A PIXAÇÃO ACEITÁVEL

10 de março de 2016 por keyimaguirejunior

A liberdade, existe ou não existe – não há algo como “um pouco de liberdade” ou “liberdade com restrições”. Mas no Brasil, onde há uma situação absurda de falta de educação – e de civilidade, é claro – não se pode aceitar menos que “tolerância zero”, ausência total de liberdade, em alguns aspectos. Um deles é o vandalismo, a agressão ao patrimônio público, à cidade e à sociedade. E pixação é vandalismo.

A pixação sempre existiu – já li que arqueólogos as encontram, feitas há milhares de anos, com o mesmo espírito contestador e anárquico das atuais. E até os anos oitenta do século passado, era uma situação tolerável, praticada não com “moderação “ ou “bom senso”, critérios melífluos, mas com propriedade e respeito. A contestação e a reflexão se dava pelo conteúdo, não pela agressiva sujidade. Eram mensagens de quem tinha algo a dizer – não a atual situação de esporro, baderna e porra-louquice.  Mas não é necessário nem mesmo o emporcalhamento das cidades para condenar a prática: basta atentar para como se tornou um meio de comunicação da bandidagem. Nas barbas das autoridades – que, não a reprimindo, tornam-se coniventes e estimuladoras.

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     No início dos anos oitenta, fizemos um levantamento das pixações pela cidade. Nada de muito científico, apenas anotamos o que víamos no trajeto dos nossos ônibus. Eram frases poéticas, contestatórias, filosóficas, amorosas – tudo enfim o que dá prá lançar a um público genérico. (1)

E tudo isso era feito em tapumes, velhos muros de terrenos vazios ou edificações abandonadas – não caracterizando agressão pela imundificação de ruas e praças.

Os extremos de ousadia a que chegam os pixadores – que se acham donos da cidade, o quê, com conivência de prefeitura e autoridades são mesmo – revelam o mau caráter dessa prática.

Mais uma vez: pixação é vandalismo e crime. Tolerância zero é a única saída capaz de controlar a situação a que nos levou a pusilanimidade e a impunibilidade praticada pelos políticos que mandam, legislam e fecham os olhos. Eles são os ditos “autores intelectuais”, os mandantes desse crime.

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As pixações deste post são, por mais de uma razão, aceitáveis – sendo a principal, a não-agressividade visual.

São feitas com estênceis – um papelão no qual as formas são recortadas, com a passada da tinta – spray ou rolo – deixam o desenho impresso na parede. Recurso muito antigo e que permite ricas formulações. Um exemplo é a decoração do interior das igrejas ucranianas. (2) Mas no período eclético usou-se muito na decoração de interiores, inclusive residenciais. Muita estamparia em tecido, inclusive os celebrados padrões dos quimonos japoneses, usaram e usam essa técnica, considerada como arte e patrimônio cultural.

Outra razão para sua aceitabilidade é não serem anti-sociais. São, sempre, de pequenas dimensões e aplicadas a lugares onde não ofendem, podendo ser toleradas ou facilmente apagadas.

E o argumento final a favor dessas pixações é que dificilmente será comunicação entre marginais. Na verdade, a maioria é até infantil, tirada de gibis: Superpateta, Frankenstein, Fradim, Batman…

Há as excelentes poesias de Ione França, gráfica como literariamente primorosas. Não sei de quem é a “Cobra Coralina”, mas se eu fosse dar um prêmio a uma pixação, seria a essa…

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E finalmente, aquelas em que se sente “a mão do artista”, inclusive assinadas. Aqui é onde a pixação, mais que aceitável, merece ser documentada e preservada.

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REFERÊNCIAS:

1 – IMAGUIRE JR, Key . Cinco ensaios sobre cultura popular. Curitiba, do autor, 1983.

2 – BATISTA, Fabio Domingos, CORREA, Sandra Rafaela & GASPAR, Marialba Rocha. Capelas ucranianas: arquitetura da imigração no Paraná. Curitiba, Arquibrasil, 2009.

3 – NICOLAU nº 16, outubro de 1988. Curitiba, SECE.

 

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