O GRALHA E EU

16 de maio de 2016 por keyimaguirejunior

ENTREVISTADORA     – Vamos aproveitar que você está contente com a volta da Gibiteca ao seu lugar de direito, e registrar algumas coisas sem o tradicional pessimismo.

KEY – É, a Gibiteca nunca deveria ter saído de lá, menos mal que voltou.

E – Você sempre trabalhou, na academia e fora dela, com o patrimônio arquitetônico de Curitiba e do Paraná. O quê significa a Casa da Baronesa dentro disso?

K – Resumindo, todo o conjunto do Solar do Barão é muito interessante. O edifício central, maiorzão, foi construído pelo Ildefonso Pereira Correa, um dos primeiros “barões da erva-mate”, o Barão do Cerro Azul. Acho que foi em 1895, ele foi o primeiro grande ervateiro, e a construção palaciana mostra isso. Dentro da truculência com que a República foi instalada no país, o Barão foi assassinado por suposta simpatia à Monarquia. A Baronesa manda fazer então a construção paralela, menor, para morar. É casa de um ecletismo evidente, mais bonita e homogênea que a construção principal, ampliada várias vezes. Posteriormente o Exército adquire o conjunto e constrói a terceira ala, em arquitetura mais contida, já quase moderna, ou tendendo a isso. Não tenho a data na memória.

E – E depois?

K – Depois, o conjunto deixa de ser conveniente ao Exército, por motivos táticos e logísticos, no centro da cidade e em construção antiga. No fim dos anos setenta, eles já estão instalados em outro lugar e cogita-se no uso cultural do conjunto. Fui visitá-lo com a Lidia Bindo e minha dúvida era se a Prefeitura faria o investimento necessário para viabilizar a refuncionalização. Mas foi feito, segundo projeto do prof.Cyro Correa Lyra.

E – A Gibiteca já era prevista?

K – A idéia da Lidia era um Museu Nacional das Artes Gráficas – contendo o Museu do Cartaz, a Casa da Gravura, a Gibiteca e mais coisas, inclusive espaço para a fotografia a ilustração publicitária.

E – E por quê não aconteceu?

K – Mas aconteceu, sim, é o que está lá. A Gravura está lá, o Museu do Cartaz apesar de meio anêmico também está. A Gibiteca já existia na Shaffer e crescia tanto que ou se mudava ou tomaria conta do prédio todo: mudou em 1989, veio para a Casa da Baronesa com armas e bagagens. Para marcar a mudança, fizemos o Festival do Gibi, que foi muito bom. Não dá prá esquecer a data: foi no dia em que o sacana do Leminski inventou de ir pro andar de cima e ficamos sem mídia. Mas mesmo assim foi um grande evento, todas as ações com muita gente, a Gibiteca já tinha seu público fiel. Muito depois, veio o Museu da Fotografia, que já tinha sido cogitado pela Lidia.

E – Começa então a grande fase…

K – Na verdade, continua aí, em instalações adequadas. O Edson Bueno já começara a entender o conceito original da coisa, ao contrário do que acontecia até mesmo dentro da FCC, onde se pensava a Gibiteca como biblioteca de gibis e, pior ainda, espaço infantil, extensão do Bondinho, estacionamento de crianças.

E – Então, antes de continuar a história, diz aí qual é esse “conceito original”.

K – Olha, já contei tantas vezes, que está todo mundo de saco cheio de escutar. Mas como ainda há quem ache que é um espaço de leitura, biblioteca de gibis, vamos lá. Participando da Casa de Tolerância do Cortiano, percebi que os quadrinistas precisavam de um espaço para se reunir – prá fazer revista, conversar, ter e dar oficinas, fazer exposições. Um pouco disso acontecia na Casa Romário Martins, onde rolava o programa Gibitiba, mas eu achava  insuficiente. O lugar poderia ter também um acervo, para que nem todos tivessem que comprar todos os gibis, e pudesse haver trocas. Essa questão do acervo acabou tomando conta da idéia, por analogia com a palavra “biblioteca”. Mas isso é preguiça de pensar, uma biblioteca também não se restringe a um acervo disponível. Uma boa biblioteca possui múltiplas funções, é uma potência no ambiente cultural – a Biblioteca Pública do Paraná, nos anos sessenta, era assim, nada passiva.

E – Mas daí a ser a primeira do planeta, como você diz…

K – Digo, mato a cobra e mostro o pau! O objetivo da Gibiteca, explícito e publicado, era atuar em duas direções: primeiro, ajudar a formar autores, prestigiá-los em sua formação e desenvolvimento no sentido da profissionalização. Segundo, formar leitores: educá-los para ler e comprar gibis conscientemente, exigindo qualidade como se exige com a literatura. É nesse sentido que afirmo ser a primeira do mundo – e, veja bem, ninguém ainda questionou isso. O Cortiano, em viagem pelo Canadá, falou dela ao Robert Lapalme, coordenador do Salon International de La Caricature, o mais importante que já existiu. O canadense veio até aqui, conversou comigo e depois, quando a Gibiteca já existia como instituição, me convidou para o júri do 25º Salon. Numa reunião de apresentação dos membros do júri, com imprensa e o Will Eisner presentes, ele perguntou se alguém conhecia uma instituição semelhante em algum lugar. Houve unanimidade: existiam bibliotecas de gibis, museus de acervos, sociedades de estudos, festivais – mas nada com as nossas duas finalidades explícitas: formar autores e educar leitores.

E – Voltemos à história…

K – Estávamos no Festival do Gibi de 1989, né? Bem, com boas instalações, boa coordenadora – a Márcia Squibba era ativa e consciente dos objetivos da instituição – a Gibiteca foi exemplo, e volta e meia se ouvia falar na “inauguração da primeira gibiteca brasileira” em Sanpa, Belzonte e outras capitais. Isso era porque se conhecia  trabalho feito aqui e se tentava abiscoitar o pioneirismo curitibano.

E – Tinha projetos para outros lugares…

K – Eu participei de vários. Fiz a ambientação da salinha na Schaffer, fiz um projeto na Casa Vermelha, o Domingos Bongestabs fez um projeto grandioso para o terreno onde hoje é a Rua 24 Horas… aqui na Casa da Baronesa nem precisou projeto, o espaço era tão adequado que foi só trazer o acervo. Como orientador de Trabalhos de Conclusão de Curso no CAU da UFPR, discuti propostas de vários orientados para novas instalações da Gibiteca. Eles, como eu, não se conformavam de vê-la relegada a uma garagem.

E – Mas nem tudo são rosas, teve fase difícil…

K – Teve, sim. Não dá prá esquecer que ela é uma unidade da FCC, que é da Prefeitura e como tal sujeita a variações políticas, vaidades internas, interesses profissionais da diretoria – e, como em toda parte, o que prevalece nem sempre é o que interessa à instituição. Prevalecem interesses políticos, de áreas culturais – até certo ponto, acho isso natural e aceitável, desde que não haja prejuízo de coisas que funcionam bem. E a Gibiteca sempre funcionou bem, muito melhor que qualquer outra unidade da FCC. É a mais forte e atuante, cumpre suas finalidades com brilhantismo. Você viu agora na “volta prá casa”: que outra unidade cultural consegue o nosso público? Nem precisa dar almoço, diária e ônibus, como é prática corrente no país…

E – Mas a popularidade não é tudo…

K – Não, mas no caso é importante: você tem coisas que interessam a meia dúzia de pessoas – o que a Gibiteca faz, mesmo quando a mídia considera secundário, tem presença e reconhecimento, ela funciona com seu próprio prestígio. Veja a Gibicon: é a maioridade, a maturidade  da cidade como um todo. Talvez ele pudesse acontecer sem a presença da Gibiteca – mas a sua presença pavimenta os caminhos. É o único evento capaz de encher, movimentar uma estrutura enorme como o MUMA, lá longe… na última, vi gente chegando de taxi direto do aeroporto, para os eventos.

E – Parece que vai virar Bienal…

K – O nome é indiferente, inclusive já pensamos em usar em 1989. A periodicidade bienal talvez convenha a uma época de crise – normalmente já é difícil achar investimentos em cultura, no fundo do poço então, nem se fala… Nas nossas cabecinhas terceiro-mundistas, cultura é o supérfluo.

E – Você diz que a Gibicon é a maioridade de Curitiba para eventos culturais, mas acontece uma vez a cada ano ou dois anos. E o resto do tempo?

K – Pois o resto do tempo é melhor ainda, é a parte submersa do iceberg. O pessoal que partiu da Gibiteca prá fazer gibi, fez isso muito bem. Duvido que outra cidade brasileira tenha isso: eles criaram personagens curitibanos, usam Curitiba como cenário, lendas urbanas locais para contar histórias. E publicam tudo isso bem feito, com dignidade. Veja, eu implicava com o formatinho da Grafipar – tanto que nem guardei os gibis que comprei naqueles tempos. Desenhistas do calibre do Colin, do Seto e outros, naquele formato, é uma chatice, eu não tenho bons olhos, era difícil até de ler. Mas o pessoal atual faz álbuns bem feitos, dá gosto de guardar para um dia reler.

PLISSADA (6)

A entrevistadora, em cosplay de Gralhete, faz uma pausa instrutiva na gibiteca pessoal do Seu Onório Chaves.

E – Como o Gralha entra nessa história?!

K – Bem, como historiador, sempre fui chegado a desencavar antigos materiais. Achei por aí coisas interessantíssimas produzidas nas primeiras décadas do século XX, e até mesmo de fins do XIX. Coisas do arco da velha, literalmente. Tá tudo no livro sobre a Gibiteca, que o Nira me obrigou a fazer e foi lançado na Gibicon de 2012. Então, quando um deles me perguntou se eu conhecia o Gralha, de um tal Iwerten, embatuquei: nem o personagem, nem o autor; e, mais estranho, nenhuma referência, nunca ninguém me falara disso. O autor teria migrado para o norte do país levando o único exemplar conhecido – parece lenda urbana, o que de fato é. Mas os sacanas não me contaram que era apronto, me deixando na curiosidade…

E – E aí chega o Onório Chaves – foi tua primeira experiência como personagem de gibi?

K – Sim e não. Não porque lá nos anos sessenta, o filho de um amigo italiano, Luca Brunoro, publicou um pequeno álbum e deu meu nome ao personagem – “Key Tramp”. Um aventureiro meio riponga, nada a ver comigo. Já o Onório Chaves, sou eu com pseudônimo…

E – … e que tal?

K – Claro que eu gosto, né? À parte do ego, acho o personagem compatível comigo. Se o Eder me fizesse usando malha de lycra, pulando entre terraços de edifícios, com a capa molhada pela chuva curitibana, ficaria esquisito… mas do jeito como foi feito até agora, seu Onório é uma figura entre paternal e patriarcal para um personagem meio porra louca como o Gralha.

E – Mas você não gosta de super-heróis, isso é público e notório.

K – Não gosto na formulação americanosa, dos personagens prepotentes, tapados, raramente interessantes. Eu os leio só prá poder falar mal… O Gralha é muito melhor, como personagem, que o Superhomem e seus colegas. Ele ironiza os personagens americanos que respondem às suas fantasias megalômanas de donos do mundo, contribuindo na construção de uma ideologia perversa.

E – E já que chegamos ao Onório Chaves, vamos parar, ou você quer acrescentar alguma coisa?

K – Bem, prá quem não gosta de falar, eu falo um bocado… Mas eu gostaria de deixar a observação de que tenho medo nas citações de nomes. Não dos que eu cito, mas do que esqueço de citar. Veja, aí na história da Gibiteca, faltou dizer que o cara mais importante foi o Aramis Milarch, ele é que levou a idéia ao prefeito e viabilizou a coisa. Na questão da Bienal de HQ de 1989, lembro das reuniões da comissão, que tinha o Rodrigo, o Guinski (que fez o cartaz), o Seto, eu e a Lidia. E assim por diante – quando fiz o livro da Gibiteca, tinha insônias pensando num método para citar todo o pessoal, e devo ter deixado muita gente de fora… Agora, na “volta prá casa”, eu sei que, além do novo coordenador Fúlvio, no qual ponho muita fé, teve outros articuladores. Embora minhas relações com o poder sejam as piores possíveis, tenho que reconhecer que aqui aconteceu algo altamente positivo para a cidade, por parte da Prefeitura e da FCC…

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Seu Onório no álbum da Via Lettera, 2001 e no álbum dos autores, de 2014

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