CENAS DE UM MUNDO FLUTUANTE

14 de julho de 2017 por keyimaguirejunior

Há muito tempo, obtive, numa troca, dois álbuns de gravuras japonesas – estavam em precário estado, e ao proprietário não interessavam. Faltavam cerca de metade das imagens – tanto que concentrei os dois álbuns em um.  Na verdade, era para ser uma série de três álbuns, com dezoito gravuras. Mas como eu sempre desejara ter essa arte na biblioteca, ótimo assim mesmo.

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IMAGENS DE UM MUNDO ONÍRICO

Este post acaba sendo mais difícil do que pensei. É que, na verdade, para mim o Ukiyo-e eram as paisagens de Hokusai e Hiroshige – deformação profissional, evidente. Tanto que, mais do que “mundo flutuante”, como tem sido traduzido, eu achava tratar-se de um “mundo onírico”. Mantive essa denominação no post por ter viajado muito nas gravuras desses e outros autores, que pedem por meditação e contemplação.

Tive um background de livros infantis japoneses ilustrados, dos quais não conseguia ler patavina, mas as ilustrações eram tão boas que dava prá acompanhar as histórias. “Li” para meu filho a deliciosa história do Momotaro – criando o texto a partir das ilustrações…  Mangá também conheci antes das traduções, e dava para apreciar no original.

Bem, quando adquiri esses álbuns – e comecei a procurar leitura sobre Ukiyo-e, percebi que a coisa era bem mais complexa do que supunha minha vã filosofia. Para começo de comversa, Ukiyo-e não é apenas gravura, embora eu a entenda como principal manifestação. Depois, as ilustrações dos meus álbuns eram nitidamente uma temática específica – qual seja, o cult a atores e personagens de teatro clássico Kabuki – nada de paisagem para sonhar. Nunca assisti a uma peça desse ou de qualquer outro tipo de teatro japonês, nem mesmo em filme. E filmes japoneses, vi todos os que pude.

Alguma coisa que captei, como leitor de gibi, é que há séculos já se usava a narrativa com texto e imagens associados.

Minha bibliografia assinala que o Ukiyo-e como gravura, existe desde início do século XVII na cronologia ocidental, período Edo na japonesa.

Há notável troca de influências com a arte do Ocidente. Os holandeses, também bons de gravura, já andavam por lá, e a exportação de coleções para a Europa foi intensa, fazendo-as admiradas. Van Gogh e seus contemporâneos produziram cópias. Mas vamos lembrar que essa influência não é apenas nesse grupo de artistas – o Art Nouveau todo, como momento da História da Arte, tem presença da estética japonesa assumida e ostensiva.

Mas voltemos. As gravuras deste post medem, no original 36,5 X 39,5 (o papel) e 24,5 X 36,5 a marca em relevo da matriz, o que as coloca, dentro da modulação japonesa, no formato “Oban”. Não sei identificar o papel, mas certamente não é o “sufite serviços gerais” das nossas impressoras… O texto das páginas de introdução é extenso, e num kanji que me parece dos mais eruditos, sobre belíssimo papel casca-de-arroz.

A encadernação dos álbuns é dentro da tradição japonesa, com as folhas perfuradas à direita e presas à capa dura por fitas de tecido, nada de metal.

Numa página – que presumo ser tipo ementa – em inglês, o Sensei Shigetoshi Kawatake, professor diretor do Museu de Teatro da Universidade Waseda, explica tratar-se de personagens de Kabuki-Yukashiban, nome do conjunto de dezoito peças clássicas compostas ao longo de 250 anos. O artista foi Torii Tadamasa, que pertence à Escola Torii e é fiel às suas características, por exemplo o exagero nas expressões de poder dos personagens.

 

Evidente que essas figuras – todas representando samurais façanhudos – em nada se relacionam com a minha idéia de um “mundo onírico”, que se aplicaria apenas às paisagens de Hokusai, Hiroshige e outros. Mas se enquadram na idéia de um “mundo flutuante”, na medida em que tratam de um teatro refinado, dirigido a pessoas cultas.

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ESCASSA E ALEATÓRIA BIBLIOGRAFIA

Ainda não tive oportunidade de uma pesquisa sistemática sobre qualquer aspecto da cultura japonesa. Principalmente, não falo a língua, o que é fatal – mal sei me virar para pedir um sashimi ou sukiaki em restaurante… Nasci no ano seguinte ao fim da Segunda Guerra: era perigoso, além de ter cara de japonês, falar essa língua, e meu pai não a ensinou. O que segue, são livros que, literalmente, me caíram nas mãos ao longo dos anos, catálogos de exposições, e assim por diante.

Ukiyo-e, pinturas do mundo flutuante. (Coleção do Instituto Moreira Salles) Org.Madalena Hashimoto Cordaro. São Paulo, IMS, 2008.

Sharaku Interpreted by Japan’s contemporary artists. The Japan Foundation, 1996.

O Museu Atami de Belas Artes e seu acervo. (Catálogo achado em sebo, incompleto, sem os dados da edição).

As 53 vilas da Estrada Tokaido; xilogravuras de Hiroshigue. São Paulo, Fundação Mokiti Okada, 1982.

– Adele Schlombs. Hiroshigue. (Coleção Van Vleck). Köln, Taschen, 2009.

Hokusai; paintings, drawings and woodcuts. Oxford, Phaidon Press, 1955.

– J. Bouquillard & Christophe Marquet. Hokusai, first manga master. New York, Abrams, 2007.

– Henry P.Bowie. On the laws of Japanese painting. New York, Dover, 1952.

Hiroshige: 100 famose vedute di Edo. Köln, Taschen, 2015.

– Fernando Ximenes (adapt.) Motivos japoneses de design. s/local, Tecnoprint, 1983.

– Kemon Yoshimoto. Traditional japanese small motif and middle figure patterns. (dados em japones)

– Jeanne Allen. Samurai patterns, the designer’s guide to. London, Thames & Hudson, 1968.

– Pellitteri, Marco. Il drago e la saeta. Italia, Tunué, 2008.

– Luyten, Sonia. Mangá, o poder dos quadrinhos japoneses. São Paulo, Estação Liberdade, 1991.

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