O CINQUENTENÁRIO METRÔ DE CURITIBA

9 de maio de 2017 por keyimaguirejunior

Em 2019, será isso: meio século que ouço falar dele. Talvez vá ser uma festa meio solitária – mas a comemoração que me ocorre, é a de não ter sido construído.

Minhas razões serão, talvez, tão solitárias quanto a festa. Mas desde que falo mal dele, nunca fui contestado a sério. A maior parte de seus partidários confunde política com transporte urbano – e fazem crítica ao modelo atual, de ônibus de superfície, que tem um peso descomunal no contexto eleitoral. Aponta-se com superado um modal que está lá funcionando a todo vapor – apesar de sobrecarregado. Fala-se de boca cheia em “tem é que fazer o metrô de uma vez” – ou que “a cidade já merece um transporte de qualidade”, com ares de cosmopolitismo. Como se enterrar o transporte fosse a solução, embora não se negue que contém muita tecnologia de ponta, ao gosto neoliberal. Não considero essas frases como argumentos, são apenas bate-boca de bar. Quero é respostas às questões que se seguem.

– Em alguma cidade do mundo, o metrô resolveu as questões de circulação? Já usei metrô numas dez cidades do planeta e, pelo que observei, a única coisa a seu favor é que sem ele, poderia ser pior. Não é suficiente. Um pouco mais de conforto e eficiência podem ser obtidos com melhorias nos sistemas atuais.

– A construção de um metrô – seja enterrado ou elevado – custa um rio de dinheiro. Que, para os investidores, públicos ou particulares, volta com a exploração comercial do sistema. Mas de algum lugar, essa grana vai sair – e não há nada de melhor para fazer com ela?! Talvez países ricos possam se dar a esse luxo, por aqui entendo que temos outras prioridades. Educação e cultura, principalmente: melhorando nossas cabecinhas subdesenvolvidas, melhora tudo, inclusive a circulação urbana.

– Além do mais, estamos no Brasil: onde houver muito dinheiro concentrado, haverá concentração de ladrões e roubalheira. Necessariamente, um metrô é dessas coisas que levam um tempo enorme para serem feitas e nunca ficam prontas, sempre se precisa investir em novas linhas.

– No caso específico de Curitiba, as linhas irão cruzar uma enormidade de rios e riachos, que serão canalizados. Lembrem que estamos nas nascentes de um dos maiores rios do mundo e a segunda maior bacia hidrográfica do país: tem olho dágua e riacho prá todo lado. Canalizar é um crime que já cometemos muito além do tolerável, e nem se fala em reverter esse barbarismo urbanístico.

– Desde a implantação do plano diretor de Jorge Wilhelm, o percurso do metrô está lançado: são as avenidas estruturais, e isso é o único argumento a seu favor. Só que esse percurso secciona ao meio o Setor Histórico da cidade. Se a abertura da Estrutural Norte já causou prejuízos irrecuperáveis a essa área, as obras de um metrô – que são necessariamente violentas – muitas construções terão suas fundações abaladas, muitas irão ruir ou ser prejudicadas em nome de um progresso ilusório. Mais ilusório ainda, é achar que capitalistas farão obras de consolidação e restauro que em nada aumentarão seus lucros.

 

-*-

 

Independente dessas minhas boas – ou más… – razões, ouço falar desse metrô desde 1969, quando fazia estágio no IPPUC. Muita conversa, debate, reunião rolou – e nem é bom pensar quanto tempo já se desperdiçou no período e até hoje.

O que ficou, prá mim, foi o projeto do arquiteto Domingos Bongestabs para a estação “tipo estrutural” que acompanharia o projeto definitivo.

(Eu trabalhava como pesquisador, não como desenhista. Minha escassa paciência nunca me permitiria ser desenhista de arquitetura. Uma escada residencial, por exemplo, requeria dezessete risquinhos iguais com caneta Graphos, uma tortura. Que fazia pensar na economia de espaço representada por um elevador hidráulico – a energia ainda não estava em crise.)

Mas eu já era admirador dos projetos do arquiteto Bongestabs – e reivindiquei a honra de desenhá-lo. O que me foi condescendentemente concedido.

O resultado são as três pranchas que se seguem. Lembro que fotografei também a maquete do projeto, feita na garagem do IPPUC por um japonês – preciso procurar nos meus arquivos de negativos.

Evidente que o projeto – e o meu desenho… – deve ser visto de uma perspectiva de cinqüenta anos. Mas ele se insere na estética do concreto aparente e do metal praticada pelo arquiteto nesse período. São obras da mesma vertente, a concha acústica da Praça Afonso Botelho, o monumento da Praça 29 de Março e, principalmente, o projeto não construído da Gibiteca de Curitiba.

001 (2).jpg

003 (2)

002 (2)

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: