UMA CASA PARA INGLÊS VER

30 de dezembro de 2015 por keyimaguirejunior

(A Casa da Família Gomm em Curitiba)

HARDY

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 1 – “Uma região argilosa”

A citação é do livro “Tess”, de Thomas Hardy. Nota-se claramente que o autor não escolheu aleatoriamente, num mapa, um ponto qualquer que representasse uma distância quase insuperável: sabia do que estava falando, tinha uma referência segura.

Entre o romance e a Casa Gomm vão cerca de vinte anos – pouco tempo, na verdade, mesmo para a época. Estou aqui me divertindo com essa coincidência literária e histórica: em momento algum, quero insinuar uma relação real entre uma e outra coisa…

O mais notável da referência é o fato de partir de um escritor tão visceralmente europeu e britânico, da cepa de Dickens, Defoe e Thackeray. E que, além do mais, era arquiteto restaurador. Essa profissão – anterior à de escritor – não permeia em “Tess”, de 1891, mas articula totalmente sua obra maior, “Judas o Obscuro”, de 1896. O personagem central passa a vida vagando pelos interiores britânicos, restaurando antigas igrejas. Por outro lado, o ruralismo apaixonado de Hardy “combina” com a idéia de uma família inglesa se estabelecendo numa área algo distante do centro de uma cidade que, conquanto já capital regional, deveria ser mesmo muito “argilosa e chuvosa”.

Thomas Hardy nasceu e morreu na Inglaterra (1840/1928), que habitou em tempos vitorianos. Evitou sempre a tenebrosa Londres – capital do industrialismo – vivendo a vida em belas mansões rurais: não é difícil supor que as tenha projetado a seu gosto. “Tess of the d’Ubervilles” ficou mais famoso por conta do lindíssimo filme de Roman Polanski de 1979 – bom, com a Nastassia Kinski no papel principal, fica fácil fazer filme bonito.

Mas sua obra máxima é mesmo “Jude the obscure”, que ignoro tenha sido filmada. Uma construção narrativa de uma intensidade dramática magistral, absurdamente envolvente.

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2 – A Casa dos Gomm

A casa construída pelos Gomm em Curitiba abre-se para o exterior tal como a Max Gate de Hardy, nas colinas bretãs. Uma residência rural burguesa em conceito e espaço. A planta pressupõe uma vida social e cultural intensa – e não por acaso, visto Mr.Gomm ter desempenhado o consulado inglês na cidade. Deu festa, mesmo, quando da coroação da rainha Elizabeth II, em 1953.

Da varanda, tem-se acesso ao living, salas de inverno, jantar, música, e biblioteca: “James, queira servir os licores na biblioteca”… O pavimento superior pertence às crianças: quartos e nurseries.

Conquanto o material único usado seja a madeira, a casa não se insere na tradição construtiva regional. O sistema paranaense é a “tábua-e-ripa”, e na Casa Gomm usou-se um “Wood frame” – que seria interessante rastrear, no sentido de identificar a procedência de uma tecnologia que não se afirmou entre nós.

Os quadros da estrutura são completados por faces de tábuas finas de ambos os lados, criando uma camada de ar isolante. E dando às paredes uma textura horizontal, contrastando com a verticalidade do sistema tradicional.

Entendo que a Casa Gomm deva ser estudada no capítulo da Arquitetura Eclética em Curitiba, não no da construção em madeira.

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3 – A casa em seu entorno

A expansão de Curitiba é particularmente agressiva às regiões mais carismáticas – das quais os imobiliaristas se apropriam, lucrando com a degradação imposta pelo adensamento e verticalização e sem dar contribuição alguma. Assim o Batel e outros bairros residenciais são impiedosamente golpeados, com a conivência da Prefeitura à qual só interessam os recolhimentos de IPTU e mais impostos. Só há respeito – temporário – a algumas edificações que testemunham, com seu valor documental, os valores arquitetônicos originais. São obrigações impostas por uma legislação concedida de má vontade e pelo clamor da mídia, nem sempre eficiente.

A área imobiliariamente valiosa do Bosque Gomm não poderia deixar de estar na mira dos empreendimentos imobiliários multimilionários. No entanto, a negociação a duras penas levou, nos primeiros anos do milênio, ao traslado da Casa Gomm – cerca de duzentos metros – dentro do próprio terreno. A construção de mais um shopping pôde acontecer com a manutenção de um mínimo do envoltório original. Ação que demonstra uma hábil acomodação de interesses, sempre preferível ao desaparecimento total do patrimônio da cidade.

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4 – O Patrimônio Cultural do Paraná

A construção de um patrimônio cultural estadual não se fez da noite para o dia, com numa canetada legislativa. Foi, mesmo, contínua, mas penosa e difícil em muitos momentos. Sempre enfrentando a má vontade política e a má fé do poder econômico, que se acha proprietário de tudo.

Assinalamos nesse sentido que o Paraná foi dos primeiros estados a apresentar seu rol de preservação, quando da criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, nos anos trinta. Não é pouco importante que essa ação tenha partido de uma família tradicional de “barões da erva-mate”. Várias iniciativas de preservação cultural foram pioneiras no Paraná – e lideradas por figuras de presença social marcante, como na criação do Museu Paranaense.

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5 – O Patrimônio Cultural do Paraná na Casa Gomm

No momento, manifesto apenas minha satisfação por esse órgão se encontrar, finalmente, adequadamente instalado – depois de peregrinar por vários outros locais.

Para quem, como eu, acompanha – a distâncias variadas… – as ações patrimoniais em todos os níveis administrativos, acho que a história dessa Curadoria mereceria ser contada por Thomas Hardy. Ou, dada a presença de lances picarescos, pelo Dalton Trevisan…

Não poderia ficar de lado o grotesco episódio do “destombamento” de uma interessante casa na esquina das Ruas Mateus Leme com Inácio Lustosa. Não satisfeito em atender os interesses do capital imobiliário – sempre ele – o governador biônico destituiu de seu cargo o prof. Cyro Correa Lyra – que, fazendo seu trabalho, ousou contrariar os aliados políticos.

Mas nem tudo é apanhar e ficar calado – momentos como o tombamento da Serra do Mar (1987), e o do centro histórico da Lapa, são marcos exemplares a nível nacional. Só possíveis porque a CPC do Paraná trabalha em articulação funcional com os níveis municipal e nacional.

O desconhecimento do complexo processo para um tombamento é normal para quem dele não participa. Na defesa, porque para os agressores é muito fácil criticar, explorar deficiências jurídicas e – lucrar.

Todo o processo de uma proposta de tombamento – que pode partir de qualquer pessoa ou instituição – é relatado ao Conselho do Patrimônio Histórico e Artístico, que o aprova ou rejeita. Pessoalmente, como membro do Conselho, já fiz as duas coisas: recomendar a aprovação e a rejeição do registro. O Conselho é autônomo e o parecer do conselheiro é discutido à exaustão, da perspectiva de várias áreas de conhecimento afetas à proposta de preservação.

Vê-se portanto que o “destombamento” – que não existe e é evidente que não poderia existir, diante de um tal processo. E no entanto acontece, é atitude e ação de prepotência e autoritarismo.

E aqui entra a figura do coordenador, agente governamental administrativo, cuja presença funciona, basicamente, como pára-raios. A mídia, como regra, é submissa, tanto quanto os políticos, ao poder imobiliário – e facilmente é colocada contra a preservação da cultura.

Atualmente, essa espinhosa coordenação é exercida pela arquiteta Rosina Coeli Parchen. Como minha aluna de graduação na Universidade Federal do Paraná, lááááá nos anos setenta, já mostrava interesse pela área. Depois fez o Cecre, quando este se estabeleceu em Salvador – uma das alunas que fizeram o prestígio dos estudantes paranaenses nesse curso, que perdura até hoje. Sua pesquisa foi sobre a Fazenda Capão Alto, um exemplo de dedicação.

Como qualquer pessoa que se proponha a uma atuação baseada nos critérios nacionais e internacionais aceitos e vigentes, sem concessões fisiológicas, políticas e de mesa de pizzaria, é criticada como intolerante, rígida e obstrutiva. Na medida em que a riqueza cultural da humanidade está sendo acuada, essas alegações, frutos da irreflexão, têm sido mais freqüentes.

Nosso planetinha neoliberal é, cada vez mais, joguete das forças econômicas – até aí, nenhuma novidade. Mas quem estiver atento ao naufrágio ambiental em curso, perceberá que também nossa cultura se está dissolvendo nas águas da globalização e do imobiliarismo descontrolado. Quem assistiu à ascenção e queda do poder dos petroleiros no século XX, percebe quem tem o dinheiro agora.

Esperem prá ver o que vem pela frente. Quem se coloca irrefletidamente contra as ações que irradiam da Casa Gomm, deveria se perguntar com sinceridade, de que lado está, afinal.

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6 – Referências

6.1- CORREA LYRA, Cyro (coord). Guia dos bens tombados: Paraná. Rio de Janeiro, Expressão e Cultura, 1994.

6.2- ESPIRAIS DO TEMPO; BENS TOMBADOS DO PARANÁ. Curitiba, SEC, 2006.

6.3- HARDY, Thomas. Tess. Belo Horizonte, Itatiaia, 1984.

6.4- HARDY, Thomas. Judas, o obscuro. São Paulo, Abril, 1971.

6.5- OS IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSAL. São Paulo, Abril, 1972.

OBSERVAÇÕES

-As imagens antigas são do acervo de Arquitetura Brasileira do CAU/UFPR

– As demais fotos são minhas, feitas em agosto de 2015

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A Casa Gomm em sua locação original.

Escanerizações da Marialba

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