O EXEMPLO DA GIBITECA DE CURITIBA

19 de outubro de 2016 por keyimaguirejunior

Este post não comemora aniversários – comemora, antes,  uma trajetória brilhante, exemplar, de um órgão cultural que tem o direito de achar que cumpre com sua missão. Esse direito não é uma anomalia: há muitos órgãos públicos onde se trabalha direitinho, como se deve. Isso à revelia de governos que o negam, como pretexto para arrocho. Mas o desempenho da Gibiteca de Curitiba tem que ser destacado, porque neste momento aproxima-se uma de suas metas principais: inserir os autores brasileiros de quadrinhos, num mercado editorial dominado pelos americanos e seus eficientes syndicates. O outro lado do desempenho da Gibiteca, acontece sem que seja possível mensuração: educar o público para escolher melhor o que lê.

Não vou contar a história da Gibiteca de novo: já fiz isso muitas vezes, inclusive em livro de 2012, facilmente encontrável. No entanto há quem, ainda e de má fé, a entenda como “biblioteca de gibis” – e, precisamente agora, fica evidente que não é só isso. Temos só a  enaltecer o desempenho da Gibiteca!

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     Quando a Gibiteca de Curitiba foi criada, em 1982, na verdade já tinha um percurso de seis anos. Já tinha sua publicação, o Gibitiba. Mas então, para eles, gibi era coisa de criança – e fiquei anos sem aparecer por lá, de raiva. Na cabeça de muita gente que se acha uma sumidade, ainda é. Mas já então, se falava em gibi como uma forma de expressão que combinava literatura com desenho. Foi depois da Gibiteca que universidades criaram disciplinas com a acadêmica ementa de “imagem seqüenciada”; monografias, dissertações e teses com complexidade teórica são elaboradas, discutidas e aprovadas. É até difícil acompanhar toda a discussão que acontece em livros, revistas e jornais.

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Não é preciso nem mesmo advogar o pioneirismo, a nível planetário, isso já cansou e nunca foi contestado. Mas vale citar o exemplo francês. Já nos anos setenta, existiram:

– C.E.L.E.G. (Centre d’Études sur les Litératures d’Expression Graphique). Funcionou em Paris e tinha, entre outros intelectuais de prestígio, Alain Resnais. Editou quatro números da revista Giff-Wiff.

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– S.O.C.E.R.L.I.D. (Socité d’Études et de Recherches sur les Literatures Dessinées). Inaugurou em 1966 o Musée de la Bande Dessinée, e publicou a revista Phenix, que acompanhei até a edição 48.

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Como se percebe, na civilização, Gibi pode ser BD – mas é considerada “literatura gráfica”, coisa que já vi ser negada por aqui. E ambas as sociedades, são dedicadas aos estudos teóricos – acho que seus associados eram acadêmicos. Outros “museus dos quadrinhos” existiram pela Europa – MAS NUNCA UMA INSTITUIÇÃO QUE TIVESSE, COMO FINALIDADE, ATUAR SOBRE O MERCADO EDITORIAL DE QUADRINHOS.

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Observe-se que a idéia de estudar a teoria da literatura gráfica também existia.

A formação e prestigiamento dos autores locais, perseguido insistentemente ao longo dos anos, teve como recursos principais as oficinas, as exposições e os grandes eventos. Tudo o que é feito na e pela Gibiteca, atrai público: as oficinas tornaram-se regulares em vários níveis de complexidade, para dar conta da procura. As exposições contam com procura certa de interessados. Os grandes eventos – Festival do Gibi, Gibicom, Bienal de HQ – só perdem, como quantidade de público, para eventos musicais.

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Os dois primeiros grandes eventos quadrinísticos de Curitiba, sediados na Gibiteca:

1989: Festival do Gibi e 1992, Mostra da Bienal de Quadrinhos do RJ

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Gibicon: mega evento de padrão internacional

 Mas tudo isso, apesar de representar muito culturalmente, não era o pretendido de início: ajudar a criar espaço para autores locais no acanhado mercado editorial. Dá prá sentir, no entanto, que estamos chegando lá: o próximo lançamento de QUARENTA gibis, ao mesmo tempo, é marca que certamente não existe no Brasil e dificilmente existirá em algum lugar do planeta.

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Não estou afirmando que todo esse fervo seja conseqüência da existência da Gibiteca. O mérito é, antes de mais nada, dos artistas autores, que meteram os peitos e foram à luta: uma luta de Davis versus Golias, contra a fortaleza cheia de superpoderes complicados das empresonas americanas. A Gibiteca, simplesmente, fez sua parte: deu apoio, subsidiou, prestigiou. Desde o início, vejam abaixo um lançamento dos tempos (1976) em que ela era apenas uma idéia.

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Quarenta lançamentos simultâneos!!! Desafio qualquer cidade do mundo a demonstrar tanta competência e tanta garra!

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