O ALMANAQUE DOS HERÓIS: o mais erótico dos almanaques

20 de setembro de 2015 por keyimaguirejunior

ALMANAQUE DOS HERÓIS: O MAIS ERÓTICO DOS ALMANAQUES

1 – Contexto: “A Era dos Almanaques”

O fim de ano era uma maravilha para os leitores de gibi: nas bancas e livrarias, pilhas de espetaculares almanaques, aguardados durante todo o ano, prometidos pelas editoras…

Era uma concorrência de alto nível, cada casa editora fazendo seu melhor para o momento. Alguns mantinham o formato da revista, apenas publicando mais páginas, mas “os grandes almanaques” eram realmente poderosos:

– Almanaque do Globo Juvenil Mensal, que circulou de 1942 a 1952 – Editora Globo, depois RGE – ver post em fevereiro de 2015 neste blog;

– Almanaque do Tico Tico, da Editora O Malho, que circulou de 1916 a 1958 – ver post em abril de 2015 neste blog;

– Almanaque dos Heróis, da Editora Brasil América Ltda (EBAL), que foi publicado apenas em 1948 e 1949;

– Almanaques de Vida Infantil e Vida Juvenil, da Editora Vecchi, em pesquisa para futuro post neste blog.

DSCN1033

2 – O Almanaque dos Heróis

Era, portanto, o representante da EBAL nesse contexto de grandes, e é difícil entender porque não durou mais. A editora caprichou – como em tudo o que publicava: formato grande (26,5 X 31,5), capa dura, diagramação cheia das novidades e detalhes. Nenhuma publicidade, páginas dos desenhos inclinadas em relação às páginas do álbum, informações tradicionais dos almanaques: calendários, signos, outras. Muito interessante o “Fichário dos Heróis” elencando as aventuras do “personagem do mês” publicadas na revista.

A maior parte das “invenções visuais” veio da própria revista, como a inclinação da página desenhada em relação à do álbum. Os espaços triangulares assim criados nas margens são usados para numeração das páginas, a marca da revista e vinhetas decorativas.

Mas também é muito interessante o “rompimento” com os quadrinhos quadrados ou retangulares, todos iguais, que denunciam a origem nas tiras diárias ou páginas dominicais, adaptadas para gibi. No caso do Herói, páginas são concebidas como um todo, cenas irregulares, quadrinhos variando de tamanho e de contorno.Esse tratamento dos quadrinhos, adotado pelos desenhistas do Herói, sempre fecha o retângulo da página desenhada e contribui para dar dinamismo e movimento à narrativa – que, sendo sempre histórias de ação, se beneficiam da liberdade de configurar a moldura da cena.

No Almanaque dos Heróis, só a história “Freddy e Nancy no circo” é tão regular e certinha. Aliás, sempre que me deparei com essa história, procurei por uma assinatura ou tira de copyright com data – e nunca achei. Suponho que seja mais antiga que as demais histórias desses almanaques.

DSCN1034

3 – Os heróis e heroínas do Almanaque dos Heróis

A EBAL manteve os nomes dos autores junto ao título – respeito nem sempre encontrado nas editoras brasileiras. Mas, por alguma razão, esses nomes têm cara de pseudônimos. Mesmo porque, na maioria das histórias, há muita semelhança de traço, composição e narrativa. É claro que isso pode ser creditado ao pertencimento dos autores a um mesmo período, ou “ciclo” criativo ou qualquer outro fator homogeneizante. Dá mesmo prá pensar num “estilo”, em sentido amplo.

Mas o grande atrativo da revista e de seus almanaques, eram as heroínas. Explicações, deve haver muitas: descriminalização do corpo feminino deve ser o principal. Estamos nos anos 40, inícios dos 50: já devia estar em gestação a década de 60, dos hippies, do amor livre, mini-saia e adjacências.

As heroínas são criaturas esplendorosas na forma física e na performance: encaram selvas africanas e indianas em escassos shortinhos, mini-vestidos esvoaçantes, biquínis (grandões, é verdade…) e salto alto. Cavalgam qualquer animal, navegam veleiros piratas, voam em aviões a hélice – sem desmanchar o penteado e sem perder o charme e a pose de pin-up girls.

Acho curioso perceber como essas personagens e seus autores tiveram curta trajetória: Tarzan surgiu antes dessas mocinhas invadirem sua selva e durou mais que elas. Mesmo os autores – todos competentes – que relaciono abaixo, nenhum entrou para o “panteão dos clássicos”.

– Tigrana de Alan O’Hara                – Sheena de Morgan Thomas

– Cabelos-de-fogo de John Star       – Luana (Kionga) de Frank Riddell

– Cap´.Audaz de Stuart Drake         – Jud (ZX-5) de Major Thorpe

– Vilã de Rip Carson de (?)              – Kitty de Robert Benton

– (?) em Wambi de Roy Smith         – Vilã em Patrulheiros do ar de

– Minnie, Lao-Tay e Paulo de             R.W.Colt

Skipper Martin

Muito interessante é uma personagem caricata – Ginger, de Bill Gibson.

Houve tentativa de inserir nos almanaques algumas histórias curtas, humorísticas, como a excelente Blondie, um desconhecido Zé Malvado e uma Misteriosa Dona Boa – a confusa assinatura parece ser Wanda Graham. A personagem comparece em outras revistas de outras editoras, mas tão esporadicamente e tão pouco valorizada que é difícil rastrear informação.

No almanaque para 1949, comparecem super-heróis, ausentes no ano anterior: Superman (história da origem), Batman, Joel Ciclone e o Falcão. Olha só a prepotência: o cara já chega dando ordens! Na capa, a legenda: “Comandado por Superman”!

Super-heróis são uma vertente comercial das HQ: superdotados, arrogantes, maniqueístas – americanos, enfim. Os pressupostos dos heróis são a coragem e a habilidade; do super-herói a força havida por acidente ou acaso, isto é, não merecida. Nesse sentido, Batman é o menos intragável – apesar das outras conotações que não interessam aqui.

Mas sua invasão é um dos motivos a considerar no declínio dos heróis.

SHEENA0016WAMBIPATR.DO AR0002

4 – Observação e algumas leituras

Do Almanaque dos Heróis para 1948, tenho apenas uma copia Xerox fornecida pelo amigo Jorge Barwinkel, que a essas horas mateia lendo gibi sentado numa nuvem…

4.1 – SADOUL, Jacques. L’enfer dês bulles. France, J-J Pauvert, 1968.

4.2 – FEIFFER, Jules. The great comic book heroes. NY, Bonanza, 1965.

4.3 – O’BRIEN, Richard. The golden age of comic books. NY, Ballantine, 1976.

4.4 – Golden age greats. EUA, Paragon, 1995. (Volumes 6,8 e 9)

FOFOCA: será que o autor dos “Patrulheiros do ar” não tem vergonha de encarar o Will Eisner lá nos Felizes Campos de Caça ao Gibi?

                                 

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: