BELMONTE: O CHARGISTA E O ILUSTRADOR

9 de julho de 2015 por keyimaguirejunior

     “O verdadeiro espírito paulista perdeu, com o desaparecimento de Benedito Bastos Barreto, não um soldado apenas, mas um batalhão das suas forças de resistência.” (Paulo Duarte)

Belmonte (1897/1947) foi em São Paulo o que J.Carlos foi no Rio de Janeiro: o modelo a ser seguido, de perto ou de longe. O pequeno mundo da imprensa brasileira da primeira metade do século XX era não apenas polarizado, mas na prática restrito a Rio d Janeiro e São Paulo. A troca de influências era inevitável. Tanto as internas quanto as externas, verifica-se facilmente, tinham assimilação em graus variados mas sempre presentes.

O próprio Belmonte dirá: “J.Carlos foi o pai de todos nós.” No entanto, por amor, teimosia ou ideologia, manteve-se sempre no ambiente paulistano, em que pesem os convites para trabalhar no ambiente refinado da Côrte.

E aqui discordo do grande Herman Lima, que, no verbete sobre Belmonte na ‘História da Caricatura no Brasil’ diz: “ mesmo (as caricaturas) mais divulgadas (de Belmonte) se ressentem sempre da falta de espontaneidade do traço…” e mais adiante: “na maioria de seus trabalhos, em conseqüência da indisfarçável laboriosidade do desenho, que nunca lhe saía das mãos aparentando imprevisto e espontaneidade…”

Não há dúvida sobre ser uma verdade, mas não se pode atribuí-la apenas ao desenho belmontiano. É uma característica de toda uma época – inclusive perceptível em J.Carlos – que deve ser pensada no contexto técnico da arte gráfica de então. Raros são os autores sem o traço preciso, seguro e firme, com texturas bem definidas e distribuição de chapados para equilibrar as composições. É assim pelo mundo inteiro, e decorre do sistema de clichês de zinco: se, por um lado, favorece o desenho sobre a fotografia nas publicações, por outro limita os meios tons em ambas as expressões. Estes – os meios tons, os esbatimentos – são elaborados a partir de um pontilhismo difícil e moroso, ou de micro texturas igualmente. Há também a aplicação de retículas na gráfica, um processo químico que fez as alegrias e a fama de muito artista de cartum e de quadrinhos. Todas essas técnicas, Belmonte utilizou com precisão e maestria.

Este post se baseia em duas vertentes da produção de BBB, referenciadas ao fim do texto.

A primeira é aquela que fez a fama de Juca Pato: a charge política, publicada principalmente na “Folha da Manhã” e na “Folha da Noite”, antecessoras da “Folha de São Paulo”. Não só a tecnologia gráfica, mas o próprio esquema jornalístico, de produção rápida quando não emergencial, exige do autor um trabalho dominado pelo traço, em composições sem complexidade.

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     O “grosso” da charge belmontiana foi ao longo da Segunda Guerra – e dá conta das minúcias da armação e da evolução do conflito. Acontece tudo na Europa e Leste Europeu – hoje temos mesmo dificuldade em acompanhar o desenvolvimento das situações políticas. Elas envolvem países que até recentemente estiveram ocultos atrás da Cortina de Ferro, sob a denominação genérica de “União de Repúblicas Socialistas Soviéticas”. Belmonte as retrata como charmosas mocinhas, sendo os grandes países, truculentos gigantes…

Seria um belo trabalho, acadêmico ou não, e de extremo interesse, alinhar cronologicamente as charges de Belmonte para contar a história – nada imparcial – do conflito. Certamente, surgiriam minúcias das relações internacionais que andam pela borda do precipício do esquecimento… Olha aí a situação da Grécia.

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     A segunda vertente, é a ilustração, onde o autor foi igualmente prolífico: foi um dos artistas que ilustraram os livros infantis de Monteiro Lobato.

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     Chegou a ter, mesmo, sua própria produção dedicada às crianças, na qual era autor de texto e desenhos.

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     Ilustrou um curioso trabalho, o “Livro do soldado brasileiro”, sob o pseudônimo de “Soldado nº 119”. Era destinado aos recrutas vindos do interior prestar serviço militar nas grandes cidades, para alfabetizá-los. Mas tinha uma pretensão mais ampla: “… e quando deixares o quartel, leva-o para tua terra. Com ele ensina teus irmãos, teus parentes, teus amigos, todos os que em tua casa forem analfabetos.” Como é evidente, o teor geral é didático-patriótico, mas não raro as ilustrações viram cartum.

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     Com toda essa produção, parece-me que o melhor de Belmonte são as ilustrações para textos não-infantis. É onde ele mais se aproxima, qualitativamente, do pai J.Carlos. Tanto trabalhando com branco & preto nos “Versos de Trilussa”, como com uma cor auxiliar em “Meu amor! Adoro-te”, seu desenho adquire refinamento e elegância. Todos os recursos gráficos possíveis para sua época, emprega com habilidade e virtuosismo. O esmero no traçado das mocinhas de sua geração, é mais uma herança j.carliana…

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Quanto ao Belmonte pintor, conheço pouco, somente as reproduções no catalogo do MASP adiante referenciado. As gravuras baseadas em Rugendas, são um mistério para mim. Mas pela amostragem acho que, como pintor, Belmonte continua sua sina de ilustrador… A Arquitetura é sempre bem tratada por ele, seja na vertente que for:as perspectivas internas e externas são sempre perfeitas, dão impressão de terem sido construídas com ponto de vista, linhas de fuga, horizonte…

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BIBLIOGRAFIA DESTE POST

– ALMEIDA LEITE, Sylvia Helena Telarolli. Chapéus de palha, panamás, plumas, cartolas; a caricatura na literatura paulista 1900/1920. São Paulo, UNESP, 1996.

– BELMONTE. No reino da confusão. São Paulo, Folha da Manhã, 1939.

– BELMONTE. Musica, maestro! São Paulo, Folha da Manhã, 1940.

– BELMONTE. Meu amor! Adoro-te São Paulo, Frou-frou, 1926.

– BELMONTE. A guerra do Juca. São Paulo, Folha da Manhã, s/data.

– BELMONTE. Caricatura dos tempos. São Paulo, Melhoramentos, 1948.

– BELMONTE. Livro do soldado brasileiro. Rio de Janeiro, Imprensa Militar, 1942.

– BELMONTE. A cidade de ouro. São Paulo, Cia.Ed.Nac., 1940.

– CATÁLOGO. Belmonte presente. São Paulo, MASP, 1978.

Ilustradores na obra de Lobato. IN: LOBATO, Monteiro. Obra infantil completa. (Edição Centenário). São Paulo, Brasiliense, 1982.

– LIMA, Herman. História da Caricatura no Brasil. Rio de Janeiro, José Olympio, 1963.

– LOBATO, Monteiro. O circo de escavalinho. São Paulo, Cia.Ed.Nac., s/data.

– LOBATO, Monteiro. A reforma da Natureza. São Paulo, Cia.Ed.Nac., 1941.

– TRILUSSA/PAULO DUARTE/BELMONTE. Versos de Trilussa. São Paulo, O Estado de São Paulo, 1928.

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 OBSERVAÇÃO:

Os itens “Musica,maestro”, “No reino da confusão” e “Meu amor!Adoro-te” foram cedidos pelas vizinhas Alba Maria e Maria Alice Leone, às quais o Keynews agradece.

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