COMO APRENDEMOS A ARRANHAR O CÉU: O SOBRADO NO ADENSAMENTO URBANO

23 de junho de 2015 por keyimaguirejunior

A lógica do vertical urbano não tem engenhosidade humana, apenas sede de lucro: qualquer João-de-barro faz o ninho em cima de outro, que já tenha encontrado um bom lugar num poste…

A verticalização das cidades é fenômeno capitalista, decorre da valorização imobiliária e disputa do espaço urbano como fator de lucro. Nas cidades brasileiras, essa prática deletéria é inaugurada no Recife holandês. A cidade é prensada contra o mar pelos portugueses, hostis, que dominam o interior a partir de seus engenhos. Outras cidades cedo entram no processo: Salvador e São Luis, entre elas.

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Sobrados de Salvador – Fotos de 1974

“(os holandeses aumentaram) a projeção vertical dos sobrados, multiplicando-lhes o número de andares. A esse respeito é curioso anotar que suas mais altas habitações citadinas do continente americano nos primeiros quartéis do século XVII estavam no Recife. Para a época em que foram construídos, eram verdadeiros arranha-céos (sic), mais ousados do que os que hoje se constroem.”

No estado em que os encontrei, há décadas, são construções de extremo interesse para compreensão da tecnologia construtiva e da vida urbana de seu tempo. Denotam zonas da cidade com intensa valorização e densidade – no panorama de um continente selvagem e rural, pontilhado de umas poucas vilas de vida pasmacenta.

Em Curitiba, pode-se datar os primeiros passos da verticalização nos anos trinta – são dessa época as propostas iniciais de adensamento, sob vigência plástica do art-déco. A década seguinte será marcada pelos edifícios já bastante altos – ao redor de dez pavimentos – nas praças e logradouros centrais. Na década de cinqüenta, ingressa o que se pode chamar de “Modernismo pleno”. Evidente que esse balizamento por décadas se pretende esquemático e referenciado à construção residencial.

A verticalização é fenômeno tipicamente capitalista – maximizar o lucro do investimento no terreno. Onde o construtor é o poder público – Vila dos Bancários, dos Funcionários, dos Ferroviários – permanece a baixa densidade. Ainda se percebe essa tendência na Vila de NS da Luz, dos anos setenta e mesmo em formulações recentes.

Não disponho de levantamento preciso do percurso do adensamento na cidade, seguem algumas considerações de ordem conjetural.

Desde o período colonial, nas Cidades do Ouro de Minas Gerais – e o fenômeno é particularmente interessante em Mariana, Rua Direita e adjacências – os sobrados estreitos, com térreo comercial e sobrado residencial, são freqüentes. É inevitável imaginá-las como fervilhantes passarelas da vida urbana de então, desembocando sempre na Praça da Matriz.

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Rua Direita de Mariana, Minas Gerais, 1982

     Nas cidades que têm picos de crescimento da segunda metade do século XIX em diante, não é diferente: Machado tem interessante página sobre a Travessa do Ouvidor. E assim também nas demais capitais regionais, inclusive Curitiba: o sobrado residencial/comercial está presente e domina os logradouros centrais: Rua XV de Novembro, Barão do Rio Branco, Praças Generoso Marques e Tiradentes, entre muitas outros.

A economia madeireira marca a construção em Curitiba e no Paraná em mais de um aspecto, inclusive os conjuntos habitacionais. Com toda probabilidade como investimento, numa época de poucas opções de capital financeiro para a classe média, num mesmo terreno eram construídas várias casas de madeira para aluguel – iguais ou semelhantes entre si, com variantes diferenciais que não excluem a mesma concepção e execução.

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Conjunto residencial em madeira, já demolido – Curitiba

Simultaneamente, nas áreas mais centrais, constroem-se – em alvenaria e estética art-déco – o que se pode chamar, na prática, de pequenos prédios horizontais. Identificam-se pela quantidade e disposição das aberturas, pelo uso intensivo da taxa de ocupação, e pela volumetria, que os distancia das casas isoladas. A tecnologia construtiva é a da virada do século: revestimento em pó de pedra, pisos em tacos, granilha e ladrilhos, forro paulista, azulejos nas áreas molhadas, revestimento externo em pó de pedra. As esquadrias soem ser em imbuia, sendo substituídas em reformas por vitrôs. São espaços menos amplos que os do período anterior, e incorporam prerrogativas urbanas modernas: água, esgotos, energia.

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Museu Guido Viaro – Curitiba

Sua centralidade em relação à malha urbana os está condenando a um rápido desaparecimento pelo desvirtuamento dessas características essenciais à sua compreensão. Conjuntos sobrevivem em algumas esquinas: Rua Des. Mota com Saldanha Marinho, Duque de Caxias com Inácio Lustosa, Gal. Carneiro com XV de Novembro (Museu Guido Viaro).

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Conjunto esquina Rua Desembargador Mota com Saldanha Marinho – Curitiba

Há outros conjuntos de interesse para compreensão do fenômeno do adensamento sem verticalização, sempre no conceito do sobrado. Ainda se encontram umas poucas seqüencias que se diferenciam pela presença do esquema colonial no uso, sendo apenas residenciais. No entanto, recentemente regridem, sendo comum o uso do nível térreo para comércio ou serviços. Alguns apresentam traços sutis de neo-colonial, o que no entanto é escasso indício para datação.

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Essa solução é muito comum, por exemplo, em Montréal, e preservada nas ruas tradicionais. A continuidade dos jardins frontais enseja um paisagismo de amenização.

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Rue de Saint Denis – Montréal, 1988

Os recursos do Modernismo tiveram uso correto e criativo em algumas soluções na cidade, ocorrendo citar o conjunto projetado por Rafael Dely e Jaime Lerner nos anos setenta para uma esquina da Rua Mateus Leme com David Carneiro. Ou o conjunto, famoso pela primorosa conservação, ao contrário do anterior, na esquina das ruas Itupava com Almirante Tamandaré. Ainda que seja necessária uma flexibilização do conceito original de sobrado para entende-los como tal, é indispensável uma evolução da fórmula para adaptação aos tempos atuais.

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Conjunto esquina Ruas Itupava com Almirante Tamandaré – Curitiba

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Conjunto da esquina das ruas Mateus Leme com David Carneiro (Fotos de 1970)

Mas o abandono da estética modernista e a frouxidão legislativa permite que a fórmula do sobrado seja usada abusivamente, com resultados esteticamente ruins e desastrosos para o entorno.

As cidades paranaenses tradicionais têm interessantes acervos de arquitetura residencial art-déco, notadamente sobrados. Parece-me que o mais importante seja o de Porto União da Vitória.

Algumas leituras

– BATISTA, Fábio Domingos. A casa de madeira, um saber popular. Curitiba, Arquibrasil, 2011.

– BRUAND, Yves. Arquitetura contemporânea no Brasil. São Paulo, Perspectiva, 1981.

– JUREMA, Aderbal. O sobrado na paisagem recifense. Recife, Nordeste, 1952.

– MARIANO Filho, José. Estudos de Arte Brasileira. Rio de Janeiro, Mendes Junior, 1942.

– XAVIER, Alberto. Arquitetura Moderna em Curitiba. São Paulo, Pini / Curitiba,FCC, 1985.

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