AS BICHAS URBANAS

14 de maio de 2015 por keyimaguirejunior

Um “Dicionário Lusofônico da Língua Portuguesa”, que não sei se foi escrito mas urge, definiria “bicha urbana” como:

Seqüência de pessoas com um determinado e mesmo interesse, aguardando pelo mesmo atendimento no mesmo local urbano, por vontade própria e senso de organização civil ordenadamente dispostas no mesmo sentido e uma em pós a outra.

Há quem suponha que eles, lusitanos, deveriam acatar o brasileirismo “fila” – mas esse os incomoda muito, quem faz a sugestão escuta a objeção: “fila é cachorro, ora pois!”

Na verdade, eles estão certos, acredito que a palavra foi herdada do italiano – filho primogênito do latim – “bischia”. Que é cobra de jardim, sem veneno nem agressividade – e que, por ser comprida como convém à sua natureza ofídica, o vocábulo teria sido usado para designar pessoas enfileiradas. As pessoas em bicha seriam, pois, como as vértebras da bischia – fácil, né?

BISCHIA

No entanto, a bicha em sua acepção lusofônica tradicional, é mais um hábito urbano em desuso, decadente mesmo. E, admitamos, a bicha era fator de sociabilidade. Quanto encontro não foi marcado com um “nos encontramos à bicha do cinema, pá!” e quanto namoro e casamento não começou à bicha?!

Claro, houve bichas de má lembrança, como as do Plano Cruzado, onde havia bichas para tudo e a alternativa era passar fome. Essas eram verdadeiras anacondas, pítons ou jibóias, como queiram os herpeologistas – o fato é que matavam por asfixia.

Voltando aos cinemas de rua, que eram os bons, havia sempre duas bichas pelo menos: a “bicha de comprar” (o ingresso) e a “bicha de entrar”, de posse da entrada, no cinema.

Em que pese esse lado simpático e social das bichas, essa prática não deixou saudades. Estar à bicha sob o sol, a chuva e as intempéries, gerava uma relação custo/benefício muito baixa, e a lembrança deixada por essas bichas não é das mais agradáveis.

As bichas urbanas sobrevivem, hoje, em tempos neoliberais, nos pontos de ônibus, postos de saúde e da previdência, entre outras. Essas, só de aflorarem à memória, são malditas, e o que não falta, na nossa vida urbana, são motivos para maldizer.

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