BREVE EXERCÍCIO DE FUTUROLOGIA URBANA

11 de outubro de 2015 por keyimaguirejunior

Forest Kingdom of Mongo 2

Os exercícios sobre o futuro das cidades não vão além das estimativas de crescimento populacional. O que é perfeitamente ilusório, pretensioso e de má fé: pura manipulação de indicadores de qualidade de vida, que não indicam coisa alguma que não seja do interesse do malfadado neo-liberalismo.

Quem faz o “serviço sujo” de discutir quanto ao futuro das cidades, é a ficção científica tanto nos gibis quanto no cinema. Nos anos trinta e quarenta, houve a fase das cidades climatizadas sob espetaculares cúpulas transparentes, com circulação suspensa ou aérea – e meia dúzia de pessoas circulando pelas ruas. Essa “meia dúzia” é a ilusão fatal, que produções mais recentes desmascaram: o futuro das cidades é aos milhões e dezenas de milhões de habitantes empilhados. Não faz muito tempo, as cidades de milhões eram poucas: New York, Tokyo, São Paulo… hoje são quantas? Nem vou tentar saber, serão dezenas e não me surpreenderia se fossem centenas.

O cinema foi quem chegou mais perto: “2020” mostra cidades apinhadas de gente onde o desespero prá alimentar uma população improdutiva chega à antropofagia. Lembram das bolachas verdes e da cena da maçã murcha guardada num cofre?! Wait and see…

O que está por trás da concentração da população é uma concentração de renda levada ao absurdo: se hoje 1% da população do planeta possui 50% das riquezas, quando acabar a presente crise, essa quantia passará, digamos, a 90% ou mais.

É isso que está por trás do massacre da classe média: eliminar uma faixa de população chata e informada, reivindicante de sua participação. Rebaixá-la para o nível de pobreza, de luta pela sobrevivência. Os ricos estão blindados e fora disso, e estão de acordo entre eles. Prá eles não tem crise, estão protegidos pelo estado que lhes pertence.

A roubalheira política fica aí explicada en passant : o que se rouba vai muito além do que alguém precisa ser mais rico que um sheik do petróleo. Tipo mansões, iates e sei lá que besteiras mais. São ações para levá-los ao tal 1%, fora do qual a alternativa única será, em breve, a miséria.

Exemplo: quando as pessoas abandonam suas casas para morar em apartamentos, estão fazendo esse jogo. O motivo alegado é a “segurança” – e aí entramos no aspecto da criminalidade funcional, isto é, que trabalha inconscientemente para a realização do grande projeto neoliberal: expropriar a classe média da perigosa propriedade. Vendendo seu chão, a pessoa que vai morar em apartamento só é dona de ar. O que, em outras palavras, é NADA. Removido, suponhamos, o edifício, nenhum morador tem além de espaço aéreo para negociar ou se garantir…

Daí a projeção de filmes como “2020” ser a mais provável para o futuro das cidades. Gente pode morar na rua mesmo e se entredevorar para sobreviver. Essa é a cidade do futuro.

Horacio Altuna0005

ALGUMAS LEITURAS PRÁ QUEM QUISER BRINCAR DE FUTUROLOGIA

– ANTOLOGIA. O preço do futuro. São Paulo, Melhoramentos, 1974.

– ANTOLOGIA. La civilization des loisirs. Belgique, Marabout, 1972.

– ANTOLOGIA. Reflexões para o future. São Paulo, Veja, s/data.

– BELLAMY, Edward. Daqui a cem anos. Rio de Janeiro, Record, 1960.

– ECO, Umberto et allii. Entrevistas sobre o fim dos tempos. Rio de Janeiro, Rocco, 1999.

– FOURASTIÉ, Jean. A civilização de 1995. Lisboa, D.Quixote, 1972.

– KAHN, Herman & WIENER, Anthony. O ano 2000, uma estrutura para especulação sobre os próximos 33 anos. São Paulo, Melhoramentos, 1968.

– KEY, Wilson Bryan. A Era da Manipulação. São Paulo, Página Aberta, 1993.

– NAISBITT, John & ABURDENE, Patrícia. Megatrends 2000. São Paulo, Amana-Key, 1990.

– OLIVEIRA, Enoch. Ano 2000, angústia ou esperança? Tatuí, Casa Publicadora Brasileira, 1988.

– PAUWELS, Louis & BERGIER, Jacques. O planeta das possibilidades impossíveis; perspectivas para o terceiro milênio. São Paulo, melhoramentos, 1972.

– URBAN, G.R. & GLENNY Michael (org). O preço do futuro. São Paulo, Melhoramentos, 1972.

Jean-Marc Côté

Fontes das ilustrações

  • ALEX RAYMOND. Flash Gordon in the forest of Mongo. EUA, Nostalgia Press, 1967.
  • HORACIO ALTUNA. Chances. Lisboa, Meribérica Liber, 1987.
  • JEAN-MARC CÔTÉ. El futuro: una visión del año 2000 desde el siglo XIX. Madrid, Alianza Editorial, 1987.
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