O NAVIO NEGREIRO DE CASTRO ALVES E ELVO BENITO DAMO

30 de setembro de 2015 por keyimaguirejunior

1 – CASTRO ALVES: A ESCRAVIDÃO E O ROMANTISMO

A escravidão africana foi a maior migração forçada da história da humanidade: nos 350 anos de impunidade, foram transferidos para o continente americano, segundo cálculos recentes 12,5 milhões de pessoas. O “continente” brasileiro teve a duvidosa honra de ser o receptador de quase a metade desse contingente.

O escravismo acompanha toda a trajetória do ser humano – no caso português, os primeiros africanos chegam em 1441. Passados sessenta anos, o reino português se vê diante da tarefa de povoar terras imensas com sua população insuficiente. O território descoberto não apresentava as cobiçadas riquezas minerais – apenas terra mesmo, mas “em se plantando,dar-se-á nela tudo”. Planta-se a promissora cana-de-açúcar – e o açúcar traz os africanos. Mesmo porque os nativos eram pouco produtivos, e defendidos pelos poderosos jesuítas.

Trata-se de solução típica do capital mercantil: comprar mão-de-obra num continente e vende-la, com lucro, em outro. Hoje sabemos que essa lucratividade era variável entre 3% e 19%, o que não parece tão vantajoso, mas para então, terá sido. Tanto que comerciantes portugueses, ingleses, holandeses e africanos mesmo, enriquecem durante o período.

No entanto, pioneira na industrialização, a Inglaterra percebe que escravo não é mercado consumidor – enquanto trabalhador assalariado, por mais pobre e mal pago que seja, é. Em 1808, é então abolida no império britânico – que passa a uma posição agressiva contra o tráfico. Quando essa política começa a se fazer sentir, pela força de suas esquadras, nos oceanos, há relutância não só nos engenhos e fazendas do novo continente. O Reino de Onim protesta contra o esvaziamento de sua principal fonte de renda.

Não existia a África sob essa denominação, havia a Guiné – de onde ser o nome do país quase sinônimo de escravo: comprava-se “peças de Guiné”, embora Angola tenha sido o maior fornecedor. A economia determinada pelo escravismo era complexa, sendo a mercadoria humana de difícil trato e as características da produção dos engenhos, crivada de especificidades.

No entanto, foi a sustentação da colônia até a descoberta do ouro. Quando isso acontece, no centro do país, já era decadente a economia açucareira: a entrada de Cuba no mercado internacional faz decair os preços a níveis de falência. A mineração absorve e agrava o tráfico, mas, paradoxalmente representa um princípio de mudança nas relações entre senhores – de minas, no caso – e escravos – bateiadores. Libertos e mulatos desenvolvem uma consciência grupal que, nas senzalas dos engenhos, era quase impossível.

Depois da Independência do Brasil – a Inglaterra, contrariando seu “aliado histórico” português, fora a primeira a reconhecer o novo país, mas impusera restrições à escravidão – as pressões internas começam a se avolumar. A Abolição se alia com o Republicanismo e realmente, as forças conservadoras vinham das áreas rurais, onde a produção dependia inteiramente da mão de obra escrava.

O processo abolicionista é “lento, seguro e gradual”: lei de 1831 anuncia que todos os africanos que entrarem no país, são livres. Ninguém se importa com a lei e o escravismo continua – até 1850, quando a Lei Eusébio de Queiróz proíbe efetivamente o tráfico, embora se saiba que continua sob forma de contrabando, em toda a imensa e desprotegida costa brasileira.

O Abolicionismo então ruge com o tigre José do Patrocínio e outros – na sua maioria, românticos como pediam as tendências literárias da época.

Uma das vozes mais eloqüentes do processo será a do baiano de Cabaceiras, Antonio de Castro Alves. Estudante de Direito, vive alternadamente em Recife, Rio de Janeiro, São Paulo – onde escreve, declama, e seduz. O brilho e a inspiração de sua poesia estão entre os melhores representantes dos ideais românticos de seu tempo: os sociais, como o abolicionismo, como os eróticos.

Em 1868, sofre a amputação de um pé, ferido e gangrenado num acidente de caça – e a doença pulmonar que já o afligia, se agrava e termina por matá-lo aos 24 anos de idade, em 1871.

No ano seguinte, é promulgada a Lei do Ventre Livre, libertando os nascidos de mães escravas. Lei mais humanista que efetiva. Como também a seguinte, de 1885, libertando os sexagenários.

Finalmente, em 1888, a Lei Áurea – mais um movimento tentando desvincular a escravidão do Império. Foi frustrada nessa intenção, visto que a República é proclamada no ano seguinte. É um contexto com interligações evidentes: a proclamação deve-se aos militares que, anos antes, se recusavam a caçar escravos fugidos como tarefa abaixo de sua dignidade. Na nossa perspectiva moderna, conquanto tenha atendido ao clamor abolicionista, a lei falhou em dar rumo ao imenso contingente humano que ficava abandonado a si mesmo e às ainda precárias novas formulações de trabalho. Nessa época, já havia políticas visando captar a mão de obra nos campos europeus, onde sucessivas guerras haviam produzido uma pobreza socialmente perigosa.

Fontes de informação

Castro Alves, Obra Completa. Rio de Janeiro, Aguilar, 1966.

– GORENDER, Jacob. O escravismo colonial. São Paulo, Ática, 1978.

– GOULART, Maurício. A escravidão africana no Brasil. São Paulo, Alfa-Ômega, 1975.

– NABUCO, Joaquim. Um estadista do Império. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1975.

Vende-se gente. Revista de História da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro, nº 108, setembro 2014.

2 – O NAVIO NEGREIRO

De Castro Alves e Elvo Benito Damo

Uma boa história comporta mais de um narrador – desde que saibam usar mais de um suporte físico também. É uma verdade que o século XX nos legou, principalmente com novas maneiras de contar velhas histórias.

A narrativa memorizada e recitada nas “longas noites de inverno” europeu, desde Homero, passou pelos jograis e trovadores medievais, por incontáveis gerações de vovós e chegou à Era de Gutenberg. Esta muito cedo aprendeu a desenvolver associações de texto e imagem – sendo um caractere, nada mais que uma imagem a repetir em posições diferentes. Isso, até que o também alemão Wilhelm Busch sintetizou os quadrinhos. Por outro lado, a imagem projetada num plano também vinha sendo perseguida há séculos – quando a tecnologia do final do XIX permite não só a projeção da imagem, como de seu movimento. Portanto, a animação sai na frente, com seu compreensível fascínio, abrindo caminho para o cinema.

Tanto a animação quanto o gibi trilham seus próprios caminhos, ainda que inseparáveis na troca de tecnologias e temas. A recíproca também existe, ainda que em fluxo menos intenso: o gibi se apropria de produções cinematográficas. A imaginação se dava melhor no desenho dos gibis – não há limites ao que um desenhista pode lançar no papel com suas canetas. Mas a tecnologia cinematográfica chega no mesmo ponto e o supera – não há mais limites, obrigando os autores de gibis a desenvolver uma linha literária para público mais exigente.

Mas as versões quadrinísticas de obras literárias são bastante antigas – não tenho pistas para saber quanto. No Brasil, desde os anos quarenta, a EBAL publica a prestigiosa “Edição Maravilhosa”, com quadrinizações de romances famosos. Tanto a própria EBAL quanto outras editoras lançam várias séries, sempre com relativo sucesso. É uma “questão de princípios” para essa editora o prestigiamento de artistas e escritores brasileiros, estes estão presentes entre os importados.

A partir do “Contrato com Deus”, de Will Eisner (o copyright americano é de 1978), o mercado editorial embarca nas graphic novels, uma reformulação do “álbum” da tradição européia de gibis

Esse formato se presta melhor que a revista/gibi à adaptação de obras literárias. A EBAL produz e publica, em 1981, um trabalho limiar: a quadrinização de um não-romance, “Casa Grande & Senzala”, com desenhos de Ivan Wasth Rodrigues.

De Will Eisner prá cá, muita água passou por baixo da ponte – mas um dos fatores primordiais dos novos tempos é a passagem do gibi de artigo de banca de revista para as estantes das livrarias. Se, por um lado, as tiragens ficam mais caras e menores – inclusive pelo recente confronto com outras mídias – por outro abre espaço para trabalhos mais elaborados, literária como artísticamente. As comic shops são as legítimas herdeiras das bancas, não as livrarias com exíguas estantes para os quadrinhos em moda, e cada vez perdendo mais espaço para os eletrônicos. E nessas, álbuns e graphic novels com adaptações de literatura para o gibi, são uma presença importante, sejam dos autores nacionais sejam traduzidos.

É nessa vertente que se insere o “Navio Negreiro” de Castro Alves e Elvo Benito Damo. Tanto quanto sei, embora a estética da xilogravura nordestina tinha sido usado por Jô Oliveira em “A guerra do Reino Divino” (1976) – ainda não se fez uma adaptação de obra literária para os quadrinhos em xilogravura. Inclusive o texto, sim, gravado letra por letra manualmente na madeira. As duzentas páginas, concebidas em desenho, foram entalhadas na madeira, impressas e organizadas numa seqüência quadrinística. Reduzidas de seu formato original para 10 X 15, foram então organizadas para contar uma história em quadrinhos.

Observação:

Vale a pena catar em sebos a peça “Liberdade liberdade”, de Millôr Fernandes – tem em livro, vinil e CD – para escutar Paulo Autran recitando algumas estrofes do Navio Negreiro. Garanto quer vale muito mais do que custa.

3 – Making of…

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DESENHOS E MATRIZES

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SECAGEM DAS CÓPIAS

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O ATELIER E O AUTOR – CCC, CURITIBA – 2015

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