CONFEITANDO A ARQUITETURA

2 de fevereiro de 2016 por keyimaguirejunior

Não gosto de periodizações, estilos, escolas – acho que são reducionismos que, usados sem o devido cuidado, prejudicam o entendimento do tempo como um fluxo único, inevitável e irreversível. Gosto, e é o que uso com relativo conforto, das “linhas do tempo”. No entanto, como recursos didáticos e acadêmicos, todos têm sua utilidade pelo caráter de simplificação esquemática, que melhora a compreensibilidade.

Então vamos lá: o período de idéias que, em termos de Brasil, pode ser localizado entre a Missão Francesa (1816) e a Semana de Arte Moderna (1922) – delimitação arbitrária, questionável e meramente emblemática – pode ser chamado de “Ecletismo”. Do Aurélio: “Eclético, 2: Formado de elementos colhidos em diferentes gêneros ou opiniões: gosto eclético”.

Portanto, chega a Missão Francesa e com ela o Neoclássico – que os italianos atribuem a Palladiofato político articulado com a Abertura dos Portos, e determinando o fim do exclusivo português sobre a cultura colonial. Literalmente, aporta no país uma perplexidade diante da riqueza do panorama europeu, notadamente na Arte e na Arquitetura. Nosso despreparo e desinformação transformam o ambiente construtivo no que Monteiro Lobato irá chamar de carnaval arquitetônico, com boas razões. Convenhamos que o escritor não conheceu a arquitetura do século XXI – que é melhor não adjetivar, para não incorrer no politicamente incorreto.

Como não podia deixar de acontecer – e muito embora encobrindo transformações profundas na construção, do projeto ao uso – nossa modernidade com freqüência não vai além do enfeitamento de construções que, em tudo o mais, seguem os padrões anteriores. Essa prática vai ensejar a reação racionalista e entrada triunfal do Modernismo.

Não se pode negar a intenção plástica em um projeto, nem mesmo o ornamental. Seria refutar áreas inteiras de atuação do arquiteto e dos artistas. Nem mesmo quando se trata de elaborar formas a partir das condicionantes estruturais – de que são exemplo os palácios de Oscar Niemeyer para Brasília. Concordo com Eugenio d’Ors, quando disse que “todo estilo tem sua fase barroca”. A partir daí, já me parece que há um trânsito fácil para valorização do excesso ornamental. Delirando um pouco, da beleza das ordens dórica, jônica, toscana – chega-se à elaboração das coríntias e compósitas – no meu entendimento, muito carregadas.

     No caso de Curitiba, tivemos escassamente a presença das estéticas coloniais. A cidade passa a estar no mapa a partir de 1853 – que marca, além da criação imperial da Província do Paraná, a supremacia da burguesia ervateira sobre a dos comerciantes litorâneos. De início, cresce devagar – passando por períodos de aceleração, em direção à atual insanidade.

A virada do século XIX para o XX corresponde ao domínio da arquitetura eclética em todas as cidades do país. No nosso caso regional, além das influências reflexas de São Paulo e Rio de Janeiro, passamos a contar com as presenças diretas de imigrantes. O panorama que se forma é diversificado, colorido, cheio de nuances e particularidades.

Esse post identifica alguns desses recursos ornamentais, que funcionam apenas como enfeite ou quase isso. Alguns, nem mencionei: por exemplo, os lambrequins, que já foram noticiados neste blog.

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PINHAS

São elementos comprados prontos e colocados sobre balaustradas, nas laterais de escadas e portões. Em Diamantina, são muito freqüentes nos balcões e sacadas, feitos de vidro ou porcelana. A variedade de formas e dimensões é muito grande.

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NICHOS

Originalmente, abrigavam imagens, como invocação de proteção para a casa. Depois que inventaram esse ridículo laicismo – seus partidários deveriam ser mandados para o Islã – desaparecem rapidamente.

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METAIS

A plasticidade e resistência do ferro teve ampla aceitação – ver o post “Arquitetura do Ferro”. Em Curitiba foi muito usado em guarda-corpos de sacadas e balcões, marquises (combinando com uso de vidro), grades e portões. Há também as grimpas – ver na foto acima.

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COLUNAS

Não são elementos ornamentais, mas não custa dar-lhes também essa atribuição…

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VITRAIS

Não sei se ainda existe, mas houve em Curitiba uma fábrica, na Rua Oiapoque. O mais elaborado, ficava na Louvre Sedas e foi destruído por um incêndio.

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 AZULEJOS

Os grandes painéis, contando histórias (igrejas) ou revestindo coloridamente (palácios maranhenses) fachadas inteiras, não chegaram aqui no nosso Planalto. Mas alguns usos ornamentais são bem curiosos e inéditos.

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VIDROS JATEADOS

Foram uma tecnologia cara e pouco usada, mas existiram até mesmo em casas. Tenho notícia de que a maioria vinha da Inglaterra.

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PINTURAS DE VARANDA

São muito curiosas, ora referenciadas às paisagens locais, ora às europeias, evidente apelo de artistas imigrantes. Há uma curiosa formulação numa casa de Santa Felicidade, que conta sequenciadamente a história da imigração italiana em vários painéis. Sei que um dos autores mais atuantes foi Gardenio Scorzato, que deverá merecer um post neste blog.

A segunda foto, de uma entrada no Alto da Rua XV, mostra a mais refinada das pinturas de parede que já encontrei na cidade. Já desapareceu, junto com a casa.

E a ultima, é simplesmente espetacular, uma revolução nos nossos conceitos ecológicos: uma paisagem bíblica com araucárias…

 

 

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