OS VELHOS CARROS

21 de abril de 2017 por keyimaguirejunior

Crônica publicada no “Diarinho” de Itajaí, em 11/04/2017.

Muito embora com assás escassa simpatia por automóveis, gosto de ver esses carros de colecionadores, impecavelmente mantidos em sua melhor forma. São conservados em condições de uso: circulam nas cidades e viajam pelas estradas junto com os novos. E sempre despertam um sorriso e uma exclamação de simpatia por sua performance.

Observá-los é, antes de mais nada, um exercício cultural, de avaliação da evolução dos padrões do gosto estético, do desenho, da idéia de conforto, da expectativa de desempenho urbano e estradal. Qual foi o desejo que os colocou no mercado e lhes permitiu permanecer nele, ainda que talvez com algumas décadas no abandono no baixo astral de um ferro-velho? As antigas marcas já eram griffes, no sentido de conterem características estéticas ou mecânicas implícitas: o aristocrático dos carros ingleses, a eficiência técnica dos alemães, o desvairado luxo ostentatório dos americanos. Visto de fora, é a expansão capitalista descontrolada que cria os modelos populares de apelo consumista – os inenarráveis “carros do ano”. Mas é também esse exacerbamento que faz dos antigos modelos peças de coleção, orgulho de seus proprietários e, evidente, ornamentos prestigiosos em nossos logradouros urbanos onde impera o mau gosto e a mediocridade projetual, dos objetos e roupas à arquitetura e aos agenciamentos urbanos.

Nesse contexto, o exercício nostálgico é apenas componente menor, embora agradável. Inevitável lembrar os familiares que tiveram os mesmos modelos, “parece o mesmo carro!” e com eles, a lembrança dos passeios, viagens, aventuras – namoros em ruas desertas… – por eles proporcionados. O que fez esses antigos “objetos de desejo” serem refugados e substituídos, durante um certo período, voltarem com o prestígio de objetos de coleção? A um custo certamente elevado, foram os atuais modelos, despejados aos milhões pelas montadoras e fabricantes e que, a um custo social incalculável, chegam à insanidade de expulsar das cidades os moradores.

As peças de coleção não cometem, tanto quanto sei, dessas maldades – são paparicadas, polidas, conduzidas com prudência, como com medo da superpotência agressiva e desnecessária dos novos modelos. E alegram a vista, no panorama das mediocridades mais recentes de mercado automobilístico.

E aqui fica meu recado pessoal: porquê se tem tanto cuidado, carinho e critério com os carros – enquanto é cada vez mais difícil preservar as antigas casas e construções, que compõem uma cidade de maneira permanente, enquanto o carro agora está aqui e dentro de minutos não está mais? Não há comparação possível entre a importância de preservar uns e outros: a questão não é um ou outro, mas um e outro. Os critérios não são muito diferentes: a construção tem que dar conta de cumprir com sua função de abrigo, tanto quanto o carro tem que circular dentro dos padrões contemporâneos de trânsito. Isso para que seja uma conservação válida tanto do ponto de vista cultural quanto funcional.

Mas não quero ser injusto, a arquitetura é infinitamente mais complexa que um carro, uma construção contém tecnologias evoluídas durante milênios; no caso de uma carro, no máximo de algumas décadas. E nem pode ser levada para ser exibida em eventos… Tem critérios especiais e específicos, para obtenção de resultados urbanamente explícitos. E há quem faça a manutenção cuidadosa e criteriosa de suas casas, sim senhor – só que ainda assombrosamente poucos, se pensarmos na proporção com os colecionadores de carros.

ASSAD

 

CLINIO

FIATINHO

As fotos acima foram feitas em locais e circunstâncias diversos, e não sei se os donos desses carros concordariam com seus nomes no Keynews.

Abaixo, publicidade em revista italiana contrastando design antigo com moderno.

GLAMOUR

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