A MORADA PAULISTA

19 de janeiro de 2016 por keyimaguirejunior

1 – CONTEXTO HISTÓRICO

Sob o capitalismo comercial que definiu os parâmetros de sua ocupação, o território brasileiro articulou na monocultura açucareira e no escravismo sua economia. O pelagismo inevitável dos primeiros tempos só é rompido com o episódio das bandeiras – que buscam ouro para suprir a decadência do açúcar, derrubado pela concorrência nos mercados internacionais.

Já no século XVI, o impulso catequizador dos jesuítas – principalmente, mas também de outras ordens – os levou a formar pontos de ocupação por todo o território da colônia: nos planaltos, agrupam-se populações antes litorâneas em busca de terras e riquezas minerais. Pioneiro e mais notável, o Planalto Paulista. Também o trânsito de gado dos Estados do Sul para os centrais, proporciona a formação de ocupação populacional. A busca de ouro, irradiando principalmente do Planalto Paulista, vai ter sucesso na região das Minas Gerais.

A sociedade que se forma na Região do Ouro tem sua matriz, portanto, no Planalto Paulista. Organizada em função da mineração, num primeiro momento forma bandos armados que vão prear indígenas para escravização – e aqui o território do atual Estado do Paraná é o mais visado. A tarefa destrutiva é facilitada pela sedentarização originada pela catequese. No seguimento, os pequenos exércitos irão avançar pelo interior e, achado o minério, constituir sociedade.

Esta, antes de mais nada, é forçada à autonomia pelas distâncias ao oceano – isolamento que lhe irá proporcionar, além das dificuldades logísticas, a cristalização de características sociais e culturais diferenciadas das litorâneas.

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2 – ARQUITETURA

A diversidade das construções decorrentes desse processo são muitas, nas urbanas como nas rurais. Estamos aqui assinalando três construções no território paulista do século XVII, portanto da fase de expansão da ocupação em direção ao interior.

Essas moradas centralizam não apenas a fazenda, como a região que a envolve, em função da dispersão territorial. Não por acaso, ensejam o surgimento de aldeias.

A implantação procura a proximidade das nascentes de água e posição a cavaleiro da propriedade, com controle visual sobre as áreas onde se dá a produção. Referências assinalam que do alpendre o proprietário administra o processo em todas as suas etapas.

PE.INACIO

     No sentido da proximidade do esquema teórico da solução da planta, o Sítio do Padre Inácio será o mais representativo. Para o alpendre, abre a capela, integrando-se os espaços com a simples abertura das portas. Também o quarto do proprietário abre em tribuna sobre a capela. Como acontece em quase toda a arquitetura colonial, o quarto dos hóspedes abre para a área externa do alpendre. Ainda a partir deste, acessa-se o espaço central, que distribui circulação para as áreas residenciais, nas laterais; e de serviço, aos fundos.

As plantas do Sítio Santo Antonio e a casa-grande da Fazenda Pau d’Alho, são referenciadas, embora com mais distância por força das necessidades funcionais, ao mesmo esquema. Observar que, sendo a capela do Sítio Santo Antonio apartada da área residencial, tem também seu alpendre próprio.

A técnica construtiva é a taipa-de-pilão, fazendo uso de taipais paralelos dentro dos quais o barro é apiloado. Os telhados são em telha capa-e-canal e sempre em quatro águas, sendo os rincões denunciadores de alterações mais tardias. Todo o madeiramento faz uso de canela preta, em especial nos frechais e cunhais.

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3 – OS EXEMPLOS

As fotos deste post foram feitas em 1983, durante a primeira Viagem de Arquitetura Brasileira. Viagem esta sugerida por uma comissão de estudantes, e a primeira que organizei, com ajuda dos mesmos. Rescendeu “um tanto” a improviso, realizada que foi nos últimos dias letivos de 1983 – época imprópria não só pela finalização do ano acadêmico, como ainda pelo calor senegalesco das regiões visitadas.

Chegar às fazendas só foi possível pela presença do prof. José LaPastina Filho, que conhecia previamente os acessos. Sem isso, não é provável encontrá-las – a menos que a situação tenha mudado e instalada sinalização nas precárias estradinhas. A viagem passou ainda pelas cidades de Areais, Bananal e São Sebastião; e por Ilhabela.

Como muitas fotos deste blog, são postadas como “prova de estado” das construções numa dada época. A qualidade está muito prejudicada pelo calor das lâmpadas dos projetores de slides durante as aulas.

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4 – REFERÊNCIAS

4.1- LEMOS, Carlos A.C. Casa Paulista. São Paulo, EDUSP, 1999.

4.2- LEMOS, Carlos A.C. Cozinhas, etc. São Paulo, Perspectiva, 1976.

4.3- SAIA, Luís. Morada paulista. São Paulo, Perspectiva, 1972.

4.4- PILON, Jacques. L’Architecture au Brésil. São Paulo, USP, 1981.

Observação: a planta do Sítio do Pe.Inácio é do “Morada Paulista”

 

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