HISTORICISMO NA ARQUITETURA DE CURITIBA

8 de fevereiro de 2016 por keyimaguirejunior

PITAGORAS

HISTORICISMO NA ARQUITETURA DE CURITIBA

O uso indiscriminado e imprudente de reducionismos nominativos, como “estilo” e “escola”, comporta o risco de má compreensão de inteiros momentos históricos, seus antecedentes e conseqüentes. Já me manifestei a respeito em outro post recente – “Confeitando a Arquitetura” – como também disse respeitar sua utilidade acadêmica e didática.

Depois daquele texto, me ocorreu que algumas imprecisões de importância decorrem dessas rotulações: por exemplo, o falar-se de “estilo colonial” ou caracterizar “rococó” como um momento à parte e não apenas uma extensão do “barroco”.

Feita a ressalva, faço a seguir o que recomendo enfaticamente se evite fazer – isto é, usar o conceito de “estilo” para simplificar o que é complexo e não comporta simplificação…

O Ecletismo brasileiro é, na Arquitetura como na Arte, o fato político “abertura dos portos”. Depois da vertente neoclássica introduzida pela Missão Francesa, chegará o neogótico, particularmente bem aceito pela arquitetura religiosa. São as duas principais estéticas que irão compor o panorama do XIX brasileiro, mas não só. Importa aqui que são duas idéias historicistas. Diz Argan que o “neoclássico não é uma estética, mas uma poética” – será assim também para o neogótico. Estéticas e/ou poéticas, são historicismos de origem bem clara, conhecida e discutida. Que nas construções se tenham praticado modificações que implicaram em simplificações e deformações da dita estilística – e, principalmente, na sua poética – é o esperado. E, num certo sentido, desejável, visto tratar-se de sintonia com o momento tecnológico, definidor de um novo período.

A Arte e a Arquitetura praticadas pelo Modernismo como seqüencia ao Ecletismo, remete à dialética do clássico/romântico e outras similares – discussão muito rica e interminável.

Como se deveria esperar, o que se entendeu um dia por “estilo” – de que “escola” já é uma miniatura – transita em “modismo”, como convém ao mercado imobiliário, que é quem determina o que será construído em nossas pobres cidades.

Além do mais, a pós-modernidade chega proposta pelo despreparo de quem vê em Las Vegas um modelo a ser seguido. Ou pela má fé arrogante de um Tom Wolfe. Significativamente, americanos, como todo o fenômeno da pós-modernidade inicial. Do outro lado do mundo, Kenzo Tange projeta construções referenciadas a estéticas tradicionais japonesas, mas iniludivelmente modernas – enquanto a proposta americana não vai além de ornamentação, confeitação das construções em tudo o mais modernistas. Superficial como tinha sido todo o Ecletismo.

Muito bem, estou argumentando que a reutilização de estéticas de outros tempos não é novidade alguma – foi aberta, indiscriminadamente pelo Ecletismo e segue seu caminho, mesmo ao risco de Kitsch.

As primeiras fases de grande crescimento de Curitiba se dão sob patrocínio da erva mate – digamos, de 1853 em diante, sob vigência do Ecletismo em todas as capitais estaduais. Mas dois outros fatores vão incidir no panorama arquitetônico da cidade. Antes de mais nada, a economia madeireira, crescendo a partir de fim do XIX – inauguração da ferrovia para os portos – que fornecerá material de custo acessível e grande plasticidade. Mas também a imigração intensiva, acima das influências indiretas “via” São Paulo e Rio de Janeiro. Vocabulários construtivos diferenciados serão trazidos por mestres de obras e operários.

Assim, embora o Modernismo tenha praticado um corte que deu à cidade momentos importantes na história da Arquitetura do país, e edificações que lhe enaltecem a paisagem urbana, o historicismo tem presença cultural muito forte, prestigiosa. O próprio símbolo da cidade, o prédio central da Universidade Federal do Paraná, é um ecletismo tardio, tendo adquirido sua atual feição em 1954.

Essa introdução tenta explicar as razões da presença de alguns historicismos na arquitetura da cidade. Em se tratando o “estilo” de uma idéia, facilmente é vinculado a uma idéia religiosa ou filosófica. Mais do que uma “coleção completa” de estilísticas, esses monumentos permanecem como marcos de um cosmopolitismo marcante numa paisagem, via de regra, comum e sem referências.

 

Model

 LEITURAS RECOMENDADAS

– ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. São Paulo, Cia das Letras, 1992.

– ARGAN, Giulio Carlo. Clássico anticlássico. São Paulo, Cia das Letras, 1999.

– LEVY, Hannah. A propósito de três teorias sobre o Barroco. IN: Rio de Janeiro, Revista do SPHAN, MES, nº5, 1941.

(Texto muito interessante, pela brilhante introdução à discussão da dialética clássico/romântico)

NEO 04

Ordem Rosacruz – Referência, arquitetura faraônica egípcia.

NEO 10

Templo das Musas, do Instituto Neopitagorico . Referência, arquitetura clássica grega.

NEO 17

Catedral de Curitiba. Neogótica: referência, arquitetura gótica.

NEO 23

Igreja do Rosário. Referência: barroco brasileiro

NEO 28

Casa da Estrêla. Referência: simbolismo do Esperanto.

NEO 35

Igreja São Camilo. Referência: modernismo brasileiro.

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