LE VIEUX CINOCHE

6 de junho de 2015 por keyimaguirejunior

Memórias resumidas de um cinéfilo curitibano

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         Minha paixão pelo cinema começa logo após a alfabetização: depois da missa na Igreja da Ordem, tia Bete nos levava à matinada no Cine Ópera. Os desenhos de Tom & Jerry se sucediam na tela – e havia reclamação de decepção quando eram repetidos. O programador intercalava uns filmes engraçados, mas nunca Chaplin, Marx ou Gordo & Magro. Também não havia seriados – esses, assisti mais tarde, nas matinês do Cine Mercês, antes do filme principal – sempre aventuras. Não participei das famosas trocas de gibi na porta dos cinemas – isso era uma prática dos cines América e Curitiba, na Voluntários da Pátria. Eu não sabia que isso existia, até ser tarde demais…

Mas foi uns poucos anos mais tarde – início da década de sessenta – que a primeira sessão da tarde de domingo se tornou quase um vício. Havendo mais de um filme bom, também ia às salas na segunda sessão de domingo ou mesmo o sábado.

A Cinelândia curitibana, na avenida Luis Xavier, era um atrativo em si: diante do Cine Ópera (com suas luminárias em bronze lembrando a apresentação da Colúmbia Pictures), que era o mais prestigioso, estavam o Avenida e o Palácio, um pouco mais afastados, o Ritz e o Luz. Com o tempo, surgiram outros de primeira linha: Arlequim, Vitória, Lido, Condor, Rivoli, Scala, Glória, Plaza – este foi o último a fechar as portas.

Dos de bairro, só mesmo o mencionado Mercês – prá quê um morador do São Francisco, a trezentos metros da Cinelândia, tomaria um ônibus para ir ver filmes nas lonjuras?!

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     Os filmes, como os gibis, eram predominantemente americanos, aventuras (leia-se: western e policiais) e comédias, nada de muito picante. Vigorava o star system: a lógica era que, se um ator fizesse um filme muito bom, não ia “se michar” fazendo um ruim a seguir… Esse sistema era feito mais para os atores e menos para as atrizes: essas sofriam concorrência das mocinhas nas platéias. As saias começavam a encurtar e apreciávamos as cenas com deserto, neve e sol, que clareavam as salas para podermos vê-las… Acho que a primeira a quebrar a hegemonia masculina hollywoodiana foi a Brigitte Bardot, dificilmente classificável como feminista…

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     Falando nisso, acho que o programa de namorados nesse tempo era, essencialmente, cinema. Matinês para os iniciantes e paqueras; os mais velhos e mais comprometidos, primeira sessão da noite no máximo. O programa se completava com uma fatia de pizza no Savoy, um pastel na Oriental ou um doce na Famílias… e um refri com dois canudinhos, muito romântico. Só depois de feito o calçadão da Rua XV (1972), já com salário de estagiário, o luxo do sanduba no Mignon ou cerveja com fritas nos bares de calçada. Aí o bom, era pelo menos dois casais, rendia mais papo.

Também é por essa época – não lembro a data – que surge o Cine Santa Maria – que ofertava, aos domingos, veneno puro: filmes europeus, italianos, franceses, suecos, alemães, poloneses. Esnobados pelos cinemas da Cinelândia – para os quais filme sem fila de uma quadra era fraco – mostravam que filme bom não tem, necessariamente, tiroteio, correria de carros fazendo curva sobre duas rodas, cowboys e tiras prepotentes. Tal como no gibi, dá prá contar histórias que fazem pensar e sonhar.

Depois chegaram o Cinema I e a Cinemateca do Museu Guido Viaro e, bem mais tarde, o Cine Groff. Daí, cinema era programa prá se sacrificar outras atividades, inclusive aulas noturnas na faculdade… E não só pelos filmes em si: o fascínio tornava indispensável ler xerox de artigos dos Cahiers du Cinema cedidos por algum amigo igualmente fanático; ler livros sobre história do cinema; freqüentar festivais e retrospectivas; abastecer a biblioteca periodicamente na Barão de Itapetininga (Livrarias Francesa e Italiana); roubar cartazes e materiais publicitários nas portas dos cinemas; recortar revistas, etc.

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Por falar na Cinemateca, lembro do Valêncio Xavier esbravejando que “jamais permitiria que a Cinemateca enveredasse por essa babaquice de cinema de arte”. Bem, seja lá o que for que ele entendesse sob esse rótulo, ele e o Chico Padre sempre mantiveram uma linha precisa, com prioridade ao documental e experimental.

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     Não estou tentando aqui fazer “História do Cinema”, apesar de que acho essa uma área muito negligenciada: melhor assistir filmes do que pesquisar sobre eles, parece… Estou depondo resumidamente.

No fim dos anos oitenta, os shoppings liquidaram com os cinemas – e não apenas com eles, mas também com toda a sociabilidade da Cinelândia. Bom teimoso como sou, o último filme a que assisti em cinema de verdade foi o “Titanic”, num Palácio já meio decadente. Nunca fui a cinema de shopping. Fui, algumas vezes, às tentativas de resgate das salas tradicionais, Luz e Ritz, que duraram pouco e não seguraram a nossa Cinelândia.

De lá prá cá, cinema só em casa, DVD alugado ou comprado.

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Conclusão: já fiz alhures (!) relações dos meus gibis preferidos, e me ocorre fechar essas poucas memórias de cinéfilo com uma lista dos diretores da minha predileção.

1 – Akira Kurosawa

2 – Jacques Tati

3 – Federico Fellini

4 – Luchino Visconti

5 – Alfred Hitchcock

6 – Terry Gillian

7 – François Trufaut

8 – Werner Herzog

9 – Bernardo Bertolucci

10 – Fritz Lang

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