OS PROFETAS, NA ANTIGUIDADE E NAS MINAS GERAIS

1 de abril de 2016 por keyimaguirejunior

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JEREMIAS E EZEQUIEL

1 – Os profetas hebraicos

         Os profetas são tão antigos quanto os deuses – para um bicho como o ser humano, que não se sente seguro em relação ao que virá, um mínimo de antevisão já é interessante. Ainda que com escassa margem de acertos…

A mais antiga notícia que localizei diz respeito à civilização faraônica egípcia: durante o culto de Ápis, jovens entravam em transe e profetizavam o futuro. No entanto, antes de migrar para o Egito, os hebreus de Abraão teriam conhecido o profetismo na Mesopotâmia.

Encerrado o período de servidão no Egito com o Êxodo, conquistam a região às margens do Jordão aí por 1200 AC. Conquista em que populações eram exterminadas no sentido pleno da palavra: jovens, mulheres, velhos, crianças e até mesmo animais e árvores eram massacrados com ferocidade de que só os humanos são capazes. Entendamos: era preciso exterminar o culto dos deuses dessas populações para impor um novo. Consolidada a conquista e estabelecidas as tribos, há um crescimento – suponho que baseado em alguma prosperidade econômica – ao longo do período dos Juízes até os Reis. O apogeu, bem claramente, se dá sob Salomão. Após seu reinado, as contínuas cisões debilitam o poderoso reino – que os herdeiros dividem em Judá ao sul e Israel ao norte –  e depois guerreiam entre si e com vizinhos até enfraquecer e acontecer a conquista por Nabucodonosor. Este exila a parte mais importante da população para Babilônia – estamos em 600 AC – deixando apenas um “resto” para habitar as ruínas de Jerusalém.

Essa é a época dos profetas bíblicos: textos de lamúrias, lamentações, sentimentos de culpa, queixas, ameaças ao povo infiel – sente-se que os cultos dos vencidos na conquista do território permearam a população hebraica e  a esses cultos é atribuída a decadência. A época profética continua mesmo depois que Ciro, em 538 AC, liberta os hebreus, permite que voltem e reconstruam seu templo.

Mas o antigo poderio jamais será restaurado: na primeira metade do terceiro século AC, Alexandre da Macedônia conquista todo o mundo conhecido, e o domínio grego se estenderá por quase três séculos, até a ascensão e expansão do Império Romano.

Estão próximos os tempos do Novo Testamento…

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2 – Os profetas mineiros

“Quando a sede de ouro é sem cura
e, por ela subjugados,
os homens matam-se e morrem,
ficam mortos – mas não fartos”
(Cecília Meireles – “Romanceiro da Inconfidência”)

Em nenhum dos posts que pretendo colocar sobre o Barroco Mineiro, farei a biografia de Antonio Francisco Lisboa. A quem interessar possa, ficam as bibliografias – com as quais os estudiosos poderão ir fundo com proveito e prazer.

Mas, contextualizar é preciso.

A ocupação portuguesa, por uns dois séculos, é litorânea. Somente com o episódio das bandeiras há um expressivo avanço sobre os vastos interiores: o próprio território mineiro, até fins do século XVI, tem como população apenas tribos indígenas nômades. Achado o ouro, no período quase exato de cem anos, cresce até se tornar a região mais densamente ocupada da Colônia. Das “poucas tribos nômades”, a população chega a 430 mil habitantes – vindos de todas as regiões do país e de Portugal. Vila Rica do Ouro Preto a centraliza, contando a comarca 73.000 habitantes – facilmente, a maior cidade do continente americano e uma das maiores do planeta.

De quase nula, a produção aurífera tem seu pico em 1759, com quase trezentas toneladas. Para despencar, em seguida, com a mesma velocidade: nos primeiros anos do XIX, a produção equivale à de um século antes: quase nada.

Os quintos da metrópole eram esbanjados em farras pelos reis D.João V e D.José I, indo posteriormente para as reservas inglesas, à custa de tratados econômicos desastrosos.

O ocaso das minas enseja o primeiro movimento separatista – mas em seu apogeu, a maior cultura pós-colombiana das Américas. É designada, genericamente, por Barroco Mineiro: a semente européia, adubada pela riqueza do ouro, florescerá em manifestações originais na arte, na arquitetura, na escultura, na literatura.

E, se Antonio Francisco Lisboa foi um de muitos grandes artistas, não cabe dúvida que tenha sido, quantitativa e qualitativamente, o mais importante.

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AMÓS E BARUQUE

3 – Profetas e profecias

Embora eu particularmente tenha um xodó pela NS Carmo de Ouro Preto; e por unanimidade a São Francisco da mesma cidade seja considerada sua obra-prima; a Bom Jesus de Congonhas do Campo é a obra mais conhecida e cultuada de Antonio Francisco Lisboa. Menos pela igreja em si, que pelo conjunto dos Passos e, principalmente, do adro. Seja pelo conjunto arquitetônico – incluindo igreja, passos, adro, museu do ex-voto, albergue de romeiros – como pelo entorno paisagístico. É imprescindível manter a horizontalidade de Congonhas do Campo. Qualquer comprometimento, por exemplo, entre o Santuário e NS da Conceição, na colina fronteira, será um estorvo imperdoável.

Quando, pela primeira vez, fui dar a aula sobre Barroco Mineiro no CAU/UFPR, o prof. Cyro me recomendou:

_ De preferência, faça referência sempre a Antonio Francisco Lisboa. Quando se fala em Aleijadinho, se passa a impressão de que o cara era um artesão de feira, um primitivo…

À época, eu conhecia muito superficialmente as esculturas dos Profetas – depois de uma boa olhada, é impossível não entender o conjunto como inserido nas fases mais avançadas do Barroco como um todo. Qualquer dúvida é ler o erudito Lourival Gomes Machado, em especial “Influência de Lorenzo Ghiberti na obra de Antonio Francisco Lisboa”.

O Adro dos Profetas é desses lugares que se pode admirar por longas horas muitas vezes – sempre haverá ângulos, detalhes, interações a se descobrir. Não consigo deixar de imaginar a figura tosca do artista, seguido de seus poucos escravos, a doença já avançada, se movimentando entre as figuras – prá ele, gigantescas – sob o brilho do céu das Minas Gerais. Algumas esculturas são monolíticas – mas as que não são, devem ter custado algum engenho e suor para terem seus blocos sobrepostos.

Poderosas figuras, concepções para uma pedra que, mesmo por ser doce ao talho, não permite liberdades como o mármore. Até que ponto toda a obra de AFL é condicionada pela consistência da pedra-sabão, é de se investigar.

A Inconfidência Mineira é de 1788 – portanto, em plena decadência da mineração, a população apavorada pela tenebrosa derrama, cobrança dos quintos atrasados. Não é adivinhação entender que a obra dos Profetas, iniciada em 1800, tem pesada carga dos acontecimentos. Embora, ao que eu saiba, não se tenha encontrado registro documental atestando relações de amizade entre AFL e os Inconfidentes, não pode haver dúvida que viveram o clima político da repressão da malograda Libertas quae será tamen”. Mesmo porque havia padres entre os revoltosos e a Igreja era a mais importante contratante do artista.

Esses são os Profetas de Antonio Francisco Lisboa: olhares de perplexidade, de apreensão, de indagação aos céus – quando não, gestos de ameaça aos poderosos do mundo. Como disse Bretas, “Tanta miséria ousando aliar-se a tanta poesia!”

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 JONAS E OSÉIAS

 4 – As fotos

Fiz essas fotos na Viagem de Arquitetura Brasileira de 2002. Usei filme ASA 120, puxado na revelação para ASA 400, para obter o efeito dramatizante dos brilhos e sombras reforçados. Os negativos foram escaneados agora, 14 anos depois, pela Marialba – especialmente para este post, o 250º do Keynews.

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DANIEL E NAUM

5 – Algumas leituras

ALMEIDA BARBOSA, Waldemar. O Aleijadinho de Vila Rica. Belo Horizonte, Itatiaia, 1984.

Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Rio de Janeiro, Publicações da DPHAN, nº 15, 1951.

– BAZIN, Germain. O Aleijadinho. Rio de Janeiro, Record, 1971.

BIBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo, Paulinas, 1991.

BIBLIA SACRA VULGATA. Stuttgart, Deutsche Bibelgeselschaft, 1994.

– DANTAS, Julio. O amor em Portugal no século XVIII. Porto, Lelo & Irmão, 1917.

– MACHADO, Lourival Gomes. Barroco Mineiro. São Paulo, Perspectiva, 1969.

– MANN, Graciela e Hans. Os doze profetas do Aleijadinho. São Paulo, CEN/USP, 1973.

Ouro. Belo Horizonte, Metamig, 1981.

– PRADO JUNIOR, Caio. História econômica do Brasil. São Paulo, Brasiliense, 1970.

– RIBEIRO DE OLIVEIRA, Myriam Andrade. Aleijadinho, passos e profetas. Belo Horizonte, Itatiaia, 2002.

– SELLIN-FOHRER. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo, Paulinas, 1972. 2 volumes.

– SIMONSEN, Roberto. História Econômica do Brasil. São Paulo, Cia Editora Nacional, 1978.

– TEIXEIRA DE SALES, Fritz. Vila Rica do Pilar. Belo Horizonte, Itatiaia, 1984.

– VASCONCELLOS, Sylvio de. Vida e obra de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. São Paulo, Cia Editora Nacional, 1979.

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ABDIAS E JOEL

O adro de Congonhas do Campo:

GOMM 030001

 

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MARIALBA

 

 

 

 

 

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