O TICO-TICO: O MAIS BRASILEIRO DOS ALMANAQUES

15 de abril de 2015 por keyimaguirejunior

Tendo completado centenário em 2005, e portanto fazendo 110 anos neste outubro, sobre o “primeiro gibi brasileiro” pouco resta a ser dito. Mas tendo me acontecido o acesso a uma amostragem interessante – ver quadro nas “fontes e referências” – não há como não fazer aqui um post-homenagem.

Essa amostragem de almanaques, que começaram a ser publicados em 1905 e foram até 1958, é menos que a segunda metade da sua existência – mas é uma sequência contínua.

O almanaque foi editado mais resistente que a revista, com capa dura, lombada de percaline, formato 23 X 31 centímetros e cerca de 140 páginas.

São grandes colchas de retalhos, e pode-se dizer que não era um álbum de quadrinhos, mas com quadrinhos: fica para quem tiver a santa paciência, calcular áreas de HQ, texto e publicidade…

A área útil é coberta por matérias que vão de pequenos boxes a páginas duplas, muito raramente excedendo esse limite. Aí há de tudo, de pequenos cartuns e tiras, a anúncios e ilustrações. Essas predominam largamente sobre os textos, variando entre o apenas razoável e as muito caprichadas.

Já se falou do quanto O Tico-tico e outras revistas da época abrasileiraram HQs americanas – sendo o mais notório, o caso de Buster Brown/Chiquinho, decalcados dos originais. Mas essa versão brasileira podia ser levada mais a fundo, como quando Paulo Afonso refaz o “Ripley’s Believe it or not”. Houve também reproduções qualificadas, como Mickey e Feliz the Cat, mas que nunca chegaram a ser importantes. Interessante foi encontrar, por duas vezes, o inventor argentino Don Simon…

A publicidade se encontra principalmente nas guardas, mas também misturada com as demais matérias. É freqüente e interessante quando são feitas pelos artistas ilustradores da revista, que tornam o ler publicidade tão atraente quanto as historinhas de fantasia e humor… Houve também páginas inteiras, inclusive coloridas, com excelente arte.

Os textos, sejam contos, poesia, biografias, relatos comportam sempre ilustração com área igual ou próxima. Raramente encontramos autores não brasileiros – em compensação, aí estão todos os nacionais que participam das antologias literárias infanto-juvenis da época.

Há muitos “jogos e passatempos” – os tradicionais liga-pontos, palavras cruzadas, cartas enigmáticas, labirintos. Felizmente, as páginas para recortar e colar são poucas no período: elas implicam na destruição da revista. Fora da amostragem, num almanaque de 1922, são dez as paginas duplas com bonitas ilustrações para recortar – e, no verso delas, as melhores HQs, coloridas e bem impressas…

Há algumas constantes que se repetem anualmente: a letra do Hino Nacional Brasileiro não falha, nem o calendário com seus santos; quase sempre há uma partitura simples de música infantil.

O rol dos ilustradores, cartunistas e quadrinistas é muito grande. Embora faltem muitos dos contemporâneos e haja muitos desconhecidos – a ausência de identificação ou assinatura é comum – a equipe variou relativamente pouco ao longo das décadas da amostragem, e tinha pessoal de talento.

J.Carlos é sem dúvida um dos maiores artistas brasileiros, reconhecido ainda em vida (ver referências). No entanto, há pelo menos três artistas gráficos, não exclusivos do Tico-tico, a merecer estudos e, principalmente, antologias: Luiz Sá; os dois Storni (pai e filho), autores de quase a metade das capas da amostragem; e o mais engraçado de todos, Max Yantok, com seus personagens sem noção, amalucados, exagerados, num traço descontraído, original e inconfundível.

No editorial do almanaque para 1941, lemos a profissão de fé dos editores:

“… mas não é só o aspecto material que nos interessa. O texto do almanaque d’O Tico-tico não é apenas uma sucessão inconseqüente de aventuras fantásticas e histórias maravilhosas, também constitui uma contribuição nossa para a educação moral e cívica da nossa juventude. (…) E, entre uma lenda e um “raid” ao país da aventura, há sempre algo que aprender, algo que deve ficar gravado na memória e no coração dos nossos pequenos leitores.”

No álbum comemorativo do centenário, diz Waldomiro Vergueiro:

“Esses aspectos (moralistas e patrióticos) foram plenamente assimilados pelos adultos, que viam na revista uma poderosa aliada para complementação de seus esforços formativos.” É verdade que o Tico-tico atravessou galhardamente o período de rejeição causado pelo livro “A sedução dos inocentes”: era leitura confiável.

Sérgio Augusto bate mais forte:

“ (o Tico-tico) fez mais pela educação no Brasil que todos os ministros que disso se encarregaram nos últimos cem anos. (…) Alunos, privados entre outras coisas, do didatismo alegre do Tico-tico, não conseguem mais escrever uma dissertação – e talvez nem saibam o que é isso.”

 

FONTES E REFERÊNCIAS

  • O quadro abaixo localiza as coleções usadas como amostragem no presente post, no contexto da vida do Almanaque do Tico-tico. O mais antigo coincide com a Semana de Arte Moderna de São Paulo e o último, com a inauguração do Palácio da Alvorada em Brasília, símbolo de uma época…

 COLEÇÃO TICO-TICO

COLEÇÃO DE ALBA MARIA E MARIA ALICE LEONE  (VERMELHO)  OBRIGADO PELO EMPRÉSTIMO! VALEU!

MINHA COLEÇÃO (AZUL)

  • LIVROS

2.1- ROSA, Franco de (org). O Tico-tico; cem anos. São Paulo, Opera Graphica, 2005.

2.2- O Tico-tico; edição comemorativa dos 50 anos. Rio de Janeiro, O Malho, outubro 1955.

2.3- Memórias do Tico-tico: J.Carlos. Brasília, Editora do Senado Federal, 2009.

2.4- LIMA, Herman. J.Carlos. Rio de Janeiro, Serviço de Documentação do MEC, 1950.

2.4- NOSSOS HERÓIS E SEUS CRIADORES. Almanaque do “Tico-tico” para 1942.

2.5- O TICO-TICO; uma revista impressa na lembrança. São Paulo, SESC Vila Mariana, 2003.

3 – ILUSTRAÇÕES

3.1- Algumas capas da amostragem.

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3.2- Interessante e pouco conhecida HQ: “Caxumba”, rara pelo tema amoroso. Almanaque de 1941.

 Caxumba 19410015

3.3- Seqüência de tirinhas, das páginas do Calendário para 1949, da autoria de Mário (ilegível) e que aqui fica para gáudio de quem acredita em “politicamente correto”…

 ENCICLOPEDIA MALUCA A ENCICLOPEDIA MALUCA B

3.4- Anúncio do Leite Condensado em 1922. Procurem os detalhes…

Milk-1922 (1)

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