SOBRE O INÍCIO DOS GIBIS

22 de fevereiro de 2017 por keyimaguirejunior

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Wilhelm Busch: a qualidade do desenho dispensa balões e onomatopeias.

Acho bem possível que, numa perspectiva montada a partir dos próximos séculos, o XIX possa vir a ser considerado mais interessante que o XX. Todos os extremos a que chegamos, em nossos tempos, pressionados pelas forças capitalistas, tiveram sua origem – e portanto configuração – na emulação modernizante daquele período.

Assim foi também com a literatura gráfica: tal como a entendemos hoje, já era possível desde o final do século XV: tanto técnica quanto formalmente. Os componentes conceituais – imagens estilizadas, associadas a texto, contido ou não num balão – vêm de milhares de anos. A impressão sobre papel de uma narrativa quadrinizada seria possível, portanto, desde Guttenberg: uma vez que, ao serem impressas as Bíblias pelo mestre tipógrafo alemão, a gravura sobre madeira já tinha um considerável desenvolvimento em vários países da Europa. Aliás essa possibilidade não passou desapercebida a Albrecht Dürer, que produziu várias seqüências de imagens interessantes. Quase em paralelo, desenvolveu-se a gravura sobre metal – que, compreensivelmente, permite impressos mais detalhados e mais precisos. Essa técnica já se encontra bem desenvolvida quando da Revolução Francesa – e foi usada por ambos os lados da encrenca.

O nível de detalhamento permite a impressão de grandes cenas – presente ou ausente o texto que, dada a impossibilidade de se ler – no sentido da apreensão visual – ao mesmo tempo, obriga a uma leitura seqüencial.

E é assim que, aí pela metade do século XIX, chegamos à história em quadrinhos em sua forma atual. Não acho tão importante precisar que a primeira surgiu em tal ou qual lugar, da autoria deste ou daquele artista – são coisas sempre relativas, sujeitas à descoberta de alguma coisa anterior.

A colocação que importa é: a história em quadrinhos, na plenitude de suas características atuais, surge na Europa na metade do século XIX.

E surge quase ao mesmo tempo no continente americano: na década de 1860, Henrique Fleius publica o “Dr.Semana” e Angelo Agostini o “Nhô Quim”, seguido de “As aventuras de Zé Caipora”. O primeiro gibi brasileiro deve ter sido aí pela década de 10, com a reunião em volume das histórias de Zé Caipora. Uma raridade que se sabe que existiu pelos anúncios de “O Malho”, nenhum colecionador sabe, ninguém viu…

De minha parte, se tiver que atribuir a paternidade das HQ a alguém, seria, sem hesitação, ao alemão Wilhelm Busch. A qualidade do desenho caligráfico, a genialidade das situações e das narrativas, dispensam justificar essa atribuição. Se Bush não utiliza textos em balões e onomatopéias, é porque seu desenho prescinde de ambos. A influência de Busch é universal e chega à remota Curitiba, onde – em data não localizada – Hans Nöbauer publica “Fred und Fritze”, versão de “Max und Moritz”, dentro de uma extensa genealogia de duplas de garotos terríveis, aprontadores.

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Onkel Oskar: a influência de W.Busch chega a Curitiba. Início do século XX (?)

     Visto isso, em que se apoia a candidatura do Yellow Kid a primeira HQ do mundo? Não conheço qualquer argumento convincente a favor. Talvez pela aposição da cor, que a essa altura o equipamento gráfico já permitia nas grandes tiragens? Mas, ora essa, a cor é perfeitamente dispensável nas HQ…

Talvez pela excelência das cenas, nas quais se viaja em busca de detalhes? Mas isso seria ignorar o trabalho de tantos artistas, desde Brügel até o gravador inglês que colocou toda a nobreza da Inglaterra numa cena que retrata o casamento da Rainha Vitória.

Claro, Outcault misturou textos com desenhos – mas isso estava longe de ser novidade em 1895, quando até os balões já eram comuns. E os artistas de Queops também faziam…

Alguém pode argumentar que a soma desses “pequenos pioneirismos” represente o início da história em quadrinhos, mas não há no Yellow Kid as decupagens da narrativa seqüenciada – não se conta, enfim, uma história por meio de quadrinhos. Retrata-se uma cena única que, com os méritos que se lhe possa atribuir, não é uma história em quadrinhos e sim um cartum.

Na verdade, nunca li uma justificativa séria da aceitação do Yellow Kid como marco inicial das HQ. Aceita-se, louva-se, divulga-se – sem argumentos. O que torna a unânime aceitação da coisa ainda mais irritante e menos palatável. Nossas cabecinhas terceiromundistas se embasbacam com os fogos de artifício da cultura da metrópole.

Yes, Sir! Pois não há por aí quem concorde que o planador dos Wright foi o primeiro avião?!

(Publicado originalmente na “Gazeta do Povo” de 12/10/1995, portanto centenário da publicação do Yellow Kid.)

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Pin-up em homenagem ao centenário do Yellow Kid, exposição na Gibiteca de Curitiba, 1995.

 Algumas leituras para pensar o início dos gibis

– BLACKBEARD, Bill. The Yellow Kid. Usa, Kitchen Sink, 1995.

– BUSCH, Wilhelm. Neues Wilhelm Busch Album. Berlim, Grunewald, s/data. (Há uma dedicatória manuscrita na página de rosto, de 1922)

– CAMPOS, Rogério de. Imageria; o nascimento das HQ. São Paulo, Veneta, 2015.

– CARABBA, Claudio. Fumetti d’Oro Nerbini. Firenze, Nerbini, 1972.

– CARDOSO, Athos Eichler. As aventuras de Nhô Quin e Zé Caipora. Brasília, Senado Federal, 2002.

– CAUMERY & PINCHON. Bécassine au Pays Basque. Paris, Gauthier-Languereau, 1973. (Coleção com vários álbuns)

– CHRISTOPHE. Les facéties du sapeur Camember. Paris, Meilleur Livre, 1958.

– FORTON, Louis. Les Pieds Nickelés s’en vont en guerre. Paris, Azur, 1966.

– GASCA, Luis. Los comics em España. Barcelona, Lumen, 1969.

– HORAY, Pierre (org). Histoire Mondiale de la BD. Paris, P.Horay, 1980.

– IMAGUIRE Jr, Key. A Gibiteca de Curitiba. Curitiba, Lon/Cartografia, 2012.

– LIMA, Herman. História da caricatura no Brasil. Rio de Janeiro, J.Olympio, 1963.

– LIPSZYC, Enrique. La historieta mundial. Buenos Aires, Editorial Lipssic, 1958.

 

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