AUGÚRIOS DE INOCÊNCIA

17 de janeiro de 2017 por keyimaguirejunior

A poesia de William Blake tem essa rara qualidade de ser instigante, no sentido de se querer entender bem onde ele quis chegar. Para isso, nada melhor que traduzi-la – mesmo ao custo de cometer algumas traições ao autor, que no entanto, são inevitáveis. Quem duvidar, tente o exercício de fazer sua própria versão. WB já compareceu em Keynews com “Tiger!Tiger!”

Para caracterizar bem a dificuldade, William Blake nasceu em 1757 e morreu em 1827 em Londres; foi também pintor e tipógrafo.

O texto que usei é do “Graphic Canon”, volume 2. (Organizado por Russ Kick, NY, Seven Stories, 2012. Ilustrado por Aidan Koch). Na edição facsimilar  (BLAKE, William. Songs of Innocense. NY, Dover 1971) essa poesia não consta.

flordecera

Ver um mundo num grão de areia

E um céu numa flor silvestre

Segurar o infinito na palma da mão

E a eternidade em uma hora

Uma ave engaiolada

Provoca revolta no céu

Um pombal cheio de pombos

Sacode todos os cantos do inferno

Um cão esfaimado num portão

Anuncia a ruína do país

Um cavalo estropiado numa estrada

Clama pelo sangue do humano

O grito da lebre acuada

São nervos ao cérebro arrancados

Uma andorinha com asa ferida

É um querubim que cessa seu canto

Uma rinha de galos

Empalidece o sol nascente

Cada urro de lobo e de leão

Libera do inferno uma alma humana

O cervo, errando pelos bosques

É um alivio para a alma humana

O cordeiro sacrificado pelos erros humanos

Perdoa a faca do açougueiro

O morcego voando ao entardecer

É como a mente que não quer acreditar

O chamado da coruja na noite

Conta a desesperança dos agnósticos

Quem ferir a pequena curruíra

Nunca será respeitado pelas pessoas

Quem levar o touro à irritação

Nunca será amado pelas mulheres

Quem atormenta um besouro

Tece para si a escuridão da noite

A lagarta na folha

Como que repete as lições das mães

Não mate mariposa ou borboleta

Acredite, virá um Julgamento Final

Quem levar um cavalo para a guerra

Nunca passará a fronteira distante

O cão do mendigo e o gato da viúva

Alimentados, crescerão viçosos

O mosquito que canta sua canção de verão

Injeta um veneno como o da calúnia

O veneno da cobra e do lagarto

São feitos com o suor da inveja

A veneno da abelha

É a inveja do artista

Os trajes da princesa e do mendigo

São mofo na bagagem do avarento

A verdade dita com maldade

É pior que todas as mentiras

E é certo que seja assim

O homem é para a alegria e a dor

E quando sabemos bem disso

Estamos seguros para ir pelo mundo

Alegria e tristeza tecidos juntos

São uma veste para a alma divina

Sob cada pena e pesar

Corre um fio de seda de alegria

O bebê é mais importante que as fraldas

Em todas as terras dos homens

Ferramentas são feitas para as mãos

Qualquer fazendeiro entende isso

Cada lágrima de cada olho

Torna-se uma criança na eternidade

Isso, entende a intuição das mulheres

E torna-se seu próprio prazer

Quer rugindo quer uivando

São as ondas nas praias do paraíso

Uma criança chorando sob o castigo

Enseja vingança no reino da morte

Os trapos do mendigo agitados no ar

Ensejam lágrimas nos céus

O soldado bem armado

É uma ofensa ao sol do verão

As moedas do pobre são mais valiosas

Que todo o ouro da costa da África

Tirar do trabalhador um só centavo

É comprar e vender lotes de miséria

Mas se o roubo é protegido pelos poderosos

Todo o país será vendido e comprado

Quem ri das crenças infantis

Será ridicularizado na velhice e na morte

Quem ensinar uma criança a duvidar

Sairá podre e errante de sua tumba

Quem respeitar a fé infantil

Vencerá a morte e o inferno

Os jogos das crianças e as razões dos velhos

São frutos de duas estações

O cético sentado, com seu ar de esperto

Nunca saberá responder

Quem responde às palavras da dúvida

Não faz surgir a luz do conhecimento

O mais poderoso dos venenos

Vem da coroa de louros de César

Nada deforma tanto a natureza humana

Quanto um braço armado

Quando os arados forem como jóias

As artes da paz terão vencido as da guerra

Um enigma ou um canto de grilo

Respondem a qualquer dúvida

Um espaço para a formiga e um para a águia

Fazem sorrir o filósofo

Quem duvida do que vê

Não acreditará em nosso gosto

Se o sol e a lua tivessem dúvidas

Cairiam rápido de sua órbitas

Com paixão você pode fazer o bem

Mas nada de bom na paixão por si

Com aval do estado, o ladrão e a prostituta

Constroem o destino da nação

Os gritos das prostitutas pelas ruas

Tecerá a mortalha da velha Inglaterra

Cada noite e cada manhã

Trazem uma nova miséria

Cada manhã e cada noite

Fazem nascer um novo prazer

Alguns nascem para os prazeres

Outros para uma noite sem fim

Somos levados a crer numa mentira

Quando não vemos com nossos olhos

O que nasceu para morrer na mesma noite

Quando a luz da alma dormia

Deus surge e Deus é luz

Para as almas que descansam à noite

Mas ele mostra sua forma humana

Para quem vive no reino do dia.

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