REDESCOBRINDO O BRASIL – 1

1 de julho de 2016 por keyimaguirejunior

(Essa era a minha primeira aula – devidamente adaptada para este blog – de História da Arquitetura Brasileira. Trata-se da parte, digamos, prática, introdutória das 120 horas que se seguiriam. A segunda parte, teórica, fica para um dos próximos posts.)

Uma das ações indispensáveis para entender este país – no que ele tenha de bom e de ruim – é chegar a Paraty, entrar na baía, vindo pelo mar.

006

     Não é necessário equipamento especial, nem caravela – é suficiente um passeio de escuna, do tipo que é ofertado aos turistas e viajantes a trouxe-mouxe. A opção mais conhecida é um percurso por praias – essa obcecação brasileira. O interessante é que, nos recortes do litoral, num dado momento, perde-se de vista a percepção da presença humana – ficam só o mar, a vegetação e o céu. Muito bonito, se não houver um desses insuportáveis “animadores” ou “guias” atormentando as pessoas com sua vulgaridade loquaz. A sensação da navegação é prazerosa, e mais ainda, se escuna estiver sendo impulsionada pelas velas e não pelo motor. Tipo caravela mesmo, né?

As aves marinhas dão aquele toque à Pero Vaz de Caminha: “…e na quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves, a que chamam ‘fura-buchos’. E neste dia, à hora de véspera, houvemos vista de terra…”

     Mas à parte do estiloso escriba, onde quero chegar é no avistamento, na volta a Paraty: demora um pouco a comparecer no horizonte, anoitece e, enquanto isso, é só céu, mar e mato prá todo lado.

Contornando o volume de uma ilha, surge a baía, com a Serra do Mar ao fundo – essa que querem acabar, enchendo de rodovias – talvez com nuvens subindo em direção ao planalto. O que se pensava, há cinco séculos, desse panorama? Os marinheiros, pelo menos, acreditavam que além da serra era o fim do mundo, um barranco no fundo do qual rosnavam dragões impensáveis. E mais depois ainda, o Vazio, o Nada, uma queda infinita para o Desconhecido…

Os mais esclarecidos, já acreditando no planeta esférico, desconfiavam que, para além das montanhas, poderia haver imensas riquezas, custodiadas por selvagens ferozes e antropófagos, animais monstruosos e doenças desconhecidas.

Mais um trecho navegado e começam a surgir as torres e os frontões brancos das igrejas, as casas,as velas de outras embarcações…

009

     Nós vemos ali apenas o fim do passeio, a perspectiva de uma bela moqueca de peixe no jantar, acompanhada por uma caipirinha feita com a famosa cachaça local, um passeio pelas ruas antigas, de preferência com maré alta e lua cheia, as fachadas refletidas nas poças dágua das ruas…

Mas nossos antigos colonizadores, mais do que a libertação dos poucos metros quadrados do convés do navio, viam a aventura de subir a serra nos dias seguintes, para conferir se realmente o mundo acabava ou se lá estava, reluzente e na espera deles, o Eldorado…

(Fotos da Viagem de Arquitetura Brasileira de 1983)

 

 

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: