O BELVEDERE DE CURITIBA

10 de janeiro de 2017 por keyimaguirejunior

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       1-IMPLANTAÇÃO. A área histórica de Curitiba é articulada por praças: Eufrásio Correa, Generoso Marques, Santos Andrade, Osório, Largo da Ordem, Garibaldi e João Cândido. Não só, é claro – mas esses espaços, com seu efeito de respiro urbano e de abertura de visuais para  quem percorre as ruas entre os alinhamentos das construções – concentram o melhor da arquitetura e dos cenários da cidade. Junto com as ruas que as ligam, formam uma área da qual se frui com prazer, densas de evocações históricas em particular e culturais em geral.

O equipamento das praças inclui elementos de paisagem natural, mas também arquitetônica: a idéia de um lugar onde se vai para apreciar a paisagem é, evidentemente, antiga e comum. São belvederes os agenciamentos ao redor do Cristo Redentor e Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, como exemplos universais. Terraços e restaurantes no último andar de prédios altos, são belvederes.

Localizado num dos pontos mais altos de Curitiba, o Belvedere da Praça João Cândido não é o único na região – mas público, não há outro. Citando casas com mirantes – construídos para fruir do visual privilegiado que se tinha da Serra do Mar – menciono a casa da Rua dr.Keller 129, o sobrado Hauer (depois Colégio da Divina Providência) na Rua do Rosário e o terraço da casa de Frederico Kirchgassner. A perda desse mirante foi traumática para a família do arquiteto.

No entanto, e curiosamente, o Belvedere prioriza, como paisagem, o centro da cidade: a perspectiva da Rua Ébano Pereira até a Rua XV de Novembro, ficando de lado para a vista da Serra do Mar – que no entanto, terá sido bem visível de uma das sacadas, a lateral direita.

A centralidade urbana da praça foi sem dúvida fator  determinante: embora haja referência aos 970 metros de altitude do local, é fácil perceber que a Avenida Manoel Ribas, que nasce nas proximidades com o nome de Jaime Reis, ainda sobe íngreme na direção das Mercês, Bom Retiro e Pilarzinho, região onde foram localizadas, na segunda metade do século XX, as transmissoras de televisão.

Não conheço outra cidade que tenha uma construção com essa conotação narcisista, de auto-observação…

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2- Projeto. A planta é quadrada, com dez metros de lado. O espaço privilegiado é o que dá frente para a Rua Ébano Pereira, ocupando metade da área. Esse espaço é protegido, no térreo, por um avarandado trapezóide, que estrutura o balcão/observatório do piso superior. Sobre os lados menores do trapézio, projetam-se duas sacadas que dão à volumetria sua leveza. A metade de trás é dividida em três partes, sendo a central ocupada pela escada e as laterais, provavelmente por serviços ou espaços reservados.

A cobertura é um telhado de quatro águas, com prolongamentos frontais para abrigo das sacadas. O tratamento com peças de madeira, dessas coberturas, destaca na edificação seu caráter de observatório.

O conjunto tem proporções harmônicas e agradáveis. O desenho art-nouveau dos vãos e suas molduras, e as decorações em baixo-relevo na alvenaria contribuem para uma formulação espacial única na cidade.

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3- Histórico. A iniciativa coube ao então prefeito Cândido de Abreu, que permutou o terreno no qual seria construída a igreja de São Francisco de Paula com a Cúria. As obras da igreja encontravam-se abandonadas por falta de recursos, e dela restaram no local as “ruínas”, importante item do acervo da área histórica. A idéia da construção, bem como seu projeto, são atribuídas ao prefeito, autor de vários outros pela cidade.

A inauguração foi em 1915 – mas curiosamente, não foram encontradas referências a seu funcionamento, não se sabendo se ensejou a desejada sociabilidade. Talvez a íngreme subida da Rua Ébano Pereira tenha tornado difícil o acesso.

Cedido à Universidade do Paraná para instalação de um posto de observação meteorológica, que não foi efetivado, teve então instalada a Rádio Clube Paranaense, PRB-2,que há tempos o reivindicava e errava por várias sedes. Estabelecida no local em 1933, permanece na edificação por quarenta anos.

A edificação foi então ocupada pela União Cívica feminina.

Em 1966, é tombada como Patrimônio Histórico e Artístico de Estado do Paraná. Tombamento que, muito adequadamente, inclui os demais itens do entorno, como as “ruínas” e o calçamento em petit-pavê, com desenhos paranistas. Acertadamente, em vista de o Belvedere, como toda a praça João Cândido, ser um item primordial da cultura do Estado. O entorno inclui construções de todas as fases da arquitetura da cidade.

No Plano de Revitalização do Setor Histórico de Curitiba, feito pelo IPPUC em 1970, com coordenação do prof.Cyro Correa Lyra, o Belvedere é cautelosamente indicado para sediar um Museu das Etnias do Paraná. Hoje pode parecer pequeno para um museu tão importante, mas é preciso considerar as muito próximas sociedades Garibaldi, Tadeusz Kosciuszko e Concórdia, que favorecem a idéia.

Nesse sentido, a Casa Romário Martins endossa a idéia, em 1976, procedendo ao primeiro levantamento arquitetônico e fotográfico da edificação, encaminhando-o ao Patrimônio Histórico e Artístico do Paraná.

As dificuldades para administrar, manter e utilizar a construção, numa área com problemas de segurança, a levaram a um estado de abandono e risco, em que pesem algumas obras de manutenção esporádicas realizadas.

A partir de 2015, realizam-se no Museu Paranaense, um dos vizinhos mais próximos do Belvedere, reuniões mensais com vários segmentos da sociedade curitibana, para ensejar o restauro e uso da edificação. O movimento, liderado pela profa. Chloris Casagrande Justen e pelo Secretário de Assuntos Estratégicos Flávio Arns, tem tido desempenho apreciável na intenção de resgate.

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6- Uma proposta. Embora essa movimentação procure resultados a curto e médio prazo, e há alguns ganhos perceptíveis no entorno, a situação do Belvedere de Curitiba, no momento deste post, continua uma vergonha para a cidade. Com as explosões de crescimento sucessivas, o monumento é para ser visto na cidade, não mais a cidade vista a partir dele.

A problemática social que impacta todo o bairro São Francisco não tem solução a nível de cidade – embora se possam ganhar amenizantes. Mas por esses, se não forem eficazes, pagaremos o alto preço de perder o que se quer proteger.

Os dois monumentos principais da Praça João Cândido, o Belvedere e as ruínas, foram protegidos por grades que lhes deformam a volumetria pela excessiva proximidade, o conceito e a apreciação. Não evitam a ação de vândalos e pixadores, nem que o avarandado seja usado como dormitório por moradores de rua, que usam as imediações como sanitários.

Não acredito na solução “politicamente correta”, segundo a qual o aumento de circulação de pessoas afasta o problema – todos os lugares em que essa tática foi aplicada, o problema permanece ou foi agravado.

O belo muro de pedras que contém a elevação da praça, parece sugerir que havia a intenção original de contorná-la com um gradil – solução recorrente na época, chamada “jardim inglês”, seja essa denominação adequada ou não. No entanto, desconheço, se é que foi feito, um projeto que confirme ou negue essa idéia. Que terá, evidente, seus questionamentos – mas que, entendo, poderá ajudar a salvar o Belvedere.

Mesmo considerado que venha a ter seu uso intensificado, como é a tendência atual, o gradil criaria uma área um pouco mais protegida, para a população, com ingresso controlado e vigilância permanente. O que deverá necessariamente acontecer, e o gradeamento facilitaria essas ações.

5- Referências bibliográficas.

  • BAHLS, Aparecida Vaz da Silva. Praças de Curitiba. Curitiba, Casa Romário Martins, 2006. (Boletim da CRM, nº 131)
  • CORREA LYRA, Cyro et allii. Espirais do tempo: bens tombados do Paraná. Curitiba, SEC, 2006.
  • CORREA LYRA, Cyro. Guia dos bens tombados: Paraná. Rio de Janeiro, Expressão e Cultura, 1994.
  • CORREA LYRA, Cyro et allii. Plano de revitalização do Setor Histórico de Curitiba. Curitiba, IPPUC, 1970. (xerografado)
  • IMAGUIRE JUNIOR, Key; VALENTINI Jussara & SANTOS, Zilda. Estudo visando à implantação do Museu das Etnias do Paraná. Curitiba, Casa Romário Martins, 1976. (datilografado)
  • MENDONÇA, Maí do Nascimento. Nas ondas do rádio. Curitiba, Casa Romário Martins, 1996. Boletim da CRM, nº 115)
  • VIANNA BAPTISTA, Vera Maria Biscaia. Curitibanos dos Campos Gerais. Curitiba, FCC, 2002.
  • WAL, Danielli & IMAGUIRE JR, Key. O que é morar no São Francisco. Curitiba, Arquibrasil, 2016.

6- Ilustrações

1- Fotografia de 1947, “Ajardinamento da praça”, Arquivo da Disciplina Arquitetura Brasileira da UFPR.

2- Levantamento de 1976, pela Casa Romário Martins

3- Levantamento de 2005, de José Rodrigues Cavalcanti Neto

4- Fotografia de 1915, Key Imaguire Junior

5- Simulação virtual da Praça João Cândido protegida por grades, Rachel Tessari.

 

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