PASSEIO NOTURNO PELA RUA XV

23 de janeiro de 2016 por keyimaguirejunior

Testemunhei o nascimento do calçadão pioneiro do Brasil. Numa noite de 1971 (?) vinha voltando do cinema para casa e presenciei as turmas de calceteiros – dezenas deles – que colocavam o petit-pavê na faixa central. Eu ainda não presenciara uma atividade de tal intensidade na cidade. Na altura da Monsenhor Celso, os arquitetos Jaime Lerner e Joel Ramalho Junior conversavam – nesse tempo, os prefeitos se preocupavam com as obras feitas na cidade, não apenas na eleitoreira inauguração.

Nos dias seguintes, veio a reação dos carristas e dos bombeiros, evidentemente manipulados pela política – e o hábil estratagema, sem liminares nem truculências judiciais, das crianças pintando no calçadão. Lembro que o José Ghignone, como comerciante estabelecido e prestigioso da rua, foi um dos defensores do calçadão, peça importante na sua consolidação.

1-20-2016_010

     … de lá prá cá, são mais de quarenta anos que convivo com a Rua XV. Todos os meus caminhos passaram por ela nessas quatro décadas – indo/voltando para a UFPR ou para casa. Quando não era necessário, passei por ela do mesmo jeito: era bom… Podia flagrar uma paisagem nevada, uma banda colegial passando, um desfile de lingerie…

Principalmente aos visitantes, a satisfação daquela rua na qual estavam quase todos os tipos de arquitetura já construídos na cidade – começando na Santos Andrade e percorrendo até a Osório. Dá prá contar tudo, passando por músicos, mímicos e, principalmente, pela gente curitibana. A sala de visitas perfeita, inclusive para servir os acepipes da Confeitaria das Famílias e os sandubas do Mignon.

1-20-2016_007

     É verdade que quarenta anos são muito tempo: surgiram os shoppings, que esvaziaram de população as ruas. O comércio foi sendo alterado, com lojas para venda de bagulheira chinesa. Quando reclamei ao José Ghignone da sua intenção de fechar a livraria, o antigo defensor do calçadão respondeu: “na Rua XV atualmente só dá carrinheiro e punguista, e essa gente não compra livros”.

Muitas vezes escutei de entendidos em urbanismo – no Brasil eles são tão abundantes quanto técnicos de futebol – dizendo que “é preciso popularizar a XV”. Essas besteiras do politicamente correto com desastrosas conseqüências. Pois aí está: “popularizaram” a XV e, de quebra, acabaram com ela.

1-20-2016_005

     Saindo do concerto de abertura do Festival de Música de Curitiba – mais discurso do que música mesmo – convidei visitantes a completar curitibanamente a noite, com um lanche nas imediações do Bondinho. São gente que admira, aprecia e estima a cidade – e diante deles, passei a maior vergonha da minha vida. Nunca imaginei que minha cidade pudesse me aprontar uma dessas.

Pouca iluminação, quadras inteiras às escuras. Lixo, cheiro de fezes e urina de ponta a ponta. Maloqueiros dormindo sob as galerias do Plano Agache, um casal gay urrava publicamente sua lubricidade. Pixação prá todo lado – a glória dos bandos e a vergonha prá nós. Em todo o percurso, nem um mísero policial.

1-20-2016_001

     Ao chegar ao Bondinho – também pixado – uma decepção: as lanchonetes fechadas e as mesas tomadas por gente que nos atemorizou. E já foram ponto de estudantes e boêmios, gente ruidosa mas decente.

E um alívio: havia um taxi para dentro do qual pular e desaparecer, deixando a antiga Sala de Visitas de Curitiba a seus novos donos.

1-20-2016_009

 Qualquer curitibano razoável identifica as datas dessas fotos. Mas nem precisa saber o ano: é do tempo da Rua XV limpa, sem pixação, sem maloqueiros…

 

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: