A EGÜINHA DO PADEIRO

19 de abril de 2015 por keyimaguirejunior

(Publicada originalmente no “Diarinho” de Itajaí, em 08 de abril de 2015)

Tem jeito de lenda urbana, mas acho que não é. A mesma história, contada por pessoas não relacionadas entre si e de cidades diferentes, tem muito prá ser verdade.

No tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça (isso sim, é lenda: significa tempos sem crise) leiteiro e padeiro entregavam seus produtos a domicilio, de madrugada. Havia caixas metálicas no portão das casas, com portinhas: ”Correio”, “Leite”, “Pão”. Até aí, nada tem de lenda: ainda são encontradas, ao lado dos portões, abandonadas. Os moradores retiravam pelo lado de dentro as mercadorias. O que é de pasmar é que não eram roubadas, nem o pagamento ali deixado na noite anterior, e que poderia ser o acerto do mês!!!

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     E aqui entra o nosso tema: a egüinha já fizera tantas vezes a entrega, que ia no piloto automático de uma casa para a seguinte, sem erro nem interferência do padeiro.

Fico pensando com meus botões: qual era o referencial cavalar?

Visual, dificilmente, visto os humanos colocarem nos animais aquelas antipáticas viseiras, tipo “trabalhe e não olhe pros lados”. Cheiros? Até pode ser, mas a fama de bons cheiradores pertence aos cães. Algum som específico? Difícil imaginar que, no silêncio das madrugadas – é, nesse tempo as madrugadas eram silenciosas – as casas emitissem algum som equïnamente identificável. Talvez ela memorizasse um ritmo, entre as paradas em tempos desiguais. Mas nem os humanos, escravos do relógio, temos essa faculdade. Segue sendo uma incógnita, para mim, qual a lógica da egüinha do padeiro.

Agora os senhores estarão pensando: “o que deu na cabeça desse cronista prá querer entender o que se passa na cabeça de uma fêmea cavalar?!” E eu vos direi, no entanto, que o que não entendo é a facilidade com que as pessoas abrem mão de seus referenciais, sejam eles quais forem.

Mudar de casa, de cidade, de país – são opções quase irrefletidas, tomadas por “dá cá aquela palha”. Não são apenas perspectivas melhores de vida, é o tal desapego preconizado pela mentalidade neoliberal. Em cada mudança, os referenciais são abandonados, perdidos – as pessoas passam a viver como “cachorro que caiu do caminhão da mudança”.

Claro que interessa aos donos do sistema essa mobilidade: a cada mudança, obras de adaptação do novo lugar, novos equipamentos, novas despesas – vale dizer, mais consumo e os governos deitam e rolam na arrecadação.

Voltarei ao assunto numa das próximas crônicas, mas afinal, onde entra a egüinha do padeiro?! Acho que o referencial dela é que se chama de “querência”, palavra esquecida, que significa “querer bem” a um lugar – instinto, sentimento que os animais têm e os humanos perderam.

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