REDESCOBRINDO O BRASIL – 2

11 de julho de 2016 por keyimaguirejunior

Ao desembarcar da escuna em Paraty, é preciso mergulhar numas quantas leituras prá começar a entender cá a terrinha.

Gosto de começar pelo Caio Prado Junior (1), que dá uma idéia muito interessante da ocupação territorial como uma mancha que se espalha do litoral para a interior, até tomar todo o país. Na medida em que os ciclos econômicos se sucedem, encaminha-se a dependência e submissão ao capitalismo imperialista: perspectiva marxista, é evidente, mas de uma lucidez inquestionável.

É preciso então umas pinceladas na economia nordestina/açucareira, dela decorre muita coisa. Ninguém melhor que Gilberto Freyre para essa abordagem: leitura prazerosa e esclarecedora, a dificuldade é formatar para aula expositiva. A própria abordagem do autor se faz pela dialética dos espaços da Arquitetura: a Casa Grande e a Senzala, o Sobrado e o Mucambo. No primeiro, assiste-se à formação da família patriarcal nos engenhos; no segundo à sua urbanização e, em “Ordem e Progresso”, a dissolução já sob a República.

Só dá mesmo prá ser enfático quanto à necessidade absoluta de ler a trilogia (2), mas o máximo que se consegue é que alguns leiam a quadrinização (3) – que, embora bem feita, não dá conta do universo freyreano.

Ainda com referência ao açúcar, acho importante falar do “Escravismo Colonial” do Gorender. (4) Claro que é um produto do marxismo dos anos setenta/oitenta, mas também é muito interessante no sentido de apresentar uma abordagem científica e menos literária. E mostrar nuances do escravismo, um dos fatores básicos da formação do Brasil.

Toda a dificuldade em se dar uma aula com os livros do Gilberto Freyre, é facilidade com o Gorender, esquemas visuais são fáceis de montar e explicar.

A mais brilhante “interpretação do Brasil” já feita, resiste há exatos 70 anos como um dos clássicos da nossa historiografia. Não por acaso, quando os estudantes têm que escolher um dos autores para dissertar, via de regra é Sérgio Buarque de Holanda (5). Merece uma olhada mais atenta o capítulo “O semeador e o ladrilhador” – onde o confronto entre o pré-desenho urbano das Ordenações Filipinas e a inexistência do mesmo entre os portugueses, esclarece muito sobre o espaço urbano das antigas cidades brasileiras. Embora se tenha tentado esvaziar as colocações do autor (6), ela sobrevive plenamente em sua lucidez e erudição.

O questionável em SBH não é a questão urbanística, mas a conclusão. “O brasileiro como homem cordial”, não resiste à leitura de um jornal contemporâneo.

Essas são, no meu entender, as quatro “interpretações clássicas”, que ajudam a explicar o país como um todo – e é apenas evidente que não dão conta dos 500 e tantos anos vividos.

Há pelo menos duas outras, boas para confrontar, completar e enriquecer as anteriores. A bem da verdade, o sensato é montar todas elas numa estrutura geral e ir buscando reforços nas articulações. Mais do que exercícios teóricos de dialética histórica, as comparações ajudam a pensar uma complexidade histórica cheia de contradições.

Jacques Lambert (7) pensa a América Latina em suas três regiões: andina, platina e brasileira. Nas duas colonizações, espanhola e portuguesa: “dois gigantes, de costas um para o outro”. Nas duas faces da civilização brasileira: a rural como arcaica e a urbana como moderna.

Vianna Moog tenta responder à questão colocada nas primeiras linhas de seu livro (8):

“… como foi possível aos Estados Unidos, país mais novo que o Brasil, e menor superfície continental contínua, realizar o progresso quase milagroso que realizaram e chegar aos nossos dias, à vanguarda das nações, com a prodigiosa realidade do presente, sob muito aspectos a mais estupenda e prodigiosa realidade de todos os tempos, quando o nosso país, com mais de um século de antecedência histórica, ainda se apresenta, mesmo à luz das interpretações e das profecias mais otimistas, apenas como o incerto país do futuro?”

     Boa pergunta, né?! Não acho que fique respondida no livro do autor, mas a discussão é interessante e esclarecedora.

Já me preocupei em procurar “leituras” mais recentes da História do Brasil, mas nenhuma me pareceu ter a riqueza das mencionadas. São antigonas – o que estava acontecendo nos anos trinta do século passado, turbulências políticas generalizadas, explica a preocupação em entender o país? Então estamos no clima para buscar por novas, que assimilem as existentes e levem a discussão adiante.

Mas acho cenário suficiente para colocar, no palco diante dele, as ocorrências arquitetônicas brasileiras.

GOMM 030003

 REFERÊNCIAS

1 – PRADO JUNIOR, Caio. História Econômica do Brasil. São Paulo, Brasiliense, 1945.

2 – FREYRE, Gilberto.Casa Grande & Senzala (1ªedição 1934)

Sobrados & Mucambos (1ªedição 1936)

Ordem & Progresso (1ªedição 1959)

Minhas edições são do José Olympio, anos sessenta.

3 – FREYRE, Gilberto & WASTH RODRIGUES, Ivan. Casa Grande e Senzala em quadrinhos. Rio de Janeiro, EBAL, 1981.

4 – GORENDER, Jacob. O Escravismo Colonial. São Paulo, Ática, 1978.

5 – BUARQUE DE HOLANDA, Sérgio. Raízes do Brasil. Brasília, Editora da UB, 1963.

6 – MARX DELSON, Roberta. Novas Vilas para o Brasil Colônia. Brasilia, Alva/Ciord, 1979.

7 – LAMBERT, Jacques. Os dois brasis. São Paulo, Cia.Editora Nacional, 1973. Coleção Brasiliana.

Não localizei a data da primeira edição.

8 – MOOG, Vianna. Bandeirantes e Pioneiros. Porto Alegre, Globo, 1973. (Primeira edição 1955)

 

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: