UMA PAISAGEM PARA PONTA GROSSA

21 de maio de 2015 por keyimaguirejunior

A expressão “patrimônio histórico” passa a fazer sentido a partir da consciência da população de uma cidade em relação à sua vivência – ela não é vista, então, apenas como o lugar de morar e trabalhar, mas como espaço da sociabilidade, do viver e do sentir-se em seu território. Não é possível uma ação de preservação sem o componente afetivo e cultural – ainda que, paralelamente, questões econômicas possam ser consideradas.

Estarei usando o percurso curitibano como exemplo não pela proximidade, pela condição de capital da cidade e menos ainda, porque ache extraordinários os efeitos aqui obtidos – mas porque acompanhei as questões da preservação na cidade e no estado desde seus primeiros momentos, no início dos anos setenta.

“Patrimônio Histórico” é um acervo que propicia a uma cidade a consciência de seu percurso enquanto urbe – suas ocorrências e características, não necessariamente efemérides com personagens históricos de relevo nacional ou muita antiguidade. Estes são importantes – mas importam principalmente os fatos regionais, as especificidades do lugar, os modos específicos de fazer.

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     Necessariamente, a construção de uma paisagem/patrimônio para uma cidade, parte do conhecimento de sua história – da ocupação regional, centralizada num dado logradouro: o mais das vezes, uma praça diante da igreja matriz, que é espaço de feira e comércio de abastecimento. Agrupam-se aí também espaços administrativos, comerciais e senhoriais, na esteira da sociabilidade gerada pela igreja.

Desde o século XVI, bandeiras paulistas, preadoras de índios e buscadoras de ouro, cruzam a região no sentido leste-oeste e norte-sul, pontilhando os Campos Gerais de fazendas e pontos de colonização. O fator decisivo de fixação é a igreja – marcadamente, pelos então poderosos jesuítas, presença marcante no território paranaense: não percamos de vista que, na vigência do Tratado de Tordesilhas, espanhol na sua quase totalidade.

Esse processo de fixação, brilhantemente identificado por Sérgio Buarque de Holanda em “Raízes do Brasil”, e escassamente questionado – leva à configuração espacial das cidades brasileiras do período colonial: o crescimento se organiza em função da circulação da população e dos acessos ao centro urbano. Posteriormente, surgem posturas ditadas pela Câmara buscando ordenar alinhamentos e outros itens – o que não caracteriza um desenho prévio.

Para além das fazendas e sesmarias, e do episódio das bandeiras – de que o Paraná teve o duvidoso privilégio de ser um dos principais devastados – o primeiro ciclo econômico de consolidação de Ponta Grossa foi o tropeirismo. É mencionada uma “Casa de Telha”, construída próxima à igreja, apoio nas longas travessias do Viamão a Sorocaba.

Castro, Lapa, São Luis do Purunã guardam ainda, em seu traçado urbano, frações do trajeto tropeiro – não é possível identificar seus sinais em Ponta Grossa?

Não disponho de estatísticas do crescimento populacional da cidade e sua relação com as economias regionais, mas os números encontrados foram, em quantias arredondadas:

1940 – 30.000

1950 – 53.000

1960 – 78.000

1970 – 141.000

1980 – 172.000

Percebe-se que o crescimento da Freguezia da Estrela, estabelecida em 1823, não chega a dobrar a cada decênio, e recebe seu maior impulso a partir do chamado “êxodo rural” dos anos 60.

A questão importa como base para se avaliar o acervo de arquitetura eclética, visto ser improvável a existência de remanescentes da arquitetura luso-brasileira. O interessante visual original, “a cidade em cima do morro”, também já foi submerso pelo crescimento. O período de ecletismo na arquitetura brasileira vai aproximadamente de 1816 a 1922 – limites didáticos e arbitrários apenas, mas podemos aceitá-los como referenciais.

Algumas construções pontagrossensses são marcos arquitetônicos da cidade. Além de alguns sobrados nas ruas centrais, temos o Colégio Regente Feijó e a Vila Hilda.

O Colégio, dos anos vinte do século passado, foi construído na administração de Caetano Munhoz da Rocha, como parte de sua política para descentralizar a formação de professores. Foram construídos dois grandes colégios: o de Paranaguá, que hoje tem seu nome – e em Ponta Grossa, considerada como “o portal dos Campos Gerais”. Já a visita de D.Pedro II, em 1880, atestava esse caráter da cidade. Portanto, ponto de apoio à ocupação territorial, que só se vai completar na década de sessenta. Esse é o significado do Colégio – e o torna um dos itens principais do patrimônio da cidade.

A Vila Hilda, contemporânea, mandada fazer por um industrial, é típica formulação burguesa – equivalente às construídas, em Curitiba, pelos “barões da erva-mate”. Indaga-se aqui da importância da Ilex para a cidade. Como a produção do interior do estado demandava o litoral para exportação, necessariamente Ponta Grossa esteve presente no ciclo – e deve ter remanescentes. Mesmo que a ferrovia, chegada à cidade em 1894, tenha sido apenas ponto de passagem, não se pode perder de vista que o próprio estado do Paraná decorre do ciclo ervateiro.

O Período de Ecletismo deve ter deixado muitas formulações mais simples e mais numerosas que as duas construções mencionadas: elementos do neoclássico, neogótico, neocolonial e outros “neos” da mentalidade eclética. São unidades que importam à construção cênica da paisagem cultural da cidade. Pisos de calçadas são componentes de interesse na paisagem: as praças Duque de Caxias e Barão de Guaraúna já tiveram bonitos padrões em petit-pavê.

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Em todo o estado do Paraná, a economia madeireira intermediou a da erva mate e a do café. Foi intensa na região de Ponta Grossa, favorecida por densos pinheirais e muito bem contada na auto-biografia de Eno Teodoro Wanke. Se a erva mate deixou arquitetura influenciada pelas grandes cidades brasileiras, isto é, seguindo tendências ecléticas – no Paraná a madeira fez desenvolver uma construção característica da região: é a “Casa de Araucária”, feita segundo a técnica “tábua e ripa”. É a verdadeira “arquitetura paranista”, e não resultou apenas em casas, mas em tudo o que se podia fazer com ela – e foi muito.

Foi material abundante e barato, preferencial pela sua presença no mercado. Esses mesmos fatores a levaram a ser preterida, à força de preconceitos estimulados pelos interesses de mercado. E desapareceu do centro das cidades, onde foi reprimida pelas legislações. Sua presença na cultura regional, no entanto, torna indispensável um esforço para preservar alguns exemplares no cenário urbano: foi certamente o tipo de construção mais presente nas cidades mais tradicionais do Paraná. De rica tipologia e encanto, dificilmente se encontrarão construções passíveis de preservação no centro das cidades. Assim como em Curitiba e demais cidades do estado, foram mal conservadas e banidas por isso.

Mas a construção de uma paisagem histórica não pode ignorá-las, ainda que para isso, seja necessário traslado de unidades representativas. Existe tecnologia para isso.

É indispensável uma investigação em paralelo para identificar eventuais contribuições das correntes étnicas mais importantes. Na configuração cultural paranaense, a presença dos imigrantes europeus e eslavos não pode ser ignorada. Muito embora a concentração maior tenha sido em Curitiba, algumas etnias se fixaram em núcleos rurais, aos quais imprimiram suas tradições, construtivas inclusive. É nitidamente o caso de Prudentópolis – mas sua influência arquitetônica deve ser identificável na maioria das cidades paranaenses. Os fluxos aconteceram entre o quarto final do século XIX e a Segunda Guerra Mundial.

A década de trinta se caracteriza, em todo o Paraná, pela presença do art-déco. Documentos como o relatório do interventor Manoel Ribas demonstram que essa tendência, se não era oficial, era pelo menos muito prestigiosa, presente na maioria das obras governamentais.

Independente de estilo, todas as igrejas, construídas para tal, são importantes na paisagem: são frutos de investimento da população ao longo de anos. O próprio fato de se ter perdido a interessante Igreja Matriz original – que não foi aceito com facilidade pela população – torna as remanescentes mais valiosas. São e foram decorrência da sociabilidade, são obras coletivas e pertencem à cidade.

Da mesma forma e pelas mesmas razões, construções como a Santa Casa, colégios e escolas, instalações do Judiciário, sociedades e clubes. Se desfuncionalizados, podem abrigar instituições culturais.

O art-déco, “estilo” que anuncia o Modernismo, torna explícitas transformações que vinham ocorrendo por trás das fachadas ecléticas, com sentido de modernização da construção e industrialização dos materiais e elementos construtivos. Assim, além de uma estética externa que permite identificá-lo à primeira vista, são sempre presentes o pó-de-pedra, as esquadrias que transitam das guilhotinas em madeira para o vitrô. Internamente, tornam-se quase inevitáveis os tacos, granilhas, lambris, forro paulista; as peças sanitárias tornam-se comuns, em vista da expansão das redes de águas e esgotos.

Sua presença ainda é bastante forte nas regiões centrais de Ponta Grossa, denotando uma fase de crescimento e renovação intensa da cidade. Pode ser pensado como “aglutinante”, elemento capaz de dar continuidade dentro da paisagem preservada.

Chegamos, assim, ao Modernismo. A associação solerte de seus partidários com conceitos tais como “progresso” e “modernidade”, tornou-o imperativo e inevitável. Preconiza aliança com a produção industrial – levando, em decorrência, às últimas conseqüências, a estética pioneiramente anunciada pelo art-déco. O mercado da construção o assimila com facilidade e seu vocabulário estético despojado, é de fácil assimilação pelos construtores e engenheiros que dominam o projeto até meados do século XX.

O grande problema de incorporar construções modernistas numa paisagem que se pretende histórica, é que a tecnologia do concreto armado – do qual é indissociável – viabiliza a verticalização. São, em grande parte, construções volumosas e agressivas ao entorno, apequenando-o. É difícil a qualquer área, não pré determinada urbanisticamente, histórica ou não – conviver com os edifícios. Não há como neutralizar sua presença e, pior, não há como evitar que continuem sendo feitos, é imposição mercadológica capitalista.

No entanto, nem só os prédios foram feitos pelo Modernismo – ele está presente, na região central de Ponta Grossa, em várias construções residenciais horizontais, de bom projeto. A casa Rocha Czech, apresenta soluções originais e inovadoras dignas de nota. O Modernismo já foi chamado de “último estilo da história da arquitetura – o que vem depois dele, é a atual produção de mercado.

Até aqui podem chegar as preocupações com a formação de uma paisagem cultural no centro de Ponta Grossa. O momento é de crescimento intenso e, em poucos anos, pode-se perder qualquer possibilidade de configurá-la satisfatoriamente. Os momentos de revisão do Plano Diretor podem ser adequados às adaptações legais necessárias e sincronia de ações para criação da paisagem.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

– BALHANA, Altiva Pilatti & PINHEIRO MACHADO, Brasil. Campos Gerais, estruturas agrárias. Curitiba, UFPR, 1968.

– BUARQUE DE HOLANDA, Sérgio. O semeador e o ladrilhador. IN: Raízes do Brasil. Brasília, EUB, 1963.

– CARDOSO, Jayme Antonio & WESTPHALEN, Cecília Maria. Atlas histórico do Paraná. Curitiba, SECE, 1981.

– CHAVES, Niltonci Batista (org). Visões (sic) de Ponta Grossa. Ponta Grossa, UEPG, 2001.

– DELSON, Roberta Marx. Novas vilas para o Brasil-colônia. Brasília, Alfa-Ciord, 1997.

ENCICLOPÉDIA DOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS. Rio de Janeiro, IBGE, 1959. Volume XXXI: Paraná.

– KHATIB, Faissal. Municípios do Paraná. IN: História do Paraná. Curitiba, Grafipar, 1969.

– LAROCCA, Joel e Pier Luigi, & ALMEIDA LIMA, Clarissa. Casa eslavo-paranaense. Ponta Grossa, Larocca, 2008.

– RIBAS, Manoel. Relatório de governo 1932/ 1939. Curitiba, Imprensa Oficial, 1940.

– TRINDADE, Jaelson Bitran. Tropeiros. São Paulo, EPCL, 1992.

– VEIGA LOPES, José Carlos. Aconteceu nos Pinhais. Curitiba, Progressiva, 2007.

– WACHOVICZ, Ruy Christovam. História do Paraná. Curitiba, Vicentina, 1988.

– WANKE, Eno Teodoro. Memórias. Rio de Janeiro, Plaquete, 1993 (1º volume) a 1997 (8º volume)

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As fotos são da revista “Vida Princesina”, de Ponta Grossa, edições 38 (setembro de 1944) e 39 (janeiro de 1945)

Observem o calçamento em petit-pavê sob os pézinhos das patricinhas princesinas…

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