O SAPATEIRO DO SÃO FRANCISCO

28 de julho de 2015 por keyimaguirejunior

Gatto Kosciuszko

(À moda do José Carlos Fernandes – Desenho da Marialba)

Voltando para casa, eu passava diante daquela mínima oficina. Ficava no Porão da Sociedade Polonesa e abria para a rua apenas uma porta de folha dupla. Sem janela, ele trabalhava apenas com a luz de fora – embora no teto, estivesse pendurada uma fraca lâmpada incandescente, que iluminava áreas misteriosas do porão, imagino que depósito de materiais, ferramentas, serviços prontos e por fazer. Sendo a rua muito íngreme, o porão era a compensação do nível do piso principal, começando com uns dois metros de altura e terminando em poucos centímetros. Passar diante daquela porta e vê-lo trabalhando lá dentro, sentado, era necessariamente algo que se fazia com vagar – escalando a inclinação da rua. Ele lançava seu olhar padrão para passantes e voltava a se concentrar nos calçados.

A casa em si acumulava várias funções, que aparentemente conviviam em boa paz. Uma noite por semana, minha avó ia assistir filmes japoneses – acho que assistiu os filmes de Kurosawa antes de ele ser reconhecido como o maior cineasta de todos os tempos. Eram filmes passados para os imigrantes das primeiras levas, não sei com que iniciativa ou patrocínio. Na lateral da casa, havia uma pequena cozinha – na qual eu ia buscar marmita muito simples, quando em casa não havia tempo para fazer o almoço. Nos fins de semana, os poloneses ensaiavam suas danças tradicionais – eu escutava, de fora, as animadas melodias eslavas. Outras atividades aconteciam ali – mas o que sempre estava aberta, era aquela oficina de sapateiro no porão.

O contraste da casa era forte com a sociedade italiana, do outro lado da rua, e de frente para a praça. Esta, edifício de ecletismo neoclássico, imponente, que chegou a ser seqüestrado durante a guerra. Bem depois de terminada esta, foi devolvido a seus legítimos donos. Posição muito privilegiada, no centro da área histórica da cidade.

Eu não me admirava com a presença daquele homem calvo, barrigudo e pachorrento, sempre sentado em seu banquinho diante da minúscula e resistente mesa de trabalho. Minha vida de criança urbana, já sujeita aos medos e neuroses relacionados a esse duvidoso privilégio, não variava: além de ir à escola alemã, pouco aproveitava da bonita praça daquela pacata cidade dos anos cinqüenta.

Ele era muito hábil no seu ofício: a família mandava sempre os calçados precisados de conserto – sendo eu o portador preferencial. Tanto mais que, os sapatos que mais estragavam, eram os meus.

Sem levantar do banquinho, apenas virando um pouco mais na direção da porta de entrada – e apresentando as inúmeras manchas do avental de tecido grosso – ele examinava o calçado e sugeria a troca do tacão, a substituição da sola inteira ou da conhecida “meia-sola”, capaz de prolongar por alguns meses a vida de um sapato escolar. Em poucas palavras, feito o diagnóstico, dava o preço e o prazo. Este nem sempre cumprido, tanto que várias vezes, tive que esperar alguma finalização.

Alguns serviços eram rápidos, feitos na hora, enquanto o freguês esperava: um reforço com pequenas tachinhas metálicas pretas ou uma tintura no bico esfolado, esta com uma tinta de cheiro característico muito agradável. Eram alguns minutos admirando sua agilidade com as ferramentas – pagava os poucos cruzeiros e ia embora.

Quando foram colocados à venda uns reforços para a extremidade dos saltos femininos, ele ficou revoltado. Levei para colocação os sapatos de uma parente e ele resmungou:

_ Vou colocar porque é prá sua família, que é freguesa. Mas isso não se faz, sapateiro também precisa viver!

Mais tarde resolveu o problema de maneira muito simples: passou a vender ele mesmo os tais reforços…

Minha curiosidade infantil era atiçada pela presença de vários pares do que me pareciam sapatos de madeira maciça, de modelos e tamanhos variados. Um dia venci a timidez e perguntei o que eram. Respondeu em poucas palavras que eram formas para fazer sapatos sob encomenda.

_ Então o senhor sabe fazer sapatos, não só consertar?!

Respondeu que sim, na verdade aprendera o ofício fazendo sapatos, todo o processo – mas que, com o tempo, as pessoas tinham deixado de encomendá-los, preferindo comprá-los prontos. E ele ficara reduzido, de fazedor, a consertador de calçados…

Nunca o vi abrindo a porta de manhã – quando me acontecia de ir buscar a marmita, era hora do almoço e ele já estava trabalhando desde cedo. Mas algumas vezes, o vi encerrando o expediente na oficina: tirava o avental encardido que jogava na mesinha, apagava a luz, passava o cadeado na porta e descia a rua – não ia na direção da praça Garibaldi onde eu morava, mas para o centro da cidade. Devagar, mergulhado em pensamentos profundos. Suponho que pegasse algum ônibus que o levasse ao bairro onde morava.

A presença tranqüila do sapateiro contrastava com outro consertador que atuava nas imediações. No caminho para a escola, eu passava diante da oficina de guarda-chuvas. Este falava demais, fazia muito alarde de suas habilidades e reclamava muito de todos. Ao contrário do outro em sua habilidade explícita, nunca o vi trabalhar, ainda que para o menor ajuste. Estava sempre no balcão atendendo e dava o preço antes de explicar o trabalho a ser feito. Quando alguém esquecia de buscar o serviço – em tempos de estiagem, digamos – ficava muito irritado, destratava as pessoas, queria aumentar o preço combinado, o que levava muita gente a desistir da sombrinha – que era colocada à venda.

Na cultura japonesa antiga, trabalhar com o que se relaciona aos pés é ocupação muito humilde, já os ofícios que tratam da cabeça são dignificantes. Então a relação entre esses dois profissionais era contrastante: o sapateiro passava uma idéia positiva, como se fosse a identidade secreta de algum super-herói – e o outro totalmente desagradável. Talvez minha aversão aos guarda-chuvas venha daí.

Na minha imaginação de criança, o sapateiro era uma espécie de pensador, um filósofo de tipo grego, que à noite estudava livros antigos e raros em algum sótão alugado – e os dias na oficina, consertando sapatos para viver, elaborando altas teorias sobre os destinos da humanidade… Quando me dei conta de que trabalhava também nas tardes de sábado, essa impressão ficou mais forte: certamente, ele precisava ficar todo aquele tempo sentado na oficina pensando, enquanto o sol brilhava e as pessoas passavam sob as grandes árvores (derrubadas aí por 1970); ou a chuva caía do céu cinzento e corria em riachos pela Ébano Pereira abaixo, sobre as pedras do calçamento…

Durante os muitos consertos rápidos aos quais assisti, quase não houve conversa – talvez eu devesse confirmar se minhas suspeitas eram corretas ou qualquer coisa totalmente diferente. Mas hoje estou convencido de que foi melhor me abster de especulações: vai que era uma pessoa vulgar, distante da minha imaginação.

Já teria abandonado minha memória há muito tempo…

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