OS GRANDES TEATROS DO ECLETISMO BRASILEIRO

30 de agosto de 2015 por keyimaguirejunior

Teatro e sociedade

De toda a arquitetura eclética produzida no Brasil – de sua introdução em 1816, até meados do século XX – os teatros sem dúvida são a parte mais importante. Nas maiores cidades regionais, capitais de províncias e de estados, ocupam lugar de destaque em praças e ruas centrais. Com freqüência, em seu entorno há um coreto, esculturas, equipamento e concentração comercial.

São o atestado urbanístico da preponderância da arte teatral na sociabilidade do tempo. Em linhas gerais, localizam-se entre a retração das atividades religiosas como centro da vida social urbana e o ingresso do cinema como atividade de lazer mais prestigiosa.

A literatura brasileira contém muitas referências sobre esse aspecto do teatro na vida cultural e social – como sempre, Machado tem páginas brilhantes. Mesmo quem não ia assistir ao espetáculo – ópera, peça ou conferência – ia para ver a chegada dos espectadores: sempre havia a possibilidade de uma beldade mostrar o pé na descida da carruagem.

(Veja-se o texto de Thereza Lacerda sobre a cantora Pepa Ruiz nos arquivos referentes a dezembro de 2014 neste blog.)

A arquitetura dos grandes teatros ecléticos brasileiros demonstra sua importância para as cidades: numa rua próxima ou mesmo na praça central. O vocabulário neoclássico em uso no período contribui para a desejada monumentalidade, combinado com as demais vertentes ornamentais.

Observação metodológica

Se toda proposta tipológica deve ser encarada apenas como hipótese de trabalho – e portanto como recurso metodológico que pode vir a ser confirmado ou não – no caso presente, deve ser encarada com mais cautela ainda. Uma documentação mais precisa pode causar mudanças ou mesmo inutilizar o que foi intuído a partir de observação quase empíricos.

Principalmente, porque se baseia na compreensão volumétrica externa – poucos desses teatros pude visitar inteiros, e menos ainda, com quem lhes conhecesse a arquitetura e a história. Menos ainda, tive acesso aos projetos, documentação e biblografia pertinente. Uma pesquisa formal a nível de tese – que não sei se existe – poderá confirmar ou negar a proposta.

Mesmo as datas, são baseadas em informações de fontes as mais variadas – não há como saber se dizem respeito ao projeto, início das obras ou inauguração. Em se tratando de obras complexas e onerosas, o próprio período de construção pode ser muito extenso.

Não pude achar correspondência entre os tipos propostos e as datas de construção. O mais simples é o primeiro e o mais complexo o terceiro, mas não há como adivinhar um processo evolutivo entre eles. Há ainda a considerar que possam ter passado por profundas alterações e ampliações, fazendo trânsito entre os modelos.

Finalmente vale assinalar que nenhuma tipologia deve trabalhar apenas com os modelos que assumam a totalidade das características de cada tipo estudado – apenas com uma parte, e apenas preferencialmente, a maior parte delas. Transições entre os modelos demonstram uma flexibilidade conveniente do ponto de vista da solução arquitetônica; sua adaptabilidade às contingências sociais e culturais.

TIPOS TEATROS0002

Primeiro tipo

A tabela precedente assinala três teatros que se podem encaixar como pertencentes a um primeiro modelo: Ouro Preto, Sabará e Lapa.

São volumes contidos em lote urbano comum e, portanto, de pequenas dimensões. Estão ladeados – ia dizendo “prensados” – entre outras construções, residenciais na origem.

A entrada se faz por um saguão de pé direito duplo, pelo qual se ingressa na platéia horizontal. Também no saguão há escadas de acesso ao(s) nível(is) dos camarotes – um ou dois. A ventilação se processa através de treliçado, com tiragem pelo telhado. Os cenários são deslocados apenas horizontalmente. Nas laterais do palco, atrás das coxias, ficam os camarins dos artistas.

TIPO 1

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Teatros da Lapa (1972, antes do restauro) e de Sabará (1982)

Segundo tipo

Conheci apenas dois teatros nesse modelo – que, no entanto, me parece importante pela habilidade da solução. Não se pode excluir que existam outros, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, a cujo clima parece que respondem melhor em épocas antes do ar condicionado.

Os teatros de Natal e Fortaleza localizam-se com mais largueza na malha urbana, com espaços frontais que parecem almejar a presença de aglomerações de pessoas tanto quanto a monumentalidade.

No bloco dianteiro fica a entrada e acesso aos dois ou três níveis de camarotes – e, provavelmente, serviços administrativos e espaços funcionais. Segue-se um espaço aberto em pátio, ladeado pelas circulações em dois níveis para o bloco da platéia, ao fundo. Esta é horizontal, à sua frente a caixa do palco, camarins e cenários.

O que me parece mais interessante é que a ventilação se dá – ou é reforçada – por treliçados abertos para o pátio. Muita gente, num espaço fechado no calor nordestino, precisa ter vários recursos na renovação do ar.

TIPO 2

8-24-2015_019Teatro de Natal (Foto 1982)

Terceiro tipo

A ele pertence a maior parte dos grandes teatros ecléticos brasileiros. Os três protagonistas principais são o de Manaus, Belém e Recife, este projetado por Vauthier. Os demais assemelham-se pela volumetria que permite adivinhar a pertinência ao modelo proposto.

O volume é único, diferente antes de mais nada do primeiro tipo pelas dimensões monumentais. Localizam-se como regra diante de praça ou dentro dela; ou logradouro espaçoso. Sobre o saguão majestoso, provido de escadaria, fica o espaço chamado de “salão nobre”, para apresentações restritas a pequeno público. A escadaria para acessar a platéia permite que esta seja inclinada em direção ao palco. Os camarotes são dispostos em até cinco níveis. A tiragem do ar acontece pelo tambor da cúpula ou defasagem na cobertura. O volume referente ao palco permite movimentação vertical dos cenários, e comporta também os camarins.

TIPO 3

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Teatros de Manaus e Recife (Fotos 1982)

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Teatros de Penedo (Foto de 1982) e Porto Alegre (Foto de 1990)

Gatto Musa

Escanerizações da Marialba, aqui no Teatro Santa Isabel de Recife, 1982)

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