ALTERAÇÕES NO PLANO DIRETOR DE CURITIBA: MARCHA À RÉ, A TODA VELOCIDADE!

8 de maio de 2015 por keyimaguirejunior

      “O que você acha pior: Átila, que por onde passava deixava deserto eterno, ou o urbanismo moderno?” (Millôr)

      “O arranha céu só deu certo em Nova York. Em quase todos os outros países, é uma excrescência. No Rio é um, crime sem nome.” (Idem)

Está para ser consumado o fim de Curitiba, nas alterações propostas para o Plano Diretor. É só perceber onde se fixa a discussão: tudo é irrelevante, desde que a cidade seja entregue aos imobiliaristas.

Montou-se uma farsa – orquestrada por “consultas” manipuladas à população e instituições – desde que isso começou, com cara de armadilha. E assim se comprova, agora que a “coisa” vai virar lei e terá que ser seguida.

Há tempos, (24 de dezembro de 2014) publicou-se matéria na imprensa local, onde luminares de uma faculdade privada – portanto, empresa tanto quanto as imobiliárias – preconizavam, com os argumentos de sempre, “verticalização e adensamento”. No dia seguinte, o jornal publicou dois protestos dos leitores, que evidentemente as “consultas” à população desconsideraram:

      “Essas idéias nada mais são que pensamento urbano burguês. Pensamento esse que somos obrigados a aprender nas universidades com professores que a vida inteira foram beneficiados pelo modelo de sociedade civil seccionada pelo capital. O futuro das grandes cidades como Curitiba, não se encontra na compactação e avanço da cidade, mas no crescimento magnífico dos grandes centros.”

      Outro leitor, mesmo dia:

“Sou totalmente contra essa história de adensamento. Deveriam proibir edifícios altos e lotes com menos de 360 m². Só assim poderíamos parar o crescimento populacional e preservar a verdadeira Curitiba. O ideal era, inclusive, mudar a administração do estado para outra cidade, no interior, longe de Curitiba, e parar de fazer a cidade crescer.”

O pouco que resta da cidade vai ser detonado: suas áreas horizontais serão adensadas e sobrecarregadas de edifícios que vão acabar com as estruturas urbanas existentes. Onde havia uma casa, com uma família consumindo água e energia, despejando esgotos na rede e estacionando seu carro na garagem, vai haver um prédio com cinqüenta vezes mais gente sobrecarregando as redes e o trânsito. Mas os imobiliaristas estarão longe, curtindo suas casas com extensos terrenos, proporcionados pelas gordas contas bancárias. Já ganharam e ninguém, quando a situação se tornar explosiva, vai se lembrar deles como culpados. Eles ficam com o lucro e a população com a cidade detonada. A prefeitura se esbaldando com o IPTU multiplicado e empurrando o problema com a barriga: afinal, quando a problema se tornar insolúvel, o prefeito será outro, de outro partido… que se dane.

Cito o prof. James M.Fitch, da Columbia University:

Não existem dúvidas quanto ao aumento da capacidade produtiva propiciado pela mecanização. Porém os ganhos obtidos em um setor encobrem as perdas em outros. Isto é certamente verdadeiro para a arquitetura e o urbanismo, onde os custos reais podem ser escamoteados de três maneiras:

1- O custo real é transferido do empresário individual para a comunidade, na medida em que o empresário deixa de assumir em seus empreendimentos a responsabilidade de providenciar os equipamentos e infraestruturas que integram o processo de urbanização.

2- Os custos finais de novos empreendimentos são encobertos por sua transferência de nações ricas industrializadas para as pobres produtoras de matérias primas. Essa transferência oculta permite à típica família americana de classe média consumir 3.500 vezes mais energia por ano que a família camponesa que a supre com óleo, juta, cacau ou bauxita.

3- Finalmente, os custos reais dos altos índices de obsolescência tecnológica podem ser transferidos do presente para o futuro. O desenvolvimento urbano, hoje, é feito com destruição dos limitados recursos em terras, florestas e combustíveis, sem mencionar a quase irreversível poluição.”

O olho gordo dos imobiliaristas está assentado nos bairros mais tradicionais de Curitiba: ao norte e próximos do centro, nitidamente horizontais e pouco densos. E se são tradicionais, são também antigos – aqueles que no plano diretor original de Jorge Wilhelm, que era o bom, eram chamados de “ZR” – áreas de baixa densidade, inclusive pela legislação. Esse foi o plano que levou a cidade a ser considerada um “modelo de planejamento”, e não a pirataria e pilhagem que se está perpetrando.

A região visada é a única em que Curitiba ainda é Curitiba: do centro para o norte. O demais, é São Paulo versão sulista. Uma pesquisa que deveria ser feita e evidentemente não o será, porque demonstraria minha tese, é que essa região ao norte é principalmente de “nativos”, descendentes das primeiras correntes migratórias. Ao sul, a população maior, é ou descende de migrações recentes, população majoritária e contra a qual nada tenho, muito pelo contrário. Meu ponto é simplesmente, que ainda é possível manter a parte original da cidade sem prejuízo da outra.

Citação do jornalista Alan Mattingly, do “New York Times” publicada pela Gazeta do Povo de 28 de abril de 2015:

      “Para pessoas que pertencem a determinado lugar, a identidade de uma cidade é importante. É sua história. A sua cultura. Peças que fazem uma cidade ser diferente das demais.”

Mais citação, para mostrar que minha posição não é isolada, mas endossada por gente que pensa. Essa é da Revista da Cultura, edição 89, de dezembro de 2014, texto de Mauricio Duarte:

“O morador não tem condição de enfrentar esse trator que é o interesse imobiliário, fica uma briga entre Davi e Golias. Ele perde seu bairro, sua casa, sua referência social. O acúmulo de prédios sem contrapartida urbanística vai acabando com as cidades. Elas vão se perdendo e ficando todas iguais. Os moradores são jogados aos leões. O processo é muito perverso. Por um lado você tem o investidor imobiliário com toda a infraestrutura, inclusive com equipes treinadas para coagir pessoas a se desfazer de seu imóvel, supostamente por um bom preço”, afirma Lucila Lacreta, arquiteta e urbanista, diretora do movimento Defenda São Paulo. Para ela, comunidades tradicionais que vivem em torno de um “bem comum” em bairros residenciais estão sendo desfeitas e as cidades estão cada vez mais homogêneas, no sentido de perderem as características peculiares.”

Portanto, minha defesa dos bairros tradicionais ao norte não interessa apenas a eles, mas à cidade como um todo. Essa identidade é o que se quer destruir com as alterações no Plano Diretor, colocando a cidade nas mãos dos patrocinadores dos políticos. Mais sujos a cada novo escândalo, cada vez fica mais claro quem são os corruptos e os corruptores.

Essa destruição programada vem com outra insidiosa armadilha, travestida de justiça social: a declaração de “interesse social” de áreas consideradas subutilizadas. A agressão é violentíssima: qualquer terreno baldio pode ser “de interesse social”. Eu até concordo com isso, mas entendo que interesse social é o da cidade, não o dos grupos políticos que estão articulando esse truque. Áreas subutilizadas devem ser aproveitadas para rebaixamento da densidade, para respiro e permeabilidade do solo, vegetação e despoluição, equipamento de lazer, no máximo.

Mas o que se esconde sob esse eufemismo de “interesse social” é trazer as favelas para dentro das ZR. Nada contra moradores de baixa renda – mas tudo contra bandidos e traficantes, já suficientemente protegidos por leis e pelo poder público.

Com adensamento e “uso social” das áreas, fica tudo como o diabo gosta: fora de controle e no rumo do caos irreversível. Do qual políticos saberão tirar partido eleitoral, com promessas que são mentiras – taí a situação dos professores que não me deixa mentir – e uma empostação de que isso é o progresso.

Como disse em outra ocasião, nada há a ser feito, os vereadores vão homologar servilmente a vontade dos patrões e dos patrões dos patrões.

Prá mim, mais uma causa perdida: tudo o que posso fazer é prometer tirar tantos votos quantos puder dos atuais investidos numa próxima eleição.

A. NOVAK

Citação visual: A. Novak, no livro “Zmojega okna”, publicado em Liubliana em 1989. A luta contra verticalização e adensamento é planetária, embora ainda contida pelo poder do neo-liberalismo.

 

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