SEMANA DE SETE DIAS – E DE SETE GATOS

3 de fevereiro de 2016 por keyimaguirejunior

“Treis veis sete vinteum

         sete macaco teu pai é um.”

     Engraçado esse dito infantil – em geral, quem paga o pato das encrencas entre crianças, é a mãe…

Mas a fixação com o número 7, mais do que cabalística, deve estar ligada, de algum modo, à quantidade de dias da semana – inclusive, as propaladas “sete vidas” dos gatos. Infelizmente, quem gosta deles, comprova a tristeza de não ser verdade: bem que os bichanos mereceriam até mais do que isso. Mas vivem, como os cães, uma única vidinha bem curta.

E com essa seqüência de crônicas hebdo-felinas, marcamos a passagem do Keynews pelas 52 mil visualizações – a caminho das 70 mil que, ao que tudo indica, serão a marca a ser atingida nesse ou no próximo ano…

Ilustramos a série, publicada no Diarinho de Itajaí em dezembro/2015 e janeiro/2016, com gatos fotografados pela Marialba pela Itália, Romênia e Brasil nestes dez anos. Já que há pin-up girls, porque não pin-up cats?!

natal 2013 Iporâ

SEGUNDA-FEIRA

          “Não há domingo sem missa, nem segunda-feira sem preguiça”, dizia a complacente sabedoria açoriana de minha avó.

Quase tudo o que dizemos recorrentemente nos referindo ao primeiro dia da semana, lembra o gato Garfield do Jim Davis: “odeio segunda-feira”. Má vontade que leva, evidentemente, muita coisa a fracassar ou azedar.

É quase a mesma coisa, mas foi consolidado – o que é uma honra – pelo Paulo Vanzolini: “os pecados de domingo, quem paga é segunda-feira”.

È bem verdade que a segunda-feira estraga o domingo?! Não será a segunda-feira a estragar o domingo?! É a mesma coisa e depende do ponto de vista, é claro.

Adaptando Ambroise Bierce, “nos países cristãos (segunda-feira) é o dia seguinte ao do jogo de futebol”.

     No entanto, permaneceram na nossa notação contemporânea os nomes de antigos deuses, latinos e nórdicos, pré-cristãos todos eles.

Segunda-feira é o dia de Selena, a lua (lundi, lunes, lunedi, montag, monday) e, voltando ao autor do “Dicionário do Diabo”, “selenita é o habitante da lua, e lunático é o habitado pela lua”.

Claro que haverá explicação fácil, mas é desconfortável – e confuso para quem fala outros idiomas – a seqüência dos dias começar com a segunda-feira: que fim levou a primeira-feira?! Alguns calendários começam a semana com o domingo – essa seria, portanto, a primeira-feira, mas a coisa conflita frontalmente a idéia de fim-de-semana.

Já houve – ainda há? – uma legislação esquisita trazendo para a segunda-feira os dias feriados e santificados que “caíssem” de terça a quinta, para evitar, é claro, o tradicional “enforcamento” do dia entre o feriado e o fim de semana. O que é complicado no conceito: a idéia dos feriados e dos dias santificados, é fazer lembrar, comemorar uma data especial. Que foi, sempre, estabelecida pelos dias do mês. Fazer o acerto na marra, burocraticamente/legislativamente, compatibilizar o mês com a semana, leva ao esvaziamento do sentido da comemoração ou lembrança.

Os positivistas tinham uma proposta de calendário com todos os meses de 28 dias – portanto, quatro semanas e um ciclo lunar completo – capaz de fazer essa compatibilização. Era mais racional que o Juliano e o Gregoriano que usamos. Que fim levou?!

gato de sibiu

TERÇA-FEIRA

          Ares – ou Marte – é o patrono do segundo dia da semana. O deus da guerra tem lá seu cartaz entre os capitalistas fabricantes de armas. É uma divindade perfeita a ser resgatada em tempos neo-liberais: mais que a vida das populações e do planeta, importam os lucros do armamentismo.

Diziam as más línguas olimpianas – lá nos tempos mitológicos – que tinha um caso com Afrodite – mas essa, maledicências à parte, tinha caso com todo mundo. Como era a sua área, a gente tem que entender. É só ver como a representaram os artistas de todos os tempos…

Em tempos mais tranqüilos, Mardi, Martedi, Martes era o dia da semana em que o domingo estava assimilado de véspera e tudo reiniciava: os cinemas trocavam os filmes e novas edições das revistas semanais chegavam às bancas de jornais. Por exemplo, oh alegria, “O Pato Donald”!

Mas o episódio que sempre me lembra a terça-feira, demonstra a estranheza que nossas “feiras” portuguesas despertam pelo planeta afora. Está na bela autobiografia de Pablo Neruda, confessando que viveu. Conta o poeta chileno que, estando no Brasil, conheceu Luis Carlos Prestes – com o qual se deu bem, tanto que foi convidado a almoçar em casa deste. Mas foi para a praia “com uma bela amiga brasileira” e deu o cano no amigo:

Acontece que o idioma português, não obstante ter seu sábado e seu domingo, não assinala os dias da semana como lunes, martes, miércoles, etc, mas sim com as infernais denominações de segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, saltando a primeira feira para complemento. Eu me enredo inteiramente nessas feiras sem saber de que dia se trata (…) Na quarta-feira fiquei sabendo que Prestes me esperou na terça-feira inutilmente, com a mesa posta enquanto eu passava as horas na praia de Ipanema.(…) Pude aprender tudo em minha vida, menos os nomes dos dias da semana em português. Cada vez que lembro desta história, quisera morrer de vergonha.”

Neruda deixou de incluir no livro uma foto da “bela amiga brasileira” em biquíni ipanemense, o que talvez nos permitisse a engolir melhor a história. Espera-se, como é devido a um Prêmio Nobel – merecido – que tenha valido a pena, porque, como desculpa, conquanto pertinente, é meio fajuta…

Terá sido um próprio e autêntico mardi grãs…

Na tendência a encolher a semana – no que os políticos, como sempre, dão péssimo exemplo – passamos a ter, de trabalho efetivo, de terça a quinta-feira.

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QUARTA-FEIRA

     Essa só podia ser escutada ao Sul do Equador: “quarta-feira é um saco. A gente ainda não está descansado do fim de semana anterior e nem animado para o seguinte.”

Vai ver por isso, o meio da semana, é dedicado a uma divindade hiper-ativa, Mercúrio: Mercoledi, Mercredi, Miércoles… Na nossa coloquialidade cotidiana, é dia de pouco ou nenhum compromisso: marcamos sempre para o início ou o fim da semana, jamais para o meio. De preferência, trabalho no início e balada pro fim, de olho no descanso.

A controversa e ambígua personalidade do Hermes permeou para o mundo anglo-saxão, onde o Woden foi no Walhala o que o Hermes foi no Olimpo. Deve ser daí que o colocaram prá escanteio e chamaram seu dia de “meio da semana”: Mittwoch.

Devemos ver aí a presença do caduceu pacificador do Hermes? Seria o dia com menos compromissos sociais o preferido para as reuniões formais (“odeio reuniões”), de negócios, compra e venda de poços de petróleo e minas de diamante, assinatura de contratos, retribuição de favores políticos e assim por diante?!

Nem por isso, é o dia que vem depois do chamado “tríduo momesco”, a Quarta-feira de Cinzas. Dia de cair na real, voltar ao trabalho, às reuniões é claro (outra definição sul-equatoriana: ‘cúmulo do sadismo é marcar reunião na tarde da Quarta-feira de Cinzas’). Se é que vale a pena, visto que o dia seguinte é quinta-feira e depois já vem sexta, que é o começo do fim de semana… melhor emendar tudo de vez.

Como regra, os feriados laicos são marcados pelo dia do mês, mas os religiosos segundo uma contagem de dias para “caírem” em dias de semana pré-estabelecidos: além da Quarta-feira de Cinzas, a Sexta-feira Santa e outros. Faz sentido, se tivermos em vista que a semana de sete dias é uma instituição religiosa ela também.

Mas por quê a quarta-feira que inicia o período da Quaresma é “de cinzas”? É tradição antiqüíssima, várias vezes milenar. Nas sociedades antigas, o luto, o pesar, a angústia deviam ser manifestados publicamente. Então, quem sofria uma perda ou revés importante, “cobria a cabeça com cinzas, vestia pano grosseiro e ia passear pela porta da cidade”: lugar onde sempre havia muita gente reunida, para finalidades várias. Inclusive, administração da justiça e consolidação de negócios.

Por essa descrição, parece mais trote de calouros: cabelos sujos e raspados, roupa de saco, passar em lugares cheios de gente… e no entanto, o trote é manifestação de júbilo, não de pesar. Sinal dos tempos…

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 QUINTA – FEIRA

     É um dia propenso à violência. Zeus (Giovedi, Jeudi, Jueves) disputa o patronato com o poderoso Thor (Thursday). Os dois, como se sabe, um no Olimpo e outro no Valhala, são chegados em raios e trovões (Donnerstag).

Alguém com paciência, pendores estatísticos e nada de melhor prá fazer, poderia verificar que a quinta-feira é o dia preferencial das tempestades, erupções vulcânicas, terremotos, tsunamis, inundações e refeições sem sobremesa.

Os lusitanos têm uma “quinta-feira da espiga” – que, como se intui pelo nome, deve estar relacionada à colheita – com boas probabilidades de ser tradição rural antiga na Península Ibérica.

Fora isso, é um dia inexpressivo, mas tem futuro brilhante à sua frente, ocupando o lugar onde atualmente se encontra a sexta-feira: véspera do fim-de-semana. Com as agendas sociais se locupletando na sexta-feira, a tendência geral é antecipar os compromissos:

– “a gente se encontra na quinta, na sexta-feira todo mundo já tem compromisso”;

– “vamos ‘fazer o supermercado’ na quinta-feira, sexta tá muito cheio de gente se abastecendo para o fim de semana”;

– “feriado na quinta é o melhor que existe, a sexta-feira ninguém leva a sério mesmo, dá prá enforcar”…

Nos salões burgueses dos fins do século XIX – espaço principal da sociabilidade do tempo, mais até que os teatros – os dias preferenciais para receber, eram a quinta-feira e o sábado. Lembram da Viúva Seixas, do Machado, dando uma cantada no dr.Maciel?

“Doutor, por que razão não quer honrar a minha casa? Estou visível todas as quintas-feiras para a turbamalta; aos sábados para os amigos. Vá lá aos sábados.”

A safadinha queria ficar a sós com o doutor… e não seria para cantar modinhas e recitar sonetos.

Tanto é dia de encrenca entre Júpiter e Thor que foi numa quinta-feira que aconteceu a quebra da bolsa de New York em 1929, dando origem a uma feroz recessão. De lá prá cá é uma em cima da outra – até que se entenda que não é o fim do mundo, mas o fim do capitalismo e, praza aos céus, do neoliberalismo…

savona

SEXTA-FEIRA

            Quando viu no edital que minha aula seria sexta-feira à noite, uma aluna veio reclamar:

– Sexta-feira é dia de balada, pô!

Talvez seja, mas o horário quem fazia não era eu – e a solução dos (das…) estudantes me agradou bastante: iam prá aula arrumados para a balada depois… E foi uma desilusão descobrir que aquele visual caprichado não era para a minha aula, e sim para os botecos, danceterias e similares…

Mas no fundo, a razão estava com os jovens. Afinal, o dia é das deusas assanhadinhas: Afrodite/Venus pelo lado latino (Venerdi, Vendredi, Viernes) e Freia pelo lado anglo-saxão (Freitag, Friday).

Ainda dentro desse espírito venusiano, há um plágio do Robinson Crusoé onde, nas ilustrações, insinuam-se relações, digamos, carinhosas, entre o personagem principal e o coadjuvante Sexta-feira.

O que mais nesse dia?

A Sexta-feira Santa, é claro, o feriado mais sério do Cristianismo:

– Fulano é tão dinheirista que abre a loja dele até na Sexta-feira Santa, gente!

A ênfase no até dá a medida do desrespeito, uma colocação nada weberiana.

Mas nem tudo são baladas e pecados. Para as crianças brasileiras, já foi dia de felicidade: era quando a EBAL de Adolfo Aizen colocava nas bancas o Mirim Sextafeirino, a partir de 1939. O melhor gibi da época, com quadrinhos que faziam sucesso pelo mundo inteiro. E alegria, hoje em dia, para o colecionador que acha algumas dessas edições no sótão da casa da avó: a coisa é tão rara que sequer vi algum…

Na biografia de Paula Nei, Raimundo de Menezes enfatiza que o Quinze de Novembro caiu numa sexta-feira. Que dia da semana terá sido o Sete de Setembro? Porque o país começado com um grito – ainda que do Ipiranga às margens plácidas – continuou com sua tradição de fazer as coisas no berro, deitado eternamente em berço esplendido.

Como não podia deixar de ser, há uma apropriação comercial contemporânea esquisita, com a instituição da Black Friday: não se sabe se é Black para o consumidor, para o comerciante ou para o produtor. Mas uma coisa é certa: não existe situação em que todo mundo ganha. Se há ganho de um lado, há perda de outro.

É trabalhoso, mas a manha está em descobrir de que lado ficar.

Bom fim de semana prá vocês!

vampigato romeno

SÁBADO

            … ou “sábado-feira”. Nenhuma criança resiste a dizer essa piada – que faz os bons pais morrerem de rir – ao decorar os dias da semana. Depois de todas as “feiras” do idioma português, ela manda o “sábado-feira” e o “domingo-feira”. No que estão, como é evidente, cobertas de razão.

O sábado unifica as mitologias latina e anglo-saxônica. É o dia do feroz Saturno em qualquer língua ocidental: sábado, sabato, Saturday, Samstag, samedi.

De todos os dias da semana, foi o mais fácil de alinhavar referências para esta sucessão de crônicas: parece ser, de longe, o dia preferido de todos ou quase todos. Na nossa civilização tropical, escuta-se muito que “ o sábado é legal porque depois dele vem o domingo; e o domingo é chato porque depois dele vem a segunda-feira”.

      Dia preferencial para os chamados “enlaces matrimoniais”, as reservas de espaços têm que ser feitas com muita antecedência. Embora haja modismos querendo alterar essa tradição, ainda é o “dia de casar” – prá poder dormir, ou não… – o domingo inteiro depois da festança.

Prá quem já casou, resta o consolo de uma lauta feijoada – acho que a tradição culinária brasileira prescreve o sábado como dia preferencial desse prato pela impossibilidade de se trabalhar depois de um tal almoço.

Resta também a noite para um sábat bruxólico – que terá, talvez, alguma relação com a Malhação de Judas no “Sábado de Aleluia”?

Ou para ir aos “embalos de sábado à noite” nas discotecas – parece que o nome agora é “danceteria”, não entendo disso. Mas o dia de balada não era na sexta-feira?! Ou os dois são?!

Já houve nos colégios a famigerada “sabatina”, nome das tenebrosas argüições orais onde se avaliava o aprendizado dos estudantes durante a semana.

E houve também o “Sabadoyle”, sarau literário patrocinado em sua casa pelo bibliófilo e editor Plinio Doyle, no Rio de Janeiro. Ainda não li o volumão das atas, mas parece que existiu entre 1964 e 1998. O neologismo é muito “bem encontrado”…

E terminamos citando Vinicius de Moraes no primoroso “O dia da criação”:

“Hoje é sábado, amanhã é domingo

            Amanhã não gosta de ver ninguém bem

            Hoje é que é o dia do presente!

            O dia é sábado.”

      Sim, encerremos aqui, porque hoje é sábado.

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DOMINGO

          “Hoje é domingo, pede cachimbo…” Atenção: não é pé-de-cachimbo, coisa que, ao que eu saiba, não existe!

Suponho que a idéia de laser já estava nas intenções dos padrinhos do último dia da semana, entre os anglo-saxões: dia do sol, Sunday, Sontag. Para os latinos, vale a tradição bíblica: Dies Domine, Domenica, Dimanche, Domingo.

Mas fica muito evidente quem estragou o fim-de-semana dos pais nascendo no dia de descanso: Domingos(as), Domenico, Dominguim…

A antiga tradição pascal cristã também encerra com o Domingo de Ramos.

E temos a aguardada “domingueira”, festa com baile na tarde de domingo.

Mas em algumas cidades brasileiras – digamos, de porte médio – aí pelos anos cinqüenta/sessenta, o domingo das crianças seguia uma seqüência bem precisa.

Começava cedo, com missa na igreja mais próxima de casa. Cedo o bastante para ser possível chegar ao cinema do bairro a tempo da “matinada”: umas duas horas de desenhos animados (Tom & Jerry, Disney), filmes (Gordo & Magro, Chaplin, Marx) e pelo meio uns documentários recebidos meio de má vontade. Não, seriados não, esses ficavam na sessão da tarde, já mais para os adolescentes.

O almoço, via de regra, era frango assado – feito no forno de casa – com spaghetti ao sugo e empadão de palmito. Para os mais abonados, talvez “almoçar fora”, isto é, comer em restaurante.

À tarde, independente do que os adultos pudessem inventar – visitas, futebol, pescaria – era a liberdade, para quem morava em casa com quintal. Isto é, se tivesse, prudentemente, feito as tarefas escolares no dia anterior.

Era então o tempo de trocar figurinhas, brincar com piões, bolinhas de búrico, raias – coisas que a infância de apartamento perdeu. Esses, no máximo têm um bate-bola nas canchas cimentadas dos condomínios ou trancados em casa com os tenebrosos vídeo-games e celulares. Coitados.

Se, num certo sentido, a semana encolhe cada vez mais, por outro presenciamos a dissolução das referências, com o comércio dos shoppings aberto permanentemente, prestação de serviços “em qualquer dia da semana”. Por exemplo, assassinos de árvores, que nesse dia infernizam com suas moto-serras enquanto os fiscais descansam.

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Olly, Biaggio e eu na Villa Olivieri, na rua San Dalmazio, Savona. Foto da Marialba.

 

 

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