ROSINA na República das Bananas

31 de dezembro de 2016 por keyimaguirejunior

Conheci a arquiteta Rosina Parchen como minha aluna, na primeira turma que ficou o ano letivo inteiro sob minha responsabilidade, no CAU/UFPR. Isso foi meados da década de setenta. Nessa época, as noções de Patrimônio Cultural não eram uma disciplina independente, mas ficavam embutidas na disciplina Arquitetura no Brasil.  E a Rosina era dessas alunas: desde que se apropriam do leque de opções possível para o desempenho dentro da profissão de arquiteto, tinha formulada sua vocação/opção. Não guardei, infelizmente, cópias dos mapas de freqüencia e notas que se usavam então na UFPR – mas nem preciso, para lembrar que foi sempre autora dos melhores trabalhos. Os colegas falavam nas “superproduções da Rosina” – o que significava trabalhos desenvolvidos com extrema dedicação, em apresentações que incluíam música do período. E nessa época, antes do photo-shop e recursos digitais, apresentar um trabalho com música implicava em carregar caixas de som, fazer instalações, e sincronizar com as imagens “na raça”. Depois da formatura, como é normal, perdi um pouco de vista a Rosina – fui ter notícia de seu trabalho de graduação no prestigioso CECRI de Salvador, quando desenvolveu estudo sobre a Fazenda Capão Alto de Castro, ainda hoje “uma pedra em cima do assunto”. Depois, indiretamente, por pessoas da área, notícias de seu desempenho na Coordenadoria do Patrimônio Cultural durante 14 anos e depois na Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico, por 15 anos. E diretamente, nas ocasiões em que estive na Conselho do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Paraná. Nessas ocasiões, pude admirar a competência com que conduzia as espinhosas questões da construção de uma cultura paranaense. As, frequentemente, penosas negociações para fazer aceitar pelo poder econômico, as razões culturais. Choques com o poder imobiliarista e seu servidor, o poder público, a acompanharam sempre. Levou bordoada de todo lado sem merecer, porque seu cargo tem essa conotação de pára-raios – quem faz e desfaz, é o Conselho, cujas decisões ela efetivava com competência e seriedade. Ainda não é possível avaliar a extensão de sua contribuição a partir desses cargos, sempre se apoiando numa equipe eficiente.

O que se pode avaliar sem erro é o vazio que sua ausência provoca e que se manterá por muito tempo, sem sua confiabilidade no cargo. Fomos todos – não só a Rosina – atingidos por um desses atos de prepotência dos políticos no poder, típicos das republiquetas que não se leva a sério, porque sua função no cenário mundial é só fornecer frutas ao Primeiro Mundo. Adiante, a carta que enviei quando soube do que estava acontecendo.

Curitiba, 20 de dezembro de 2016

Amiga Rosina,

pois é, chegou a tua vez. Já vi isso acontecer tantas vezes que nem deveria doer mais – mas dói, e eu diria que até mais pela nossa comunidade – de pessoas nessa luta inglória por dotar a cidade, o estado e o país de uma cultura – do que por você individualmente, que merece largamente a sensação da “missão cumprida”.

Lá nos anos setenta, vi de perto acontecer no IPPUC, onde eu estagiava. A instituição tinha um projeto para a Rodoferroviária – bom, bonito e barato – projeto que interessava a um profissional amigo do então prefeito. No impacto, o diretor foi destituído e colocado um interventor em seu lugar – que fez o planejamento da cidade patinar até o fim da gestão. Não é preciso citar nomes, todos conhecem os protagonistas.

Poucos anos depois, eu estagiava na Coordenação do Patrimônio Cultural – será que sou eu que dou azar?!  –  e nosso mestre Cyro tombou uma importante casa da tradição alemã, na esquina da Mateus Leme com a Inácio Lustosa. A coisa interessava a um amigo do governador, que ilegalmente desfez o tombamento e a casa foi demolida numa noite. E, é claro, o Cyro afastado do cargo.

Com mais ou menos proximidade, vi isso acontecer várias vezes ao longo dessas décadas nas quais acompanhei o esforço de construir um patrimônio cultural representativo do nosso estado. E a cada vez que acontece, lembro uma colocação do prof. Brasil Pinheiro Machado, de quem tive a honra de ser aluno no Mestrado em História do Brasil. É um pouco longa como citação, mas vale a pena:

“O Paraná é um Estado típico desses que não tem um traço que faça dele alguma coisa notável, nem geograficamente como a Amazonia nem pitorescamente como a Bahia ou o Rio Grande do Sul. Sem uma linha vigorosa de história como São Paulo, Minas e Pernambuco, sem uma natureza característica como o Nordeste, sem lendas de primitivismo como Mato Grosso e Goiás. Dentro do Brasil já principiado, o Paraná é um esboço a se iniciar. Falta-lhe o lastro dos séculos. Apesar de ser o estado de futuro mais próximo, forma nessa retaguarda característica de incaracterísticas. (…) eu poderia afirmar sem errar por muito que o paranaense não existe. O paranaense não existe, dentro do contexto brasileiro (…) O Paraná é um estado sem relevo humano. Em toda a história do Paraná, nada houve que realmente impressionasse a nacionalidade. Nenhum movimento com sentido consciente mais ou menos profundo. Nenhum homem de estado. Nenhum sertanista. Nenhum intelectual. Nem ao menos um homem de letras que, saindo dele, representasse o Brasil como o Maranhão teve Gonçalves Dias, a Bahia Castro Alves, o Ceará José de Alencar e Minas Gerais Affonso Arinos, etc. A história e a geografia não tiveram forças bastantes para afirmarem o Estado do Paraná. Ela se resumiu na conquista anônima da terra e na colonização (iniciativa de fora) sobre a selvageria, a semi-civilização ou o deserto. E depois da época dos bandeirantes ela dormiu até a imigração estrangeira. O aspecto geográfico, de pleno acordo com a história é formado de trechos de toda a configuração do Sul do Brasil.”

      O texto é de 1930 e eu ou qualquer pessoa pode refutá-lo com facilidade, provando que, nesses 86 anos, muita água passou por baixo da ponte. E no entanto, ainda soa como dolorosamente verdadeiro: nossa afirmação, com estado, resta por acontecer.

E o pior: talvez jamais aconteça. Cada vez que alguém enfrenta o provincianismo do nosso ambiente com coragem determinação e competência como você fez, leva uma porrada da classe política, à qual a cultura não interessa por perigosa, conscientizadora, construtora da identidade que nos falta. Valem mais os interesses de seus apaniguados e parentes que a nossa presença no contexto nacional.

Como eu dizia no início, nenhuma novidade – nem esse mérito tem a racinha dos políticos.

O percurso que você fez, como coordenadora oficial do patrimônio cultural do estado, em vários momentos custou enfrentamentos com interesses governamentais – nem vou me dar ao trabalho de tentar lembrar quantas vezes, ao saber do que rolava, eu esperei pelo desfecho que as atuais autoridades tiveram a triste coragem de efetuar.Mas você permaneceu – seja pela coragem própria de engolir imensos batráquios, seja pelas circunstâncias que te proporcionaram nossa admiração pela inteligência, competência e diligência com que enfrentou o  “Dragão da Maldade”.

Para concluir, mais uma citação, algo gasta – de um autor um tanto pedante, mas que no caso diz tudo com as palavras certas:

“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver crescer as injustiças, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”

      Também essa citação do Rui Barbosa deve ter quase um século. E isso é o mais humilhante para nós brasileiros em geral, e paranaenses em particular: as duas citações, conquanto antigas, CONTINUAM VERDADEIRAS COMO NO DIA EM QUE FORAM ESCRITAS. Qualquer dúvida, é só ver os acontecimentos que, a partir de ontem, entram no vergonhoso passivo da nossa insipiente cultura paranaense.

De qualquer modo, Rosina, você deixou uma marca indelével que todos nós admiramos e respeitamos. Que os donos do poder não a respeitem, é o que se espera da mediocridade intelectual vigente. Coitado do teu sucessor: é impossível um trabalho mais consistente que o teu.

De minha parte, está ótimo: você vai ter mais tempo para tomar sopa em casa dos amigos.

Grande abraço,

Key

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