O Eder encontrou essa pérola, que autorizou o Keynews a publicar: uma notícia que é reveladora do preconceito do jornalista – e do jornal, é claro – com relação aos gibis: “A bolsa de valores sem valor”. Ironia barata comparando o ludismo da troca de revistas à neura safada do mercado de capitais.

O repórter deve ter aprendido a mentir e manipular as opiniões com o dr.Wertham, apesar de ser improvável que o tenha lido. No início, diz ter sido feriado; e no fim, que os gibis induzem a gazear aula. Pelo meio, pede repressão até mesmo policial, às atividades da garotada.

bolsa de HQ_detalhe

Essa também é achado do Eder, e mais dentro ainda da “mentalidade Wertham”… Embora anterior à notícia precedente, é posterior à publicação da “Seduction of the Innocent”.

delito com influencia de HQ_detalhe

 

 

 

 

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