CONVERSA INTERCONTINENTAL SOBRE ANDREA CAMILLERI – 2

6 de setembro de 2016 por keyimaguirejunior

Omaggio al centesimo libro d’Andrea Camilleri “Laltro capo del filo”

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Key. Você disse que Camilleri era um romancista “literário”. E no entanto, escreve novelas policiais?

Gianni. Na Itália, a novela policial sempre foi literatura popular, “série B”, de importância literária quase nula, tanto que era ignorada pela crítica. Mas nas últimas décadas, as coisas mudaram. Ainda no século passado, alguns escritores “literários” produziram obras que, mesmo baseadas numa estrutura policialesca, na verdade eram janelas autorais abertas para a realidade social do país. Romances como Venere privata e Traditori di tutti, de Giorgio Scerbanenco; Il giorno della civetta ou A ciascuno il suo de Leonardo Sciascia; La donna della domenica de Fruttero e Lucentini; a serie dedicada a Sarti Antonio de Loriano Macchiavelli (e outros) contaram realidades relacionadas – respectivamente – a Milano, à Sicilia, Torino, Bologna (e outras cidades ou regiões). Eram obras que há vários decênios tinham os requisitos para serem consideradas válidas, para todos os efeitos, no plano literário. Mesmo um dos maiores intelectuais mundiais, Umberto Eco com O nome da rosa, romance erudito ambientado na Idade Média – e, depois de 1980, um best-seller a nível planetário. Gradualmente, portanto, a novela policial italiana tornou-se uma avalancha irrefreável, muitos autores superaram a barreira do “romance de gênero” para falar da realidade nacional em nível, decididamente, literário ( muitos deles, foram traduzidos também para outros idiomas). Andrea Camilleri se insere nesta tendência, e as suas novelas policiais com o Comissário Montalbano como protagonista – até agora, 24 livros editados pela Sellerio (ver link) e vários volumes de contos em outros editores – volta e meia estão no topo das listas de mais vendidos, e são sempre narrativas eficientemente inseridas na realidade siciliana em particular, mas também na italiana em geral.

Key.Hai detto che Camilleri un romanziere “letterario”. Come mai scrive gialli?

Gianni.In Italia, il giallo è sempre stato letteratura popolare, “di serie B”, di rilievo letterario quasi nullo, tanto che la critica non se ne occupava. Ma negli ultimi decenni le cose sono cambiate. Già dal secolo scorso, alcuni scrittori “letterari” hanno prodotto opere che, benché impostate su una struttura gialla, in realtà erano finestre autorevolmente aperte sulla realtà sociale del Paese. Romanzi come Venere privata e Traditori di tutti di Giorgio Scerbanenco; Il giorno della civetta o A ciascuno il suo di Leonardo iascia; La donna della domenica di Fruttero e Lucentini; la serie dedicata a Sarti Antonio di Loriano Macchiavelli (e altri) hanno raccontato delle realtà relative – rispettivamente – a Milano, la Sicilia, Torino, Bologna (e altre città o regioni). Erano opere che già vari decenni fa avevano requisiti tali da essere considerate valide a tutti gli effetti sul piano letterario. Addirittura uno dei più grandi intellettuali mondiali, Umberto Eco con Il nome della rosa – romanzo coltissimo ambientato nel Medi Evo – è diventato dal 1980 un best-seller a livello planetario. Gradualmente, dunque, il giallo italiano è diventato una valanga inarrestabile, molti autori hanno superato le barriere del “romanzo di genere” per parlare di tante realtà nazionali a livelli decisamente letterari (e molti di loro sono tradotti anche all’estero).

Andrea Camilleri si è inserito in questa tendenza e i suoi gialli con il Commissario Montalbano come protagonista – finora 24 romanzi editi da Sellerio [v. magari il link che ti manderò] e vari volumi di racconti presso altri editori – balzano ogni volta in testa alle classifiche e sono sempre narrazioni efficacemente inserite nella realtà siciliana in particolare ma anche italiana in generale.

Key.Ho letto che questi romanzi sono scritti in dialetto. Come mai hanno successo a livello nazionale?

Gianni.Questo fatto rimane un po’ un mistero. Però ci sono alcuni ragionevoli spunti di spiegazione. Innanzitutto, le parole usate da Camilleri sono sempre inserite in frasi dal cui contesto è facile dedurre il significato specifico di un vocabolo, sia esso un verbo, un sostantivo, un aggettivo, eccetera. Attraverso questa struttura linguistica i vocaboli restano poi nella memoria del lettore, la cui fatica di comprensione di questa strana “lingua straniera” (il dialetto di Camilleri) sarà via via minore.

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Key. Li que os romances são escritos em dialeto. Como se explica que tenham sucesso a nível nacional?

Gianni. Esse fato permanece um pouco misterioso. Mas há alguns pontos razoáveis para explicação. Antes de mais nada, as palavras usadas por Camilleri são sempre inseridas em frases de cujo contexto é fácil deduzir o significado específico de um vocábulo, seja ele um verbo, um substantivo, um adjetivo, etc. Através dessa estrutura lingüística, as palavras permanecem na memória do leitor, e seu esforço para compreender uma estranha “língua estrangeira” (o dialeto de Camilleri) será cada vez menor.

Key. Mas esse curioso comportamento lingüístico, é suficiente para atrair os leitores?

Gianni. Absolutamente não. A propósito disso, gostaria de contar um episódio. Na minha terra, Monselice perto de Padova, temos uma grande livraria com muitos clientes, os quais, no começo (estou me referindo aos anos noventa do século passado) ficavam um pouco receosos ao comprar esses romances, acreditavam não compreender a linguagem.  Então, em 1999 ou 2000, em acordo com o meu amigo, o livreiro Carlo e com a amiga Emiliana – também apreciadora de Camilleri e conhecedora da língua – compilei um micro-dicionário com termos sicilianos traduzidos em italiano: uma simples página (anexada ao fim da entrevista) a ser oferecida a quem comprasse os romances. Era uma simples brincadeira, mas funcionou. E enviamos esse dicionarinho também ao Camilleri: o qual, nos gratificou com um telefonema à livraria, manifestando seus cumprimentos. Agora, existem vários dicionários oficiais de “camileriano”.

Key. Então, se entendi bem, a boa sorte de Montalbano não depende do dialeto.

Gianni. Certo, você tem razão. Antes de mais nada, é a escrita de Camilleri, que tem excepcional capacidade narrativa, ou seja, uma prosa muito cordial. Entre outras coisas, a empostação geral dos romances tem uma nada desprezível componente humorística e muitas expressões irônicas (Catarella, um dos policiais do Comissariado, é um personagem decididamente humorístico). Depois, temos as histórias narradas por Camilleri: essas, como já dito, são de grande interesse  no aspecto social ou de crônica; e por isso o leitor encontra nos seus romances assuntos do dia-a-dia, o tipo de história narradas cotidianamente na imprensa, no rádio, na televisão. Mas, principalmente cordiais, são os caracteres dos personagens, com componentes complementares ou relevadores. Salvo Montalbano, protagonista absoluto, é um comissário de polícia respeitoso da lei: mas volta e meia, atreve-se a infringi-la, atuando pelas bordas, se lhe parece um meio de fazer justiça. Além do mais, Montalbano tem uma relação de estreita colaboração e verdadeira amizade com o vice-comissário Mimi Augello e com o inspetor Fazio, ainda que, algumas vezes, por vários motivos, os ironiza. E com os seus superiores, particularmente com o prefeito de Montelusa, é formalmente obsequioso e obediente, mas depois se comporta à sua maneira, se lhe parece útil para resolver um caso… Como se compreende, o comissário é um simpático contraventor, um caráter muito tipicamente italiano. Acho que é esse conjunto de elementos que trazem para a série, a simpatia do leitor.

(A propósito do dialeto siciliano, à minha experiência pessoal, parece mais difícil de compreender quando falado: lido, é muito semelhante ao italiano oficial.)

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 A capa que abre este post – do livro “Il gioco della mosca” –  é de uma obra primorosa: Camilleri conta as origens de expressões idiomáticas sicilianas, ilustrando-as com “causos”. E além do mais, foi comprado numa simpática livraria na Via dei Santi Coronati, em Siracusa…

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