O ORIENTE MÉDIO QUE ESTÁ NO GIBI

1 de janeiro de 2016 por keyimaguirejunior

DSCN1341

         Depois do “Persépolis” de Marjane Satrapi, houve nas comic-shops uma onda de sucesso para as graphic novels com tema Oriente Médio.

Mais do que um modismo temático, no entanto, vejo essa sequência de publicações como uma evolução do gênero em direção a uma maturidade definitiva e desejável. Aconteceu antes com o romance e com o cinema…

As graphic novels concorrem, nas estantes das livrarias, com livros e revistas caras e bem apresentadas. Então, são também lançamentos de uma industria cultural consciente da importância de um produto de qualidade e bem acabado.

Não é preciso fazer citações comprobatórias – desde os clássicos, tanto europeus quanto americanos, da década de quarenta, o Oriente Médio esteve no gibi, tanto quanto no romance e no cinema.

Mas agora o Oriente Médio não é mais um lugar distante e romântico, com tendas no deserto, diante das quais passam caravanas de camelos e dentro das quais odaliscas dançam com um ventre incendiado. É, antes, onde a humanidade vê se cruzarem caminhos incompatíveis, fora da capacidade de compreensão e assimilação de diferenças que beiram pelo teratológico.

O gibi já ajudou a entender complexidades radicais, como por exemplo a do Japão, com os mangás de samurais. Mas não dá prá esquecer que nesse caso, em que pese a diversidade cultural e geográfica, há padrões muito próximos, nos quais a comparação pode ser entendida.

Um exemplo de caminho que está sendo desvendado é “Aya de Yapougon” (M.Abouet & C.Oubrerie). Subtítulo: “esqueça tudo o que você ouviu falar sobre a África. Este livro vai lhe dar outra visão.” E dá mesmo.

E há muitos outros exemplos. São sempre “obras de autor”, onde fica bem claro que se trata das vivências e idéias de quem escreveu e desenhou. Não há predomínio de pressupostos políticos, embora estes sejam inevitáveis.

Não é só o Oriente Médio: o planeta está todo nos gibis, e em excelente fase artística e literária.

DSCN1342

 

ALGUMAS GRAPHIC NOVELS AMBIENTADAS NO ORIENTE MÉDIO

– De Marjane Satrapi.

. PERSÉPOLIS COMPLETO. São Paulo, Cia das Letras, 2007.

. FRANGO COM AMEIXAS. São Paulo, Cia das letras, 2008.

. BORDADOS. São Paulo, Quadrinhos da Cia, 2010.

O que eu mais gosto nas HQ da Marjane é o intimismo, a visão feminina e doméstica do Oriente Médio.

– De Craig Thompson.

. HABIBI. Usa,Pantheon, 2011.

É o melhor. Mesmo em se tratando de ficção. Ou por isso mesmo… Os demais têm caráter de reportagem e/ou autobiografia.

– De Guy Delisle.

. JERUSALEM; CHRONICLES FROM THE HOLY CITY. Montréal, Drawn & Quarterly, 2012.

Outra obra prima, essa de observação. O autor é casado com uma médica do “Médicos sem fronteiras”, que é designada para os cantos mais impensáveis do planeta. Acompanha-a e, enquanto ela trabalha, fica zoando e desenhando.

– De B.Vaughan & N. Henrichon.

. OS LEÕES DE BAGDÁ. São Paulo, Panini, 2008.

O mais cruel, o mais insano, o mais revoltante dessa história é ser real, acontecida durante a invasão do Líbano pelos Eua. Não sei o que eles ganham com isso, mas são inimigos jurados dos leões – e enquanto não os exterminarem, como fizeram com os lobos em seu país, não vão sossegar. É uma covardia sem nome, e uma afronta à humanidade. Nessa HQ, fica evidente a grandeza da família dos leões massacrados diante da pequenez moral e ética do militarismo americano.

DSCN1343

– De Amir & Khalil.

. O PARAÍSO DE ZAHRA. São Paulo, Leya, 2011.

Não leia o prólogo, é revoltante demais. O resto da história é boa.

– De Bertotti, Ugo.

. O MUNDO DE AISHA; A REVOLUÇÃO SILENCIOSA DAS MULHERES DO IRÃ. São Paulo, Nemo, 2015.

– De Riad Sattouf.

. O ÁRABE DO FUTURO; UMA JUVENTUDE NO ORIENTE MÉDIO; (1978/1984). Rio de Janeiro, Intrínseca, 2015.

– De Mana Majestani.

. UMA METAMORFOSE IRANIANA. São Paulo, Nemo, 2015.

– De A.Folman & D.Polonski.

. VALSA COM BASHIR. Porto Alegre, L&PM, 2012.

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: