… E SE VENEZA MORRER?

20 de novembro de 2015 por keyimaguirejunior

É o título de um dos livros angulares da modernidade urbanística. Veneza é o tema central, mas trata de alguns dos problemas mais graves das cidades atuais – e da humanidade urbanizada: o comprometimento com a memória humana nelas contido.

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            PIAZZA SAN MARCO, O GRAN FINALE DO GRAN CANALE: QUE TAL PASSAGEM DE RODOVIA, COM POSTOS DE GASOLINA, MACDONALDS, E O MAIS DA PUTARIA NEOLIBERAL?!

Mas como morreria Veneza? Como assim, como pode morrer a cidade mais carismática, mais bonita, mais amada, mais única do planeta?! Afundaria no mar sob o peso das hordas de novos hunos, travestidos de turistas, deixando acima das águas a pontinha do campanile da San Marco? Antes fosse, seria mais digno e menos patético.

As propostas em cima da mesa, mencionadas por Salvatore Settis, parecem obra de sádicos metidos a urbanistas, coisa mais comum do que imagina nossa vã filosofia. Um propõe que se aterre e asfalte o Gran Canale, integrando-o à rede de rodovias européias. Outro quer um arco fechando a Laguna – que seria transformada em lagoa – com uma faixa de praias e paredão de prédios, “como Copacabana” – sic. Muito fofa é a idéia de arrasar a Giudeca e fazer ali uma Disneylandia…

Evidente que urbanistas que fazem ou endossam propostas como essas assinam o pacto neoliberal de destruição da cultura humana em troca de lucro. Não falta quem esteja disposto a vender sua alma ao diabo neoliberal. É só pensar nos algarismos com uma dúzia de zeros – em euros – que essas ações demandariam em investimentos e lucros imobiliários que geraria para conhecer sua origem verdadeira. Nem dá prá duvidar que, no contexto neoliberal, vender Veneza para lucrar ao custo de acabar com ela, teria aceitação.

Que Veneza é uma cidade com problemas complexos, delicados e excepcionais, é evidente. A população moradora é cada vez menor – expulsa, literalmente, pela população turista, essa entendida sob várias formas. Não só a da maioria dos turistas, que nela passa alguma horas para fazer fotos a serem postadas no facebook, como também a dos ricaços que aí compram propriedade como investimento, nela passando alguns dias por ano. É uma cidade úmida, onde paredes precisam de manutenção constante – e cara. E outros. Mas isso é motivo para decretar sua eutanásia ?!

Quem conhece um pouco da história da civilização ocidental sabe o papel desempenhado pela Sereníssima República de Veneza – ao lado de Atenas e Roma, poucas tiveram sua importância.

Settis diz que a solução passa, antes de mais nada, pela recomposição da população própria da cidade. Esta teria o comprometimento de, considerando-a sua, encontrar soluções que tomassem em consideração a cidade em si e não o mercado imobiliário internacional. Não sei. Acho que uma população jovem adotaria soluções de mercado, e essas, são as mencionadas.

“Patrimônio Cultural da Humanidade”, no caso de Veneza, não é apenas um diploma da Unesco. Ela é o primeiro item do rol, o mais indispensável, o mais emblemático, o que articula tudo. Perder Veneza será, para o ser humano, ter amputada sua qualidade de gerador de cultura, seu diferencial único das outras espécies animais. Perdida Veneza, nada mais será respeitado pelos donos do planeta.

VENEZIANOS DO MUNDO INTEIRO, UNI-VOS!

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 A GIUDECA: PRÁ QUE ISSO?! MELHOR DEMOLIR E FAZER UMA DISNEYLANDIA NO LUGAR, MUITO MAIS LUCRATIVO!

ALGUMAS LEITURAS RECOMENDADAS

– BENVENUTI, Gino. Le republiche marinare: Amalfi, Pisa, Genova e Venezia. Roma, Il Giornale, 1989.

O apogeu da força das cidades-república italianas.

– BRÉHIER, Louis. Vie et mort de Byzance. Paris, Albin Michel, 1948.

Nessa história do Império Romano do Oriente, fica clara a importância de Venezia no contexto mediterrâneo da Idade Média em diante.

– BRUSEGAN, SCARSELLA & VITTORIA. Guida insólita di Venezia. Roma, Newton Compton, 2007.

É uma história de Venezia pelo anedótico e curioso, mas muito interessante, visto contar coisas pouco sabidas. E pelas excelentes gravuras antigas.

– PIFFARERIO, Paulo & ZANOTTO, Piero. I nizzioleti raccontano, I. Padova, Il Gazzettino, 1996.

Histórias venezianas, usando como motivação as placas com os nomes das ruas (nizzioleti, lencinhos no dialeto vêneto).

– RUSKIN, John. As pedras de Veneza. São Paulo, Martins Fontes, 1992.

O autor é um clássico da preservação. No entanto, é tão chato e obtuso que mesmo seus editores se viram obrigados a suprimir parágrafos com idéias toscas.

– SETTIS, Salvatore. Se Venezia muore. Torino, Einaudi, 2014.

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 O GRANDE RISCO PARA VENEZA NÃO É AFUNDAR NO MAR OU SE DISSOLVER EM MARESIA, MAS A AGRESSÃO DO CAPITALISMO IMOBILIÁRIO MUNDIAL!

FOTOS DA MARIALBA, OUTUBRO 2015

 

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