O FERRO NA ARQUITETURA BRASILEIRA

7 de agosto de 2015 por keyimaguirejunior

O Modernismo ainda não havia aflorado na cultura arquitetônica do país quando surgem, nas cidades brasileiras, grandes construções nas quais o ferro predomina em todos os aspectos do partido adotado. São privilegiadas, por óbvias razões logísticas, as cidades litorâneas. Há mais de uma “lenda urbana” sobre edifícios entregues pela tripulação do navio transportador, na cidade errada – por exemplo, o Mercado del Puerto de Montevideo, teria sido encomendado por Buenos Aires.

Mas a afirmação dessa tecnologia não chega com a simplicidade de um navio atracando no porto.

A origem é a matriz do capitalismo industrial, vivendo também um momento de domínio do capital comercial. É a Inglaterra e seus vizinhos, com suas minas de ferro e carvão, capitais para investir em equipamento e rede ferroviária lançada. A poderosa frota mercante inglesa tem capacidade para entregar uma construção pré-fabricada em ferro, em qualquer lugar do mundo – a um custo competitivo com as construções desses países periféricos.

Não esquecer que o final do século XIX corresponde à pressão inglesa pelo fim do tráfico escravagista – menos por motivos humanitários que pela necessidade de abrir mercados de consumo. A incombustibilidade do ferro – numa época de gigantescos incêndios, como houve em Londres e São Francisco – a par da facilidade de montar, desmontar e trasladar – e do carisma de modernidade – reforçam o ciclo das construções em ferro pelo mundo.

Só haverá retração com o ingresso do Modernismo e seu material privilegiado, o concreto. E também a entrada, no mercado criado pelos ingleses, dos concorrentes – principalmente Bélgica e França – com equipamento industrial mais aperfeiçoado e mais competitivo.

O Brasil, embora tenha feito algumas tentativas, só terá produção de ferro importante após a Segunda Guerra. No Paraná, por exemplo, desde o final do século XIX as fundições Tupy e Müeller atendem com componentes de pequeno porte a construção das ferrovias.

O mais substancial das importações é pouco visível: equipamento urbano. Tubulações e caixas dágua, fontes e bebedouros, quiosques e coretos, postes de luz, luminárias e relógios – itens estritamente utilitários, mas houve também estações ferroviárias, estufas, mercados públicos e casas. Acredito que o mais importante, como arquitetura, tenha sido o Teatro José de Alencar, em Fortaleza.

No entanto, essas referências são a construções resolvidas inteiramente em ferro: o material teve largo emprego como complemento nas edificação de alvenaria do período eclético: marquises, colunas, gradis entre outras.

A construção era projetada a partir de catálogos de peças fornecidos pelas indústrias, sendo a mais famosa a MacFarlane. Fabricadas então na Europa, eram desmontadas, transportadas e remontadas em seu lugar definitivo.

Mas não é uma participação decorativa, conquanto complementar. Penso em espaços interiores, como a loja Paris n’América, em Belém; nas entradas secundárias do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro; e na gigantesca Casa da Detenção do Recife – poderiam ter sido resolvidas com alvenaria, mas o uso do ferro data as intervenções e as complementa com elegância.

As fotos são dos remanescentes que pude visitar. Algumas se ressentem da dificuldade em encontrar ângulos favoráveis, como é o caso dos mercados de Manaus e Belém, por permanecerem em pleno uso.

Caixas dágua em Belém

Essa ilustração é de Percy Lau, para o livro de Leandro Tocantins, “Santa Maria do Belém do Grão Pará”. (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1963). Foram demolidas, e não sei o destino de sua equivalente em Pelotas, no Rio Grande do Sul.

Caixas dágua Belém 2

     Deixei de incluir o manilhamento de água ainda operacional entre os Mananciais da Serra e Curitiba. Sei que foram colocados em 1908, mas não estou certo quanto à procedência da tubulação.

Mercados públicos de Manaus e Belém (“Ver-o-peso”)

Sendo o primeiro de 1883 e o segundo, de 1901. As sucessivas pinturas, com tintas espessas para proteção, dificultam a identificação das marcas dos fabricantes. Ambos seguem o mesmo partido: um bloco frontal de alvenaria, em arquitetura eclética; com os pavilhões de ferro em posição transversal. Procedência, segundo a bibliografia, inglesa.

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Estações ferroviárias em São João del Rey e da Luz, em São Paulo.

A mineira é de 1881; a paulista de 1901. Esta, teve como fornecedores vários fabricantes ingleses em várias etapas. É a maior construção de seu tipo no país.

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Estação ferroviária da cidade de Bananal.

Corresponde ao apogeu do ciclo regional do café, em 1889. É um sistema de placas da indústria belga Danly, que permite a construção inteiramente metálica, com pouca participação de outros materiais, por exemplo madeira nos pisos. O sistema de ventilação entre as placas, em que o ar entra por baixo – pelos rodapés – e sai sob o beiral, torna o espaço utilizável mesmo no clima abafado da região.

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Teatro José de Alencar, em Fortaleza

A primeira impressão, é que o projeto foi feito com intenção de utilizar todas as peças disponíveis no catálogo do fabricante… Escocês de 1910, se fosse uísque, já teria passado do ponto…

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Armazéns do Porto, em Porto Alegre.

Também sistema de placas, de origem francesa ou alemã, construídos à margem do Guaíba entre 1914 e 1919.

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Real Gabinete Português de Leitura

Inaugurado pela Princesa Isabel cerca de uma década após a Independência, é um grande acervo de obras raras, principalmente portuguesas. Acredito que seja a mais importante arquitetura manuelina no Brasil.

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 Coretos em Paranaguá e Manaus.

Observar, na medida do possível, a marca do fabricante na coluna do coreto de Manaus. Não tenho as datas.

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Marquise/sacada no Palácio do Catete.

O Palácio Nova Friburgo, originalmente residência burguesa, serviu como palácio presidencial até a inauguração de Brasília. Interna como externamente, é marcante a presença do ferro.

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OBSERVAÇÕES

1 – A maioria das fotos é de 1982 e 1983, e foram escanerizadas pela Marialba.

2 – Este post usa informações do grande clássico sobre o tema:

GOMES DA SILVA, Geraldo. Arquitetura do ferro no Brasil. São Paulo, Nobel, 1986.

 

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