PONTES COBERTAS DO “VALE EUROPEU” DE SANTA CATARINA”

3 de junho de 2016 por keyimaguirejunior

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Minha primeira lembrança de uma ponte coberta é de, aproximadamente, 1965 ou pouco mais. Havia um problema na BR – prá variar –  e o trânsito de carros foi desviado para a tradicional Dona Francisca. Numa curva de planície, novamente havia obstrução: um caminhão, ao tentar passar por uma ponte coberta, enroscou a carga na tesoura, ficando entalado. A solução encontrada foi serrar as peças da tesoura, para que o caminhão pudesse dar marcha à ré. Demorou um pouco, mas depois foi possível seguir viagem para Armação de Itapocorói. O incidente aconteceu à noite – felizmente de bom tempo, inclusive com luar sobre as plantações de arroz…

Depois dessa viagem, raramente passei por lá – e quando o fiz, a ponte não era mais identificável. Acredito que, com a tecnologia do concreto, as coberturas deixaram de ser necessárias e tenham sido removidas – restaram apenas umas poucas, em estradas secundárias, onde não acredito que haja tráfego de caminhões. É preciso um guia conhecedor das localizações para encontrá-las. Juntamente com as casas de enxaimel, a culinária e a magnífica paisagem, justificam plenamente uma valorização turística, com sinalização e presença em mapas.

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     É interessante observar como algumas comunidades estão usando essas pontes, de pouco ou nenhum tráfego: pudemos observar a colocação de mesinhas com bancos, grelhas para churrasco, lixeiras e instalações sanitárias. E até mesmo, românticos bancos nas proximidades, para contemplação da paisagem que inclui as pontes. No entanto, moradores nos deram depoimentos de que o equipamento não pode ser utilizado, dada a presença de drogados e bêbados, vindos das cidades mais próximas. É pena: no pacto neoliberal de tolerância da criminalidade, perde-se uma iniciativa cultural importante, originada nas pequenas comunidades e suas prefeituras. Que, vistas num contexto mais amplo, podem representar uma significativa participação econômica.

As pontes visitadas – amostragem de seis, de um número que pode chegar ao triplo disso – vencem vãos pequenos, numa avaliação a olho, entre trinta e cinqüenta metros. São resolvidas em madeira, com as bases em pedra. As coberturas, que já foram em palha, atualmente são em fibro-cimento. Numa região em que ainda há predomínio de telhas planas nas casas mais antigas, não é demais supor que algumas pontes tenham sido cobertas com elas.A presença do metal se dá em pequenas peças, ligando elementos estruturais de madeira. Estruturalmente, baseiam-se na aplicação básica do triângulo de forças – com maior ou menor conhecimento de causa por parte do construtor, talvez do quadro do departamento estadual de estradas de rodagem.

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Foram lançadas sobre rios “de serra”, pedregosos e velozes, de água aparentemente limpa. Todas têm uma vegetação de entorno que funciona como moldura, em alguns casos árvores antigas que remetem ao caráter de patrimônio cultural das pontes.

A moldura mais ampla, de pequenos morros e serras, também compõem uma paisagem de que participam pequenas igrejas comunitárias, com torres que emergem da vegetação. As casas e capelas de enxaimel, muitas em deplorável estado de abandono; construções rurais como estábulos, galpões e celeiros – tudo é caracterizadamente regional, sem similar no Brasil. Pequenos museus – na verdade, coleções de equipamento agrícola primitivo, já somados com uma “antiga modernidade” – dão conta de uma vida em desaparição. Ou desaparecida, nas águas da mecanização.

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     As pontes visitadas, no início de maio do corrente ano, com o dr.Mario Luis Nogarolli de cicerone, foram: Tercílio Bilau (na Estrada Bonita, restaurada), sobre o Rio dos Cedros, sobre o Rio Esperança, sobre o Rio Ada, sobre o Ribeirão do Encano e Varo (Indaial).

O interesse dessas pontes pede por um livro com levantamentos arquitetônicos, de fotos antigas, de projetos, de documentos, e o mais que houver. Na minha bibliografia, não encontrei referências a elas.

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